Me vesti de Marciano.


Me Vesti de Marciano.
Jorge Sapia

Semana passada resolvi tomar uma cerveja no Panamá, um pé sujo, muito limpo, localizado no baixo Copacabana, isto é, em frente à tradicional pizzaria Caravelle. Como sabem os nativos, a pizzaria fica em frente do primeiro Bob’s de Copacabana, inaugurado na década de 1950. O Bob´s fica quase do lado do Belmonte, boteco de grife implantado na cidade na passagem do milênio. Pois é, pedi uma Serra Malte, uma das coisas que gosto de São Paulo, acompanhado de um “saudações carnavalescas”. O garçom, meu conhecido, não estranhou a saudação feita no outono. O vizinho do lado, sim. Foi logo dizendo, não me fale de Carnaval. Olha só, e mostrou o seu braço, enquanto dizia: fico tudo arrepiado. Quer saber por quê?
Caraca mané, pensei comigo, como responder uma pergunta dessas no boteco sem ser indelicado? Criou-se um impasse imediatamente resolvido pelo meu interlocutor na pedida de um goró, assim, como quem toma fôlego para emendar um uma história e tanto.
Feito um breve intervalo, retomou a palavra, baixou o tom de voz e começou a contar o que transcrevo a seguir. Espero ser fiel ao relato, pois confesso, quando a história ganhou o tom intimista pedi a segunda cerveja de várias outras que, pelos meus cálculos, me ajudariam a seguir os detalhes de tudo aquilo que estava ouvindo com renovado interesse.
Deixo a palavra a seu Ary (foi assim que se apresentou ou foi assim que eu registrei).
Pois é, começou, desde muito jovem tenho passado por uma experiência particular. Acontece anualmente, invariavelmente, embora nem sempre nas mesmas datas, como convém, por exemplo, as comemorações de aniversário, Natal ou festas cívicas. Feita a ressalva, todos os anos, entre algum dia do mês de Fevereiro e outro qualquer do mês de Março, sou abduzido por uma tribo do bem que habita a galáxia da folia. Tudo parece indicar que durante quatro dias recebemos a visita de uma forma de vida que tem a capacidade de abduzir pessoas e inventar felicidade. – Ao ouvir essa conclusão pedi mais uma e apurei os ouvidos.
Além, é claro, – continuo o Ary – tem a capacidade de transformar as regras do cotidiano, inverter as tradicionais relações sociais de aqueles que entram em contato com os habitantes da galáxia mencionada habitada pelos foliões.
Afirmou convicto que, procura de informações sobre essa particular forma de vida iniciou contatos com diversos centros de ufologia. Fez, inclusive, visita prolongada a Varginha, mas informa que, apesar dos esforços, não conseguiu qualquer contato ou informação que pudesse esclarecer o fenômeno vivido por ele, e pelo que a cada ano está mais perceptível, por uma quantidade cada vez maior de pessoas abduzidas.
Confesso, me disse, que durante muito tempo achei tratar-se de um acontecimento da ordem do natural, assim como é natural a sucessão do dia e da noite, as distintas faces da lua, o nascente e o poente, a maré baixa e a maré alta, pedir uma saideira no boteco – por sinal, seu Zé, mais uma aqui pra nós, emendou – ou torcer, para que o Sr. Sarney ou Sr. Calheiros, que há pouco nos presidiu, larguem definitivamente esse osso e ajustem suas contas com a ética e a justiça divina, pois com humana, acho que não vai dar. Portanto, refiro-me a esses e outros fenômenos semelhantes.
Mas, para minha surpresa, continuou meu interlocutor, venho percebendo que a tal abdução que, no limite, demorava quatro dias, a cada ano se prolonga um pouco mais.
Totalmente envolvido pelo relato do seu Ary comentei: Me pareceu ter ouvido que lá, para as décadas de 1980, um outro ET de nome Antônio Carlos, teria distribuído fartas promessas, na base do toma lá dá cá, para que os foliões se demorassem um pouco mais nas suas terras, de maneira a permitir uma certa concentração de poder que poderia se expandir para outros domínios do reino. Parece que foi muito bem sucedido nessa empreitada a julgar pelos produtos que foram criados, comercializados e exportados para outras comarcas. Lugar de destaque tem os trios, que assim, como o Irakitan, conseguiram seduzir outros nativos, com outros gostos que caíram na sedução da dança da Galinha, da boquinha da garrafa, e outros tantos produtos para lá de interessantes que contagiaram corações, mentes e outras partes anatômicas consideradas patrimônio estético cultural destas terras, nas quais, como sabemos desde Pêro Vaz, em se plantando, todos dão.
Seu Ary pensou um momento, pediu uma saideira e sentenciou:- pelo visto você já foi abduzido e, enquanto brindava a nossa saúde, cantarolava: “Me vesti de Marciano, tracei minha odisseia e sai de bar em bar…”

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Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
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