G.R.B.C. MEU BEM, VOLTO JÁ! CARNAVAL 2015: O parangolé do galo na terra do sol.

meu bem sol

Enredo: O parangolé do galo na terra do sol: não contavam com nossa astúcia, Meu Bem!

Carnavalescos: D’Abreu, Estevão e Jorgito.

Depois de 51 anos de uma boa ideia na cabeça e sem um pau de selfie na mão, a sensação térmica dos 450 anos da Cidade Maravilhosa é a de Deus e o diabo na terra do sol. Nesse caldeirão, que vem das tramas, Tamoios e tramoias entre Mem de Sá e os Tupinambás, qual é a do parangolé?

É a aventura de viver no Rio de puleiro, digo, de Janeiro, onde a Baía é mais suja que pau de galinheiro. Durma-se com uma piada pronta dessa… E desperte na Princesa, porque o galo de Barcelos vai cantar na freguesia do Meu Bem, Volto Já!, ó pá.

Manejando o Leme da alegria, o bloco, que está na rua há 21 anos, mistura e manda o axé do solar Hélio Oiticica, do carioquíssimo baiano Glauber e do malandro (sem querer querendo) Chaves no enredo O parangolé do galo na terra do sol: não contavam com nossa astúcia, Meu Bem!. Nem com o bom humor que veste a camiseta do sol na cabeça. Ela é o parangolé que faz o folião se entregar: eita, Corisco, que risco de você gostar!

No fim das contas, quem vai da pajelança Tupinambá para a performance parangolê-lê-ô-lá-lá, volta da matemática de Oswald de Souza para o Manifesto de Oswald de Andrade. Na tabuada de Momo, os 450 da feliz-cidade mostram que “a alegria é a prova dos nove”. Alá-lá-ô, Alá-lá-ô, je suis carnavalesco, Meu Bem!.

Você sabe com quem está falando?

G.R.B.C QUE MERDA É ESSA?
Carnaval 2015
Enredo: Você sabe com quem está falando?

Alô nação quemerdense!

É de conhecimento público que a expressão que dá o nome ao nosso bloco se originou no dia 23 de abril de 1500, quando indígenas da tribo Tupiniquim avistaram, do Monte Pascoal, a esquadra comandada por Pedro Alvares Cabral. Que merda é essa? Exclamaram em Tupi-Guarani quando viram o bote carregado de portugas se aproximando da praia.
Nesse barco tem coelho! Vaticinaram e acertaram! De fato, Nicolau Coelho, navegador experiente, tinha sido enviado à terra para o primeiro contato e a singular troca de contas e miçangas. Depois disso a rapaziada da praia errou muito nas suas avaliações dos caraíbas e comeu o pão que o diabo amassou.
Pouco tempo depois, a expressão de surpresa foi proferida pelo bispo Pero Sardinha ao ser capturado pelos índios Caetés e perceber uma singular movimentação em torno da fogueira. De nada adiantou proferir a expressão que revela, desde então, a natureza hierárquica da sociedade brasileira: você sabe com quem está falando? Pois é, o bispo Sardinha virou uma iguaria, hoje muito apreciada, além de batizar um beco, o da sardinha, no centro da cidade do Rio de Janeiro.
A expressão foi ouvida de boca dos Tamoios, aliados dos franceses na Guanabara, quando viram a cerca que o Capitão-mor, Estácio de Sá, mandara construir no dia 1º de março de 1565, ato que marca a fundação da cidade São Sebastião do Rio de Janeiro. Como sabemos, depois de fundada a cidade foi afundada inúmeras vezes.
De lá pra cá, a expressão virou mato. É, nas suas mais diversas acepções, uma expressão que faz par romântico com o ritual autoritário do você sabe com quem está falando? Rito autoritário que ajuda a entender aquilo que o antropólogo Roberto DaMatta denomina de dilema brasileiro no lindo e clássico trabalho Carnavais, malandros e heróis.
Ambas expressões são recorrentes na história nacional. Se tomarmos aleatoriamente um período histórico, por exemplo, o que deu início à República Nova verificamos a incomoda e persistente presença do rito autoritário num momento no qual poderíamos ter suposto – dado o desejo coletivo de renovação e transformação manifestado na campanha das Diretas Já – que ele definharia na democracia.
Isso não aconteceu. Com a derrota das Diretas a população exclamou, surpresa, que merda é essa? Renovou a expressão quando soube da morte do Tancredo e foi dita, com maior veemência, quando soube que seria governada pelo escritor dos Marimbondos de fogo, quem, tendo sido vice da situação virou presidente da nova situação e, ainda por cima, imortal.
No início do século XXI, o Você sabe com quem está falando? Foi repaginado por uma discípula do mestre DaMatta, a Mc Marcelly: “Tu tá maluco? Respeita o moço. Patente alta, dá aula. Bigode Grosso”.
Depois disso, em ano eleitoral, apareceram das trevas – ou incorporando as próprias trevas – personagens que reeditaram o rito autoritário do Você sabe com que está falando? Entre eles, a elite paulista e, cá entre nós, o Bolsonaro, (sobre o qual não vamos falar. Disso se encarregou seu cupincha Feliciano em recente carta aberta ao Jô Soares).
Pois é, patente alta, de fato, é a do Juiz parado recentemente numa blitz da lei seca com documentação irregular. Não é que o magistrado deu voz de prisão à funcionária que aplicava a norma da igualdade de todos perante a lei. Foi um deus nos acuda quando o juiz, que se julga acima da lei, invocou o você sabe com quem está falando e mandou prender a funcionária que foi, ainda, condenada por danos morais pelo TJ do RJ.
E agora, as vésperas do carnaval, Obama e sua trupe que há anos fala para a ilha de Fidel o você sabe com quem está falando, claudicou e, como todos ouvimos, Cuba lançou o seu grito de vitória: que merda é essa? Viva la Revolución!
Nada nos parece mais adequado que comemorar os 450 anos da cidade maravilhosa mandando solenemente à merda a todos aqueles que insistem na preservação de normas, lógicas e valores orientados na defesa das hierarquias, dos privilégios, do querer levar vantagem em tudo, enfim, de tudo aquilo que representa o lado mais perverso da nossa sociedade.
Ora bolas, como foliões e legítimos representantes da nação quemerdense respondemos, a todos aqueles que insistem em repor o rito autoritário do Você sabe com que está falando? no popular mesmo: Que merda é essa!!!
Jorge Sapia
Anselmo Goes