Darwin e a teoria da involução das espécies.

Darwin e a teoria da involução das espécies.
Jorgito Sapia

Tem coisas que só acontecem no carnaval, outras no posto 9, outras, só no Barangal, simpático bloco/condomínio que desfila no domingo posterior à semana momesca propriamente dita. Desfila, portanto, abrindo os trabalhos do carnaval do próximo ano, isto é, por si só, um feito pra lá de louvável.
A semana que antecedeu o desfile de 2010 tinha sido bastante tensa, com desentendimentos generalizados entre os membros da diretoria que não conseguiam chegar a um consenso em relação ao horário do desfile. Após sérias discussões, prevaleceu a proposta da ala que defendia o horário matutino para a realização do encontro etílico carnavalesco.
A pesar de algumas baixas, no domingo às 10:00 hs da manhã, boa parte da diretoria disputava a sombra de um coqueiro plantado no jardim central da Av. Vieira Souto, em frente ao hotel Sol de Ipanema, assim como para quem quer deixar claro, que o sol não faltaria naquela feliz manhã dominical.
Me agrada, nos blocos da cidade, o bochicho da concentração. Momento de encontros e reencontros com a turma que aposta na felicidade. Naquela manhã, depois de ter conseguido garantir meus 25 cm. quadrados de sombra embaixo do coqueiro, deleitava-me observando o movimento da praia, a chegada dos amigos, dos curiosos, da bateria, do fantástico carro de som, da cerveja, e claro, do gelo. Vi também, pouco tempo depois -quando os centímetros quadrados de sombra teimavam em diminuir- a aproximação de um carro da PM. Vi descer três agentes da ordem e vi, ainda, quando um deles aproximou-se, não sei por que cargas d´água, do Flavinho 7 cordas para solicitar a autorização do desfile do bloco ai concentrado. Flavinho – que além de excelente músico e diretor presidente do Bloco dos Escrotinhos – é a pessoa mais sem noção que conheço quando o assunto é lidar com as autoridades, respondeu, claro, que não tinha a menor idéia do que se tratava. Respondia enquanto colocava, pela terceira vez, protetor solar fator 60, começou a rir da sua própria resposta. O PM saiu para reportar ao seu superior o acontecido.
Não demorou e o PM voltou, desta vez para pedir o nome do responsável pelo evento que já começava a ser caracterizado como “essa baderna”. Flavinho, de bate pronto respondeu: -é vento nada, disseram que entraria um sudoeste, mas, por enquanto, sem vento mesmo autoridade, olhe só, não se mexe nem uma folha.
Tudo parece indicar que o guarda achou que estava sendo sacaneado e levantou a voz o suficiente para Flavinho perceber que, de fato, o vento, no evento, tinha rapidamente mudado e, ao perceber o tamanho da encrenca, declinou rapidamente o nome do responsável: Júnior. Deu para perceber que a rápida resposta frustrou o tal PM. Imagino eu, que este esperava um pouco de heróica resistência que possibilitasse desferir, como de praxe, na intenção da informação, umas quantas bolachas no Flavinho. Há quem diga que foi esse o motivo principal do ressentimento e da posterior proibição do desfile do bloco. Deixando as versões de lado, o certo é que em tempos de choque de ordem, se solicitava a autorização para desfilar.
A essa altura o bloco estava totalmente armado, bateria, carro de som, intérpretes, porta bandeira, rainha da bateria, todos enfim, aguardando o estrilar do apito para começar a evolução.
Foi nesse momento que Júnior, com sua fantasia de homem das cavernas, informou que não tinha autorização. Por sua vez, o responsável pela manutenção da ordem na orla, naquela plácida manhã de domingo, informou com tranquilidade franciscana que: sem autorização, não dá pra desfilar.
