A arte do encontro nas ruas.


Assim que a Copa das Confederações teve início um grito ecoou em diversas cidades do país: sur-pre-sa!
Foi uma enorme surpresa ver a juventude ocupando as ruas, das grandes e pequenas cidades, depois de quase vinte anos de relativo silêncio. A memória coletiva tentou associar a convocação contra o aumento das passagens urbanas com outros movimentos semelhantes. No intuito de compreender, foram rapidamente elencadas as lutas contra o autoritarismo e a passeata dos cem mil na década de 1960; a luta pelas eleições diretas nos anos oitenta; o movimento caras-pintadas que, no início dos noventa, embarcou no impeachment de Collor. Embora Lulu Santos tivesse avisado que Nada do que foi será, de novo, do jeito que já foi um dia…não deu, ainda, para entender.
De lá pra cá navegamos nas águas de um processo de globalização que desenhou, como indica Bauman, uma economia política da incerteza, responsável pelo medo, descrença, individualismo e cinismo presentes no mundo contemporâneo. Da apatia, características das leituras predominantes na passagem do milênio, à ênfase na politização atual há uma enorme distância. A juventude não representa um setor social cristalizado, pelo contrário, é polissêmico e mutável. Aqueles que procuram a receita pronta da felicidade começam a perceber que não há manual de autoajuda que a disponibilize. Os imaginários sociais que convidam de maneira delirante ao consumo e a pose como caminho para a felicidade e o êxito, independente dos meios utilizados para consegui-lo, parece que estão fazendo água.
Para entender é necessário considerar o que Bruno Torturra e Pablo Capilé chamaram – na entrevista no programa RODA VIVA- (www.youtube.com/watch%3Fv%3DvYgXth8QI8M) de micro indignações que afloraram nos eventos de junho de 2013 e que, além de indicar necessidade de mudanças, acabaram criando uma nova agenda de encontros, de “novas festas juninas”, um carnaval de emoções, afetos, desejos e novas narrativas. A novidade veio dar à praia na qualidade rara…de Mídia N.I.N.J.A, sigla que significa “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”, cuja comunicação permitiu perceber que o rei está nu e que não somos nós, os únicos loucos, a vê-lo despido.
Para surpresa geral os jovens voltavam as ruas, fora do período carnavalesco, com alegria, disposição e criatividade. Profanaram o sagrado, ou vice-versa, exigindo padrão Fifa na saúde, na educação, na segurança, na mobilidade urbana, ao mesmo tempo em que questionavam os exorbitantes gastos da Copa. Enfim, como resumia um dos milhares de cartazes desfraldados nessa tsunami cívica: “É muito motivo! Não cabe aqui!”.
Nova realidade, múltiplas propostas. Conectados em redes de interação social exigem uma nova democracia e a abolição da lei do Gerson que manda levar vantagem em tudo, certo? Mobilizados em múltiplas multidões, questionam esse imaginário e apostam em outros futuros possíveis.
Nem espectadores, nem telespectadores, nas ruas a experiência de participação estimula e contagia, envolve uma dimensão criadora que produz novos desejos e informação veiculada nas redes sociais em tempo real por novos cidadãos multimídias que produzem informações essenciais para a consolidação de novas práticas democráticas. As novas redes sociais acessadas com desenvoltura invejável pelos nativos digitais, trazem, à superfície, novas ondas de informação que revelam o que os donos do poder tentar omitir.
Ao observar o cenário internacional era possível perguntar-se por que aqui ainda não tinha eclodido o movimento protagonizado por uma juventude que ocupa as ruas em diversas cidades do mundo numa crítica contundente aos perversos processos da globalização. Desde 2011, essa onda está no ar: como se pode ver na Primavera Árabe; no movimento de ocupação de Wall Street; nos protestos generalizados na Grécia; na Espanha do movimento 15M, dos indignados; em Portugal ou no Chile – todos indicadores de uma mudança em curso.
Por aqui tudo parecia indicar que, graças aos projetos de atenuação da miséria; das diversas políticas “pacificadoras”; ao futebol que se anunciava como distopia, iriam permitir que as diversas esferas do poder cantassem o funk do Furação 2000: “Tá dominado, tá tudo dominado”. Pois é, não ouve coro nessa música e, apesar de você, até o futebol revelou uma dimensão utópica. Para alguns o Brasil desafinou e, para outros está, como diz Marcelo D2, a procura da batida perfeita.
Há nessa explosão de singularidades conectadas, como diz Negri, uma dimensão festiva que celebra a importância dos encontros e mostra, ainda, a riqueza de experimentar coletivamente a cidade como própria, de reconhecer a existência dos desejos e da esperança. Mesmo que não esteja claro para todos, é inegável que esse encontro plural, diverso, convida a pensar. E isso já é um grande passo.

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Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
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