“Ai, que conflito, roubaram o cabrito do seu Benedito”


Esses versos, do samba do Zeca Pagodinho, evocam uma das dimensões que as festas  costumam colocar de relevo: o conflito.  Conflito que resulta das diversas concepções de mundo que podem entrar em contato por ocasião do evento festivo de qualquer natureza.

O por outro lado, a natureza sociológica do conflito, nos diz George Simmel, é indispensável à coesão dos grupos sociais. È  condição também, para a manutenção dos grupos e importante para produzir processos de mudança social.

Registro, a seguir, um breve e atual exemplo.

Neste sete de setembro, um grupo de amigos do Bairro de Botafogo, comemoram   25 anos de criação do  carnavalesco Bloco de Segunda. Seu primeiro desfile, realizado em um dia que, segundo indica a tradição, está reservado para as paradas militares, causou, além de surpresa, conflito, com as autoridades.

A convocação para o desfile comemorativo, neste democrático sete de setembro, não foi, novamente, muito bem vista pelas autoridades. Num primeiro momento,  a manifestação festiva  foi proibida. Após várias discussões a prefeitura resolveu permitir, com restrições, a realização da festa. A mobilização em torno da defesa desta manifestação da cultura popular, se deu, principalmente, em torno das novas redes sociais.

Reproduzo a seguir a  carta  enviada ao Senhor Prefeito da Cidade, não posso afirmar que tenha sido lida nem que tenha motivado a liberação do desfile embora possa afirma  que foi um bom mecanismo para a coesão do grupo.

Exmo. Senhor

Eduardo Paes

Prefeito da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

O Bloco de Segunda criado em 1987 teve seu batismo de fogo, para espanto de muitos, no seu desfile inaugural no dia 7 de setembro. O Bloco de Segunda surge, no contexto da luta pela democratização do país e no centro da discussão sobre a “Constituição Cidadã” que seria promulgada no ano seguinte. Naquele contexto seus organizadores formularam uma simples e precisa pergunta: afinal, se os militares ocupam as ruas para comemorar o dia da independência, por que não os civis?

O desfile, com direito a repressão policial e ameaças de prisão, inaugurou uma tradição na cidade que se expressa, através da festa, na defesa de valores centrais para a construção da cidadania: encontro, solidariedade e participação.

Passados 25 anos desse encontro inaugural, a cidade festeja o crescimento e a importância do Carnaval de Rua. Foi o que fez, por exemplo, o secretário de Turismo e presidente da Riotur, Sr. Antonio Pedro Figueira de Mello, ao divulgar o balanço final da festa que mobilizou, no último carnaval, 5,3 milhões de pessoas e movimentou U$S 650 milhões. Esses números são importantes para o turismo e para a cidade. Seria interessante, também, que esses números fossem lidos no registro da cultura. Nesse registro se impõe considerar o direito à tradição, o direito ao encontro e o direito à festa que permite reafirmar e celebrar o direito à cidade.

Certo de que o Senhor Prefeito saberá reconhecer esses direitos espero encontrá-lo no próximo sete de setembro, na Cobal de Botafogo, para reafirmar que somos todos  Voluntários da Pátria.

Cordialmente

Jorge Edgardo Sapia

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Sobre jorgesapia

Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense , Mestre em Sociologia pela Sociedade Brasileira de Instrução - SBI/IUPERJ (2004). Professor temporário da UFRRJ e da Universidade Estácio de Sá e do IBMR. Atuando principalmente nos seguintes temas: direitos humanos, violência, cidadania, carnavalização.
Esse post foi publicado em Crônicas, Letras e sambas e marcado , . Guardar link permanente.

3 respostas para “Ai, que conflito, roubaram o cabrito do seu Benedito”

  1. jorgesapia disse:

    Oi Sabrina, seja bem-vinda. Vamos administrar, de melhor forma possível, nossos espaços de encontro.
    Abraços
    Jorge

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  2. Prof. Jorge:
    Sou sua colega do Curso Mediação Pedagógica! Adorei seu blog! 🙂
    Sabrina

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