Meus Princípios

Bip Bip
Jorge Sapia.

Domingo no Bip-Bip, consegui, a muito custo, lugar em pé, na cabeceira da mesa dos músicos. Trata-se de um pequeno espaço, espremido entre o balcão e a geladeira, exatamente na passagem para o único banheiro do boteco.
O lugar tem suas vantagens: domínio quase completo do movimento do bar e uma visão parcial da rua que permite imaginar aquilo que é impossível ver. Tem também suas desvantagens: sempre que a geladeira é aberta é necessário inclinar levemente o corpo para frente e, quando as bebidas saem do balcão, a inclinação adequada é para trás. Requer também certa atenção, pois se corre o risco de levar uma garrafada na cara de alguém mais distraído. Esses movimentos permitem saudável exercício para o desenvolvimento da visão periférica. Além, é claro, de fortalecer a musculatura do pescoço, pois é necessário levar o rosto à direita ou esquerda, evitando assim desagradáveis encontros com braços esticados no afã de agarrar a garrafas de cerveja que passam de mão em mão até o destinatário final.
Daquele lugar é possível observar também leves sorrisos aparecendo nas comissuras dos lábios da maioria dos clientes que se espremem nesse pequeno espaço. Parece ser o gesto típico de quem quer se desculpar por ter causado, involuntariamente, qualquer inconveniente. Entretanto, há quem escolha esse lugar porque, segundo contam, ajuda a aumentar a libido. Resulta agradável, dizem, o suave contanto corporal de quem entra e sai do banheiro.
A noite transcorria tranquila, tanto que Alfredinho – o dono do lugar-, aproveitou uma pausa musical para dar as informações de costume: – fulano faz show ali; sicrano acolá; beltrano…etc., e, claro, para não perder o costume, mandou solenemente à merda todo aquele que em vez de ouvir, falava e em vez de ficar calado, cantava…desafinando.
Os poucos que não o conhecem se surpreenderam, os que o conhecem se divertiram, incentivaram, e Alfredo se inflamou, fez discurso, apelou para a solidariedade e arrematou: Vocês querem me foder! Dá pra ver: tudo normal, não fosse uma moça distinta que não achou graça nenhuma no discurso do anfitrião.
Começou aí, amigos, uma discussão que se prolongou além da conta. A moça sentiu-se particularmente agredida. Falou de conspiração. Disse que quem deveria calar-se era Alfredo e coisa e tal. A música, que ainda se sustentava, definhou até acabar, e a discussão prolongou-se além do desejado. Gracinha Chernobil como é popularmente conhecida, gritava, gesticulava, ameaçava e, conseguiu fantástica proeza, calou todo mundo.De fato, o pessoal do bar e da rua fez silêncio e apurou os ouvidos para prestar atenção às alternativas do conflito.
Aqui se dá um fenômeno peculiar. Quando o número de pessoas querendo observar é maior que o espaço de observação, aqueles que se encontram em posições privilegiadas costumam dar uma rápida olhada e movidos por um sentimento de solidariedade informam lateralmente àqueles que se encontram atrás. Estes, por sua vez, executam movimento similar, dando lugar assim a uma ramificação de informações que fazem brotar inúmeras versões para o mesmo fato. Por isso, no dia seguinte foi possível ouvir que tinha acontecido o diabo, tiroteio, facada e o escambau!
Nada disso aconteceu. Dou fé! Pois eu me encontrava em situação privilegiada: exatamente em meio aos dois contendores. Não pensem que arbitrava a questão. Confesso que até incentivei a discussão. Mas acredito que não vale a pena entrar em detalhes, a não ser, é claro, para contar que quando a Chernobyl colocou os pés fora do bar recomeçou a música com os acordes de um samba do Noel que rapidamente foi contagiando os presentes. O refrão inicial é uma pérola: êta mulher indigesta, indigesta… merece um tijolo na testa. Aí não prestou! Foi o suficiente para que a divina dama desse queixa de agressão na 12 DP.
Quando os homi chegaram, levaram agredida e agressor: Alfredinho.
A primeira reação foi de surpresa. A segunda de alegria. A terceira de solidariedade. Explico. Surpresa pela polícia ter dado bola para uma moça que, se possível fosse defini-la em duas palavras, ninguém duvidaria: uma mala. Alegria porque, com Alfredinho em cana, a música não acabaria às 22:00 hs. Mas, se prolongaria como uma vigília etílico-cívica madrugada adentro. Solidariedade porque, rapidamente, correu um chapéu em intenção do Alfredo, para comprar cigarros e essas coisas.
Lá pra meia-noite, quando o samba estava em seu apogeu, desceu de um táxi o agressor: Silêncio! Silêncio! Gritava e pedia – para surpresa geral – uma caneta, e rápido! O inusitado do pedido exigia uma explicação. Alfredo não se fez de rogado: – É para anotar o número do processo e jogar amanhã no bicho! Ah, sim, a Chernobyl e seu noivo ficaram detidos, por chatos!
No domingo seguinte pendurei, no quadro de avisos do Bip Bip, um cartão postal recebido de um amigo e que tinha Alfredinho como destinatário. Por diversos motivos, ainda não tinha feito a entrega. O cartão era, na realidade, uma foto de Groucho Marx fumando displicentemente um charuto.
Claro que um gaiato resolveu acrescentar: Flagrante de Alfredo Mello apresentando sua defesa ante o Dr. Delegado em processo movido por danos morais.
Em tempo, no cartão, Groucho dizia o seguinte: Estes são meus princípios, se não gostar, tenho outros.