A essa altura a diretoria do bloco começou a produzir uma série infindável de argumentos os quais, longe de clarear a situação contribuíam para piorá-la. Ana Lana, por exemplo, diretora da ala agricultura, mas com açúcar, depois da terceira caipirinha de maracujá servida naqueles generosos copos do Joel, – explicava, enquanto pestanejava insistentemente com seus cílios coloridos – que não fazia sentido qualquer autorização posto que estava a se tratar de um condomínio e não de um bloco carnavalesco. Não sei se a autoridade fingiu não entender ou fingiu não ouvir, mas falou clara e calmamente: -minha senhora, sem autorização não vai dar pra sair. Além do mais completou: – aqui é Ipanema, Posto Nove, vocês não sabem o acontece aqui. A turma que ouvia ficou sem entender o significado da sentença. Teve até proposta de seminário para desvendar o tal mistério, mas logo, a proposta caiu no esquecimento.
A tudo isso, Júnior, o homem das cavernas, pensou consigo mesmo – e há quem diga que era justamente isso que não deveria ter feito:-perdido por perdido, vou dar uma chave de galão na autoridade; bacharel e sargento do exército, só percebeu quando já era irremedialvelmente tarde, que a autoridade em questão era tenente, mais precisamente, o Tenente Portela. A coisa que estava estancada foi involuindo ao ponto que Darwin, que se encontrava presente na figura do Henrique, e já devidamente incorporado graças as generosas caipirinhas consumidas durante a demorada controvérsia, não conseguia acreditar que ele, que tudo tinha apostado na evolução, teria o desfile em sua homenagem, involuido ao ponto da não realização. Danou-se exclamou ! Saindo a procura da origem das espécies, e falando consigo mesmo como quem tenta entender, se perguntava perplexo: que espécie de animal é esse que portador de patente inferior pretende dar chave de galão em oficial superior?
Drica Lana e a performática Fafeti por seu turno, tentavam explicar que tudo isso era por causa das crianças, e apontavam o dedo para o meio da rua onde as crianças estavam concentradas. È fato que a autoridade não conseguiu visualizar criança alguma pois elas estavam ocultas por um grupo de foliões fantasiados de Tartarugas Gigantes do Arquipiélago de Galápagos.
Teve até um moça que foi chegando toda faceira e sedutora, cantou, olhando nos olhos do Tenente Portela: -“…eu nunca vi coisa mais bela…”, mas nem assim a autoridade mudou seu ponto de vista. Claro que a galera já afirmava: – é veado, só pode ser veado!
Mas, enquanto o pessoal estava quase dispersando, se ouviram os primeiros acordes de Cidade Maravilhosa, marcha de André Filho composta para o carnaval de 1935, era o sinal para que o bloco começara seu desfile com o norte apontado para o Arpoador.
Que terá acontecido? Quem terá sensibilizado à autoridade? Será que estamos em presença de um movimento de desobediência civil? Eram perguntas que a diretoria formulava atónita enquanto exigia novas caipirinhas do Joel.
Pois bem, a partir daí as histórias se confundem, as versões se misturam e ganham contornos surpreendentes. A versão privilegiada, só pode levar os créditos, se for levado em consideração o estado etílico dos narradores. Não é que inventaram que a sorte foi mudada depois da intervenção de um folião do bloco que teve um papo tête a tête com o tenente Portela e que, depois de cochichar baixinho com argumentos que ainda hoje são um mistério, conseguiu a liberação. Mello, quase engasgado falava: – foi o gringo, foi o gringo! E Maurinho, entre uma purpurinada e outra confirmava: -foi sim, foi sim. Pois é, fim dos tempos, parece história de pescador, quem salvou o desfile do Barangal foi justo, um gringo -devidamente fantasiado de ele mesmo. Vai entender! E ai é que eu digo, folião no posto 9 quando dá pra inventar não põe limites à imaginação.

“Os portugues…

“Os portugueses, além de menos ardentes na ortodoxia que os espanhóis e menos estritos que os ingleses no preconceitos de cor e de moral cristã, vieram defrontarse na América com uma das populações mais rasteiras do continente… Uma cultura verde e incipiente, sem o desenvolvimento nem a resistência das grandes semicivilizações americanas, como os Incas e os Astecas.”
Trecho de Casa-Grande & Senzala.