CURSO DE MARILENA CHAUÍ SOBRE O TRATADO TEOLÓGICO-POLÍTICO DE SPINOZA NA PUC RIO

Curso de Marilena Chauí sobre o Tratado Teológico-Político de Spinoza na PUC Rio

 
Programa de Pós-Graduação do Departamento de Direito da PUC Rio
4-8 de Março de 2013 

segunda, terça, quarta e sexta em duas sessões : 10h30 / 13h30 e 15h30 / 17h30
auditório B8 da Ala Frings, Edifício da Amizade, 8º andar
Rua Marquês de São Vicente, 225, Gávea 

quinta em sessão única (conferência aberta): 10h30
auditório B6 da Ala Frings, Edifício da Amizade, 6º andar
Rua Marquês de São Vicente, 225, Gávea

programa

segunda, 4 de março
Tratado Teológico-Político, Prefácio

terça, 5 de março
Tratado Teológico-Político, capítulo XX 

quarta, 6 de março
Tratado Teológico-Político, capítulo XVI

quinta, 7 de março
Tratado Teológico-Político, capítulo IV

sexta, 8 de março
Tratado Teológico-Político, capítulo XVI

[baixe aqui um sumário analítico do TTP elaborado a partir do Prefácio e extraído das notas de tradução da edição Akkerman, Lagrée, Moreau – PUF, 1999]  

edições do TTP

Tratado Teológico-Político. Tradução, introdução e notas por Diogo Pires Aurélio. S. Paulo: Martins Fontes, 2003.
Tratado Teológico-Político. Tradução, introdução e notas por D. P. Aurélio. Lisboa: INCM, 2004.
Traité Téologique-Politique. Texto em latim por Fokke Akkerman, tradução e notas por Jacqueline Lagrée e Pierre-François Moreau. Paris: PUF, 1999 [edição coordenada por P.-F. Moreau com restabelecimento do texto latino, novas traduções com aparato crítico, índices, notas etc.].
Tratado Teológico-Político. Introdução, tradução, notas e índices por Atilano Dominguez. Madrid: Alianza Editorial, 1986.

leituras recomendadas [textos disponíveis na pasta 112 da xerox do CAEL na Vila dos Diretórios]

Marilena Chauí
“Política e profecia” in Política em Espinosa, S. Paulo: Companhia das Letras, 2003  (pp. 7-80).
“Medo e esperança, guerra e paz” in Desejo, paixão e ação na Ética de Espinosa. S. Paulo: Companhia das Letras, 2011 (pp. 173-191).
“O retorno do teológico-político” in Sergio Cardoso (org.), Retorno ao republicanismo. Belo Horizonte: UFMG, 2004. [baixe aqui o texto]

Diogo Pires Aurélio
“Introdução” in Tratado Teológico-Político. Lisboa: INCM, 2004 (pp. 20-120)

Steven Nadler
Espinosa – vida e obra. Publicações Europa-América, 2003. (pp. 251-293).

Wim Klever
“Vida e obras de Spinoza” in Don Garret (org.), Spinoza. Aparecida: Ideias e Letras, 2011 (pp. 33-87).

Richard Popkin
“Spinoza e os estudos bíblicos” in Don Garret (org.), Spinoza. Aparecida: Ideias e Letras, 2011 (pp. 469-496).

Pierre-François Moreau
“Recepção e influência de Spinoza” in Don Garret (org.), Spinoza. Aparecida: Ideias e Letras, 2011 (pp. 497-525).
“Os princípios de leitura das Sagradas Escrituras no Tratado Teológico-Político” in Cadernos Espinosanos, IV, 1998 (pp. 75-89).

Pierre-François Moreau e Jacqueline Lagrée
“La lecture de la Bible dans le cercle de Spinoza” in Jean-Robert Armogarthe, Le Grand Siècle et la Bible. Paris: Beauchesne, 1989 (pp. 97-115).

Jonathan I. Israel
The Dutch Republic (1477-1806), Clarendon Press, Oxford, 1998 [capitulos 29-31; pp. 700-806].

Carnaval de rua carioca. Lefê Almeida

Carnaval de rua carioca

 

Lefê Almeida

O enredo dessa história é formado por um período de grande sucesso, embalado pela beleza das músicas de carnaval e por uma contagiante alegria nos bairros e no Centro da cidade. O período seguinte foi marcado por uma busca desenfreada pela fama, projeção e sucesso que aquela festa popular poderia proporcionar a empresários, políticos e artistas. Havia também a abertura de uma nova porta para o desenvolvimento de marcas e expansão do capital. A política interna das escolas de samba e a política do poder público em relação ao carnaval contribuíram para que este quadro se desenvolvesse, desencadeando um processo de descaracterização da folia carioca, que resultou numa inevitável decadência a partir dos anos de 1960.

