Crônica de uma morte anunciada.

Crônica de uma morte anunciada.

“El dia que lo iban a matar, Santiago Nasar se levantó despreocupado…” Assim começa, Gabriel García Marques, seu romance Crônica de uma morte anunciada. Foi a primeira lembrança que registrei assim que ouvi, no rádio do carro que dirigia em direção a Seropédica, as primeiras notícias da atuação do Batalhão de Choque da Polícia Militar para desocupar a Aldeia Maracanã.
Lembrei também da fala do embaixador do Brasil em Paris em 1934 registrada por Lévi-Strauss, em Tristes Trópicos:
“Índios? Infelizmente, prezado cavalheiro, lá se vão anos que eles desapareceram. Ah, essa é uma página bem triste, bem vergonhosa da história de meus país. Mas os colonos portugueses do séculos XVI eram homens ávidos e brutais. Como reprová-los por terem participado da rudeza geral dos costumes? Apanhavam os índios, amarravam-nos na boca dos canhões e estraçalhavam-nos vivos, a tiros. Foi assim que eliminaram, até o último. Como sociólogo, senhor vai descobrir no Brasil coisas apaixonantes, mas nos índios, não pense mais, não encontrará nem um único vivo…”
Uma tradição de nossa elites republicanas que continua viva: violência, intolerância desqualificação e desrespeito como prática de controle das minorias que atrapalham o caminho da “civilização”.