O Mecenas.

O Mecenas

Jorge Sapia

Manuel é dessas figuras simpáticas que, não se encontrando em profusão, é fácil de achar nos melhores botecos da cidade. Bom papo, bico doce, uma calma bovina traída pelos olhos perspicazes e uma língua afiada. Sua tranquilidade “suburbana” contrasta com o movimento da orla do Leme, bairro onde reside. Como muitos, detesta praia. Vai porque é o meio mais eficaz para ir de lá ao boteco carregando seus amigos. O argumento que esgrime é irresistível: “Rapaziada, na areia o calor é de rachar! Vamos para o bar que lá, o chope esquenta menos.”
Conheci Manoel quando o Meu Bem, Volto Já começava a tomar forma e quando ele – grande qualidade – trabalhava na Skol. Após alguns chopes, e já entusiasmado com a ideia do bloco, foi logo dizendo: “deixa comigo”.
Tempos depois, nos convidou para uma visita à fábrica da Skol. Encontro e porre memoráveis. Abrimos, literalmente, as torneiras para os compositores e saíram dali belos sambas que já anunciavam o sucesso do nosso primeiro desfile, embalado no samba do querido compositor Toninho Geraes.
Passadas as águas de março, tudo era um mar e felicidade. Íamos descobrindo, aos poucos, outras qualidades do Manoel. Nós e os sul-africanos que entraram no mercado de bebidas com uma cerveja de nome esquisito e rótulo azul. Chegaram, pagaram seu passe e este, volúvel, saiu da Skol, saiu do Leme, saiu do Rio. Heim? Heim? E agora? Vida que segue.
Pois é, nas proximidades do carnaval de 97, quando dava pra sacar que , sem o mecenas, neca de apoio, eis que a figura reaparece contando estórias mirabolantes e acenando com patrocínio da cerveja que ele representava.
Bom bebedor, Manoel sente prazer em degustar a mistura do lúpulo com cevada. Ainda melhor vendedor, tem argumentos convincentes: “Tudo azul moçada! A cerveja que eu ofereço e que vocês vão vender para pagar o carro de som é produzida na terra de Mandela logo, só pode ser da melhor qualidade”, explicava com um sorriso maroto querendo sair pelo canto da boca. Enquanto isso Edmilson – vulgo ladravaz – gerente do bar onde o bloco concentra, fazia cálculos e resmungava: “Quanto mais cervejas Manoel liberar, menos chopes eu vendo; isto não me agrada”. Mas, agradava a seu Heliomar, – Capitão de longo curso e profundo conhecedor de marujos adernados – quem, embora desconfiado dos argumentos esgrimidos pelo Manoel, já havia concluído que quanto menos chopes pedisse, menos seria roubado.
Que carnaval! Naquele ano o bloco saiu bonito, flanando, alegre, livre e, graças ao teor alcoólico da cerveja oferecida pelo mecenas, numa água só. Dia seguinte, o semblante dos foliões, já a postos no boteco “para equilibrar”, não poderia ser pior. Manoel, pelo contrario, parecia ser o único a se divertir. Enquanto o Capitão de longo curso repetia, com certa resignação, para quem quisesse ouvir: “Cansei de falar que Manoel não gosta de sacanear no varejo! Porra! Que porre!”
Diz a sabedoria popular que não há mal que sempre dure. Com efeito, findo o carnaval, Manoel voltou para o Rio e, o que é melhor, para a Skol. A diretoria do Meu Bem só fazia planos e, Fátima, dona dos temperos e destemperos e presidente da ala “Quitutes eu quero é mais” – anunciou, para comemorar, feijoada na sua casa.
Meus amigos, não é lorota não. No lançamento da camiseta assinada por Chico Caruso – o mecenas, nos informa que a Belco comprou seu passe. O leitor conhece? Nem nós; mas ouvíamos aparvalhados as qualidades que ele vendia. Isso era demais. Após demorada reunião, a diretoria resolveu aceitar a oferta para molhar a garganta da bateria, que aliás bebeu, porque o toró que caiu no último desfile não permitiu que o pessoal comprasse outra marca.
Toda essa história é pra lembrar que Manoel – o inconstante – voltou para uma boa cervejaria. Mas, com estamos na véspera do carnaval, o medo é que, só para sacanear, resolva, agora, vender água mineral. Aí pessoal, não vai dar para aguentar!