Coincidência ou não, o carioca só conseguiu reverter esse quadro no início dos anos de 1980 quando se aproximou novamente das suas tradições e voltou a fazer seu carnaval nos bairros, com os blocos tocando as músicas características da folia carioca.

A marcha-rancho, as marchinhas e o samba (que não eram necessariamente o das escolas) são músicas que sempre, desde o início de sua existência, embalaram o carnaval do Rio de Janeiro, nas ruas e nos salões.

Nos anos 1950, com a chegada do LP de 12 faixas, deixou de ser rentável para a indústria fonográfica fazer um disco de 78 rpm com duas músicas, para um período tão curto quanto o carnaval.

O rádio, com os programas de auditório e o cinema com as chanchadas da Atlântida, sempre foram importantes canais de divulgação para a música de carnaval, pois era através deles que o público via seus artistas preferidos. Os lançamentos começavam a ser feitos em novembro para estar na “boca do povo” quando chegasse o ponto alto da festa.

No final desta década, o rádio e o cinema mudaram sensivelmente tanto na forma, quanto no conteúdo. Com isso a música de carnaval perdeu muito da sua força. As marchinhas e o samba já não faziam tanto sucesso e o compositor deixou aos poucos de compor para a folia.

No início dos anos de 1960 o carioca perdeu os bondes, o Banho de Mar à Fantasia na Praia do Flamengo, o Tabuleiro da Baiana, a Galeria Cruzeiro com o seu Café Nice, que era ponto de encontro de grandes compositores e intérpretes que faziam sucesso e participavam diretamente do carnaval carioca. A festa no Centro da cidade estava esvaziando.

Os blocos de sujos, sem enredo nem fantasia, que saíam cantando os sucessos do carnaval daquele ano (alguns com instrumentos de sopro) perderam seus pontos de referência.

A partir de 1964, com a ditadura militar, veio a repressão e a perseguição política, que também atingiu a festa maior do carioca. Na década de 1970 o carnaval nos bairros foi morrendo e com ele blocos que desfilavam pelos bairros e na periferia destes, tais como: Foliões de Botafogo, Canarinho das Laranjeiras, Funil de Botafogo, High Society do Catete, Barriga de Copacabana e outros da zona sul carioca, que deixaram de existir ou perderam muito da sua expressão e identidade.

Na década de 1970 o carnaval carioca ficou restrito praticamente, ao desfile das escolas de samba, a Banda de Ipanema, ao Cordão da Bola Preta e aos blocos Cacique de Ramos e Bafo da Onça, que mais tarde também tiveram grandes dificuldades para fazer seu carnaval e perderam muito do seu público. 
O Cacique de Ramos manteve acesa a chama dos blocos carnavalescos, com suas rodas de samba revelando grandes compositores e trazendo sambas que ficaram na história da música carioca. Outros blocos não tiveram a mesma sorte.

As escolas de samba, por sua vez, perderam para o “espetáculo maior”. A grana entrava forte e mandava no mundo do samba. O que valia era o patrono, o patrocínio, a mídia e as “autoridades” que comandavam o carnaval. O luxo imperava. O samba enredo virou negócio. A televisão começou a transmitir o desfile. Artistas começaram a aparecer como destaques e rainhas de bateria e a mídia em geral deu total apoio, ao que estava acontecendo. O LP com os sambas do desfile vendia muito. Era o grande filé das gravadoras. Substituiu em termos de mercado, as músicas de carnaval de outros tempos. O conceito de “super escolas de samba S.A” ficou cada vez mais forte. O andamento do samba enredo acelerou e o samba acabou pasteurizado. Os grandes compositores deixaram de concorrer e o carnaval mais uma vez perdeu.

Mudaram tanto o carnaval que a folia carioca murchou. Perdeu o charme, a novidade. O cenário do carnaval de rua no final dos anos 70 era de total descaracterização em relação aos grandes carnavais de décadas passadas, que atraia ao Rio de Janeiro muitos turistas, divulgava o nome da cidade e irradiava alegria aos quatro cantos do Brasil. Isso, junto com outros fatores, entre eles a violência crescente, afetou a economia e a imagem do Rio de Janeiro no Brasil e no exterior.

A verdade é que hoje, lembrando aquele período da história, vejo que o carioca estava meio perdido sem saber como fazer para trazer de volta aquela Guanabara que se perdeu depois daquela fusão. Mas isso é outro assunto.

