Como diria Rabelais, o hábito no faz o monge.


Sábado, véspera do domingo de Páscoa, fui para a nova sede do Cordão do Bola Preta, na rua da Relação, para festejar o aniversário do amigo com nome peronista, Domingos Cersosimo, o Dodo. Fui de 434 que inclui, no seu trajeto, uma passagem pelo São João Baptista. Tinha estado ali na véspera me despedindo do amigo e parceiro Lefê Almeida.

Saltei no primeiro ponto da Lavradio, ali, entre o Capela e o Bar Brasil, dois remanescentes da velha Lapa. Resolvi caminhar pela Gomes Freire para evitar a multidão que tinha marcado encontro na feira da rua do Lavradio. A multidão desconhece que esse encontro, hoje é possível graças a reinvenção da rua e do bairro pelo Luis Francisco e seus amigos que responderam afirmativamente ao convite de fazer e curtir uma roda de samba num velho antiquário da rua. Como ia dizendo, desci a Gomes Freire e, ao passar pela porta da Igreja Ortodoxa Antioquina São Nicolau do Rio de Janeiro, não tive como não sorrir lembrando de um episódio curioso que nos fez rir em mais de uma oportunidade.

A história aconteceu quando Lefê saiu do antiquário da Lavradio 100 – onde tudo começo – transformado, pelo projeto visionário, no reduto do samba carioca da nova Lapa. Quando digo que tudo começou nesse endereço é porque tudo começou mesmo. Se hoje o indivíduo resolve não enfrentar a multidão da feira, ou resolve beber alguma coisa na miríade de bares criados nas últimas décadas no “ponto menor do mapa” do ex-distrito federal é porque o pequeno duende, resolveu reinventar a roda mostrando para os incrédulos que tal feito era possível.

Pois bem, o parceiro tinha saído do bar Coisa da Antiga porque a proprietária tinha, também, crescido o olho. Achou que baixinho era substituível. Não era. Nessa época, eu estava numa pindaíba de dar dó. Tinha sido limado pelas novas práticas de gestão do ensino universitário privado, práticas de gestão que continuam firmes e fortes: degradação do corpo docente, exploração do seu trabalho, desrespeito ao corpo discente, e ainda criticando as políticas públicas que lhes permitem ganhar de todos lados e contando com a benevolência do MEC que fica satisfeito olhando os grandes números mas essa é outra história.

O fato é que estávamos ambos duros.  Eu morando de favor num conjugado herdado pelo meu filho, ele em um conjugado pago por algumas alquimias familiares não desprezíveis. Ambos no Leme. Eu no início, ele quase no fim. Eu do lado do beco que sobe para Babilônia ele embaixo do Escadinha, tradicional pé sujo do Leme onde conversava assiduamente com o grande pianista Zé Pité. Nessa pindaíba, projetamos um espaço músico cultural que tinha tudo para dar certo, como deu. Só que nós não fomos os protagonistas.

Conseguimos um capitalista, formado em administração de empresas, folião dos blocos, que acreditou na gente nos primeiros seis meses. Conseguimos o apoio generoso de muitos amigos. Marquinhos Pinho, arquiteto, amigo de copos e histórias – fundador do Meu Bem, Volto Já – fez nosso primeiro projeto. Carlos Fernando, fundador do bloco de Segunda, estava lá, também, pro que der e vier. O querido fotógrafo, Paulinho Camarão, fez o projeto gráfico.  O Chico e a Graça, livreiros de respeito – categoria em extinção -, estavam dentro, junto com Rodriguinho, hoje proprietário da livraria Folha Seca, na rua do Ouvidor. Enfim, uma enorme quantidade de pessoas prontas para mudar o cenário da cidade.

Depois de uma série de mapeamentos que incluíram a área da Praça XV, Lapa e Praça Mauá, nosso projeto, chamado Achados e Perdidos, iria ocupar o térreo da Estudantina Musical, na praça da Constituição, hoje praça Tiradentes.  O Isidro, proprietário do local, que já intuía o deslocamento da cidade no sentido da Lapa, comprou o projeto. Um advogado, nosso consultor, alertou para os problemas que teríamos nessa sociedade e tudo desandou.

Voltamos à estaca zero. Zero mesmo, percebemos posteriormente que nosso sócio capitalista tinha encontrado outros investimentos, não sei se tão rentáveis mas talvez um pouco mais seguros. Lá estávamos nós, duros, com uma ideia na cabeça e sem um tostão no bolso.

Nessa redescoberta da cidade descortinamos a velha Sinuca da Lapa. Descobrimos que o proprietário era dono e alguns inferninhos da Praça Mauá. Não conseguimos, porém, sensibilizá-lo a alugar o espaço. Hoje deve estar arrependido.

Caminhamos a Lapa, as imediações da praça Mauá, o Arco do Teles, em todas as direções a procura de um espaço que comportasse o projeto, que incluía, diga-se não tão de passagem, a possibilidade de abrir a portas por uma boa quantidade de músicos, fora o Zé Pité, que tinha lugar cativo no piano. A questão do piano é outra história. Nessa procura nos deparamos com um local na Gomes Freire. Achamos que seria ideal sempre e quando pudéssemos reduzir o projeto original à metade. Depois de seis meses de procura, reduzir o projeto à metade era o menor dos problemas. Pois bem, gostamos do local e quando indagamos sobre o proprietário, o encarregado nos informou que pertencia a Igreja Ortodoxa de São Nicolau. Olhei pro baixinho e falei, parceiro, fudeu. Olhou pra mim e falou, Portenho, “vamos tomar uma cerveja e vamos enfrentar a ortodoxia com a ortodoxia da música popular carioca”. Fomos lá, cheio de dedos, bater à porta de Gomes Freire 569. O baixinho falou, Portenho, o número é promissor.

Fomos recebidos pelo pároco à paisana que mui gentilmente se dispôs a ouvir-nos. Vendemos o peixe tomando todas as precauções possíveis, falando em cultura, no Rio de Janeiro, na importância do local, enfim, tudo que parecesse vendável e omitindo, claro, que seria frequentado por uma rapaziada mais chegada ao birinaite. Para nossa surpresa, a cada ênfase do projeto o pároco arregalava o olho e sorria em sinal de aprovação. Resultado, topou alugar o espaço. Percebemos então que depois de meses de peregrinação, tínhamos redimensionado tudo, menos o lastro econômico. Não tínhamos como encarar. Voltamos a nossa realidade. Eu fui aumentando gradualmente minha carga horária e Lefê depois de um certo tempo foi chamado para produzir o Carioca da Gema. Daí pra frente a história é mais ou menos conhecida.

Acabei esse sábado no Bip, Bip, encontrei uma pá de músicos que marcaram presença  no gurufim do amigo.

Igreja de são nicolau

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