Uma noite de Flamenco no Sacromonte.


Uma noite de Flamenco no Sacromonte.

Renovei minha vontade de conhecer Granada, na Andaluzia, ao ler uma citação do poeta e professor Luis García Montero, feita por Nestor Canclini no artigo Imaginários culturais da cidade. Diz Montero que “Cada pessoa tem uma cidade que é uma paisagem urbanizada de seus sentimentos”. A decisão de conhece-la não deixou lugar para qualquer tipo de arrependimento. A cidade com nome de fruta (romã/Granada) me arrebatou. Atravessada pelo Rio Darro, as águas, do rio e das fontes, deslizam suave e convidativamente, na mesma cadência do Flamenco de Tomatito ou de Camarón de la Isla.

O Darro margeia o bairro comercial da cidade e pode ser acompanhado pela encosta que leva ao bairro muçulmano de Albaycín. Na subida veio à memória Fiesta, música de Joan Manoel Serrat, que não ouvia desde os anos setenta:  “Vamos subiendo la cuesta que arriba mi calle se vistió de fiesta”. Foi como se estivesse a antecipar o inantecipável.

Pouco antes da rua que leva ao mirador de San Nicolas e a sua deslumbrante vista da Alhambra, quebramos à esquerda no sentido de Sacromonte, bairro cigano de Granada que concentra diversos tablados de Flamengo nas Cuevas escavadas nas encostas do caminho que dá nome ao bairro. Passamos pela Cueva de La Rocío – cheia de uma garotada disposta a amanhecer na companhia de vinhos e guitarras.

 

Zambra de Maria la Canastera

Procuramos algo um pouco mais intimista e chegamos à Zambra de Maria la Canastera ou La Venta del Gallo. Trata-se de uma gruta caiada de 3 metros de largura por 10 de comprimento. Entrando à direita, uma pequena cozinha. Ao fundo, um quarto, separado da sala por um cortinado, e do lado esquerdo outro pequeno quarto que fazia as vezes de camarim dos dançarinos. As paredes decoradas com fotografias e panelas de cobre dos mais diversos formatos e tamanhos.

 


Flamenco

 

 

 

 

 

 

O show durou uma hora. Cinco mulheres, voz e palmas, um exímio violonista e Paco, um jovem e esguio cigano que também mostrou aquilo que viemos procurar. Extasiados pela força das ciganas, no cante, nas palmas e na performance, a entrada do Paco, pareceu, a princípio mais do mesmo. Porém, por essas casualidades que a vida as vezes oferece Paco nos deixou extasiados. No meio do sapateado, o atrito provocado pelo solado e o chão, produziu uma faísca que percorreu o curto espaço entre o sapato e as cadeiras do público que assistia maravilhado a apresentação.

Não todos perceberam esse segundo de luz. Quem olhava o movimento dos quadris, dos braços e das mãos, perdeu. Quem olhava do tornozelo para baixo, não conseguia conter a admiração e incredulidade. As vozes femininas, viram e imediatamente festejaram: “sácale fuego Paquito que pá eso estamos, niño!”

Paco de granada

 

 

 

 

 

 

 

Na descida, do outro lado do rio, a Alhambra iluminada.

Ôh sorte!

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Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
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