Essa pasmaceira, essa ressaca do carnaval carioca durou até 1980. Neste ano o compositor e interprete João Nogueira trouxe do Méier para Avenida Rio Branco o seu Clube do Samba que reunia músicos, compositores, artistas, intelectuais, jornalistas e o pessoal considerado formador de opinião, que já lutavam pela anistia e abertura política. Foi a meu ver o primeiro bloco que mexeu com o orgulho do carioca e chamou atenção para o nosso carnaval de rua, até então esquecido. Pode-se dizer que a retomada começou ali.

O número de blocos cresceu muito depois da anistia. Foi o Simpatia, em Ipanema, o Suvaco, no Jardim Botânico, o Bloco do Barbas e o Bloco de Segunda, em Botafogo, o Carmelitas e o Céu na Terra, em Santa Teresa, Cordão da Bola Preta e Cordão do Boitatá, no Centro, Escravos da Mauá, na Zona Portuária, o Meu Bem Volto Já, no Leme, Imprensa Que eu Gamo, em Laranjeiras, entre outros.

Era o carnaval de bairros que ressurgia como uma grande teia de alegria se espraiando pela cidade e chamando o povo para a folia.

É importante observar que os primeiros blocos carnavalescos desse renascer estavam ligados à esquerda, pois vários de seus fundadores eram militantes políticos na época da repressão e voltaram do exílio ou saíram da prisão na época da anistia.

Praticamente, todos os idealizadores e fundadores desses primeiros blocos de carnaval fizeram tudo por amor à arte, por pura paixão carioca, passando o “Livro de Ouro”, fazendo ensaios e muitas vezes tirando do bolso para cobrir os custos. A maior parte tinha outra profissão. Todos estavam ali para curtir a liberdade e botar o povo pra sambar no seu bairro, sem corda nem maiores restrições.

Foi assim que a retomada do carnaval de rua carioca nasceu, cresceu e se consolidou. Hoje o nosso carnaval voltou a ser uma grande atração para o mundo inteiro. Traz milhões de dólares e turistas do Brasil e do exterior que lotam os hotéis da cidade, gerando emprego e renda e fazendo nossa economia crescer.

O Rio de Janeiro e seu carnaval devem esse crescimento, à genuína Música Popular Carioca, ao samba, as marchinhas, a marcha-rancho que trouxeram de volta a alegria do nosso carnaval.

O crescimento e a projeção do carnaval carioca na rua e nos salões atraiu a mídia, patrocinadores, donos de casas noturnas, comerciantes, marcas de bebidas, donos de hotéis, agentes de viagem e empresários em geral. Isso tudo mexeu com a economia do município.

A televisão e as grandes gravadoras passaram a promover vários de seus artistas associando sua imagem ao carnaval. As gravadoras e os empresários, que pouco ou quase nada tem a ver com o Rio de Janeiro, mas que chegam aqui com muito capital e poder, passaram a incentivar cantores (as) e músicos a fazer uma espécie de trio elétrico, nos moldes dos que existem no carnaval da Bahia, mas com bateria de bloco. São os chamados “Blocos Temáticos” que tocam diversos ritmos estranhos ao nosso carnaval, inclusive rock e música importada. As autoridades na intenção de reduzir os custos prestam total apoio aos patrocinadores, à mídia e aos anunciantes, que promovem os blocos que tocam todo tipo de música, sem cor, nem bandeira. Ali eles podem expor suas cores e logomarcas a vontade. A televisão apoia e se associa à festa. Ora, isso tudo tem um custo e gera um retorno comercial, publicitário, financeiro e institucional. Enfim lucro de todas as formas. Já existem blocos sertanejos que vendem “kits para áreas vips”. Produtoras “especializadas” em organizar blocos de carnaval etc. Estão comercializando o carnaval. Neste momento (fevereiro 2013) a festa está sobre pressão e perdendo a sua espontaneidade.

Os artistas e músicos, por sua vez, passaram a ver o carnaval como mercado de trabalho e não como uma diversão. A partir desse momento passou a valer tudo, todos os ritmos, gêneros musicais e derivados, música eletrônica e até DJs. Isso tudo para buscar patrocínio e fama em nome da energia, da alegria e do porre com moderação, com todo apoio das redes sociais.

Dessa forma, a rapaziada vai alegremente se distanciando da sua cultura, da música, das tradições cariocas, da história do seu carnaval e passando quase que involuntariamente por um processo de alienação no que diz respeito à cultura brasileira, no caso, a cultura carioca, seus valores e identidade.

Observo nesses “blocos temáticos” o que já vejo há bastante tempo nas noites cariocas de uma forma geral. Quem está no palco e a música que está tocando, não interessa muito. Se a música é boa. Se a letra é bonita. Se tem ou não poesia. Isso não vem ao caso. A rapaziada quer mesmo beber, consumir energético, zoar e azarar. O pessoal dança como se estivesse numa boate.

