O TREM DO SAMBA. Jorge Sapia

O TREM DO SAMBA
A décima sexta estação do trem do ramal da central do Brasil recebe, neste próximo final de semana, a décima sétima edição do trem do Samba, movimento idealizado por Marquinhos de Oswaldo Cruz e que hoje faz parte do calendário cultural da cidade. Misto de homenagem e de recuperação da memória da música popular carioca, o trem do samba resgata o ritual cotidiano que Paulo Benjamin de Oliveira, o Paulo da Portela, inventava, no trajeto até Oswaldo Cruz, como espaço de comunicação e divulgação de um gênero musical – o samba- que iria se transformar em símbolo da cultura e identidade nacional a partir da década de 1940.
Na nossa tradição republicana caracterizada pela exclusão dos setores populares e pela divisão da cidade, o samba se transformou e retomou, nestes últimos anos, seu papel de ponte. Ponte que une, costura e permite pensar uma cidade não partida e sim compartilhada através dos encontros promovidos por músicos, intelectuais e compositores populares responsáveis pela construção das redes de fruição e divulgação do samba que ”corre nas nossas veias”.
Oswaldo Cruz já foi origem. Hoje é destino de uma vontade que ocupa com alegria os trens da supervia. Foi nos arcos da Lapa, em 1997, que teve origem o movimento Samba de Raiz, liderado por Marquinhos de Oswaldo Cruz, e lido no registro da resistência popular. Fazem parte dessa ocupação cultural do espaço público uma série de músicos e compositores populares, entre eles, Renatinho de Pilares, Ivan Milanez, Nésio, Negão da Abolição e – como se comentava a boca pequena – brincava na área um garoto bom de verso: Dudu Nobre.
A Lapa, por sinal, começava a ser redescoberta e albergava outras rodas que estão na base processo de revitalização ainda em curso. O pioneiro Arco da Velha – ocupava o espaço do último arco, na esquina da Rua Joaquim Silva, na diagonal do Semente, outro celeiro – foi inventado pelo compositor e produtor cultural Lefê de Almeida em 1996. A inauguração, no ano seguinte, do bar Coisa da Antiga – nos fundos de um antiquário na tradicional Rua do Lavradio – ajudou na formação de uma rede na qual circulam experiências musicais ligadas ao samba. Experiências que, do lado de cá, eram vivenciadas no Mandrake, bar do bairro de Botafogo, que promoveu, entre 1985 e 1996, uma importante roda de samba. A tradicional roda do bar na Rua do Matoso e claro, o Bip Bip em Copacabana se configuraram como lugares de resistência e comunicação em torno do universo do samba, do qual fariam parte, posteriormente, o Bar da Rampa e o Renascença e, do outro lado da baia, o terreiro do Candongueiro.

O trem do samba tornou essa comunicação mais fluída conectando os quilombos do lado cá com os do lado de lá, como o pagode da Tia Doca ou o batuque na cozinha no cafofo da Tia Surica. Essa geografia popular mostra que é um prazer navegar nas águas do Rio de Janeiro, dos trilhos da central à floresta, para além do Dia Nacional do Samba, a cidade é uma festa!
Jorge Sapia