É um público totalmente diferente do que cantava, junto com Paulinho da Viola no último show que vi do cantor e compositor num Circo Voador lotado. Esse público no carnaval sai no bem-vindo “Timoneiros da Viola”. Viva a Resistência!

As músicas que estes blocos temáticos tocam, estão aí o ano inteiro no Circo Voador, na Fundição Progresso, nos bailes funk, no rádio, na televisão, nas casas de show, nos bailinhos da vida, em baixo do viaduto, em toda parte. Só não tem nome de bloco. Esse só aparece perto do carnaval.

A toda hora aparece um novo bloco temático. Aos poucos eles vão se tornando “os donos do carnaval de rua do Rio de Janeiro”. Vão desrespeitando e passando por cima de uma das mais fortes tradições da nossa cidade e porque não dizer do Brasil. A tradição não envelhece ao contrário ela enriquece a história. Mas isso é só para quem sabe das coisas. Quem tem sensibilidade. Pena que as pessoas que estão promovendo esse movimento parecem não estar nem aí para esses valores.

Por sua vez, as escolas de samba estão deixando de lado a nossa história, esquecendo os enredos com temas nacionais.

Com a clara intenção de buscar o dinheiro do patrocínio para bancar o luxo e a riqueza, os enredos e consequentemente os sambas enredos hoje falam da Alemanha, Coreia, Rock in Rio etc. (O decreto que fala dos temas nacionais nos enredos data da época do Estado Novo, 1942).

Chamamos a atenção das autoridades, empresários e dos cariocas que fazem o carnaval, pensam a cidade e querem bem a ela, para o fato de que a descaracterização e transformação da folia carioca a qualquer custo remetem àquela maneira de tratar o Rio de Janeiro e seu carnaval, mencionada no início desse texto e que imperava na época da decadência quando os valores culturais foram trocados pela fama e o vil metal. Parece que este fantasma está ameaçando novamente o carnaval carioca, vestindo outra fantasia. 

Isso preocupa porque a história nos mostra que há poucas décadas atrás os resultados dessa política foram péssimos para o Rio de Janeiro e sua cultura, com reflexos extremamente negativos para imagem da cidade e para economia do município. A cidade perde seu charme, a nuance de sua música, que é mundialmente conhecida e tão bem retrata as curvas das nossas montanhas, praias e das morenas da cidade, que passam “num doce balanço a caminho do mar”, e da folia também.

Voltei, Voltei

Voltei, voltei

Jorge Sapia

 

Sempre que comento que  vou pro bloco Meu Bem, Volto Já, nego me olha com um sorriso maroto e diz: “sei, só vai voltar na quarta-feira”.

A frase, associada no imaginário popular com algum tipo de armação, deu nome ao bloco que desfila no Leme, terça-feira de carnaval.

Qualquer leitor conhece, com certeza, alguma situação na qual a frase se torna síntese. Abundam, sem trocadilho, histórias de fulano que foi à padaria e só voltou   três dias depois; ou sicrano que foi comprar cigarros na quinta, cruzou com uma loura distinta e só voltou na quarta-feira e, claro, muitas outras variações sobre o mesmo tema.

Como o voltar já, é uma coisa da ordem do atemporal, criam-se situações constrangedoras com desfechos previsíveis, e aí é que o barraco desaba.

 No carnaval então, a frase é moda. Talvez por isso, o Meu Bem, tenha vindo para contribuir na solução das situações embaraçosas criadas pela diferença entre o volto já de quem vai e o volto já de quem fica. Sendo assim, parece que se trata de um  bloco que, pasmem, já vem com álibi.

Mas nem tudo é drama. Os foliões do carnaval de rua da cidade, por exemplo, voltam sempre, para desfilar nos blocos que foram surgindo desde a segunda metade da década de oitenta: Escravos da Mauá, Carmelitas, Que Merda é Essa? Barbas, Bloco de Segunda, Barangal  e por aí afora.

No carnaval, a frase é  mato. A pesar disso, durante o reinado de momo, há uma taxa de retorno significativa. Pelo menos é o que mostra uma turma de uma meia dúzia de quinhentos, que alguém chamou   de fundamentalistas do prazer.  São onipresentes, estão em todos os ensaios, rodas de samba, lançamento de camisetas, escolhas de samba e, claro, nos desfiles. Voltam sempre e com um sorriso no rosto, demoram talvez, o tempo necessário para trocar a fantasia ou camiseta ou que dá quase no mesmo. Enfim, é a turma que esta pro que der e vier, e, se vier e der, melhor ainda.

São os cariocas por definição.Imagem