O barbeiro que não é de Sevilla mas que adora uma pândega.


O barbeiro que não é de Sevilla mas que adora uma pândega.

Certifiicado do reinado

Sai do Rio com o firme propósito de fazer minha barba com um Barbeiro de Sevilla. Cheguei a cantarolar algumas estrofes da Música de Rossini, Figaro qua, Figaro la…Mas não deu. Fiz, para registro, uma foto com meu amigo Hugo Bomfim, caso precise um dia contar uma história a respeito.Alguns dias após essa foto, desembarquei em Ovar, distrito e Aveiro, Portugal. Não sei se é correto falar desembarquei. Em verdade saltei do trem que tomei na estação de Santa Apolônia, em Lisboa.

Uma vez no destino optei por fazer um reconhecimento do terreno indo a pé até o hotel. Pedi informações no primeiro bar, lotado de nativos, que aproveitam o almoço almoçando para bebericar alguma coisa e colocar o papo em dia. Fui informado que a distância até o hotel era pequena. Na primeira esquina, à direita de quem vai, vi uma pequena barbearia. Pequena mesmo, não maior do que 8 metros quadrados. Duas cadeiras, um espelho, várias fotos e o mestre Álvaro no comando das navalhas. Não pensei duas vezes, entrei, cumprimentei, sentei e fui observando, com o rabo do olho, o ambiente. A operação foi realizada com presteza e no maior silêncio. Confesso que   não fico muito à vontade quando alguém passeia as lâminas pelo meu pescoço. Observo sempre um silêncio ritual que, até agora, tem dado bons resultados.

Depois do pagamento e já em segurança, puxei uma conversa. Meu interlocutor, revelou-se um contador de histórias de colocar Sherazade no chinelo. Ao saber que era argentino, me indicou uma fotografia do time local, pelo qual passou um compatriota que, em 1951, vestia a camisa 10. O bom desempenho do artilheiro e questões diplomáticas de boa vizinhança entre Perón e Salazar, fizeram com que Evita Perón enviasse 200 bolas de futebol para a cidade de Ovar. A conversa ia assim se enveredando para arte da bola até chamar minha atenção uma fotografia que mostrava seu Álvaro com uma coroa na cabeça.  Quando comentei o encontro com Andréa Estevão incorporou, rapidamente, Marisa Toste e falou: Pronto, formou!

Don AlvaroEntão, estava eu em Ovar para falar num Congresso de cinema sobre o carnavalesco nas chanchadas da década de 1950 quando, por essas coincidências que a vida tem, me encontrava olho no olho, no maior conversê, com quem tinha sido escolhido Rei do Carnaval na cidade em 2010. Don Álvaro, com um sorriso que o acompanha até nos piores pesadelos, contou-me deliciosas histórias sobre a história do carnaval na cidade. Falou saudoso sobre as piadas, isto é, cortejo de foliões individuais que colocam o dedo na ferida na Terça-Feira Gorda. E olhem que colocar o dedo na ferida em tempos de Salazar é qualquer coisa digna de nota. Mostrou-me diversas fotos e explicava o sentido da fantasia de cada uma delas. Foi discorrendo sobre a irreverência, a crítica política, a crítica social e de costumes com um faro preciso.

Li, com gosto, o seu discurso de posse. Pega aqui e ali nas mutretas municipais: “Ordenei demolir o mamarracho do Parque Sra. Da Graça. Ordenei levantar todas as pedras da Praça da República porque este recente melhoramento foi inútil”. Preocupado com a mobilidade de um município com grande número de idosos ordenou “a reparação de todos os passeios da cidade para evitar quedas e trambolhões”.

Registrou as nefastas consequências da Troika e as quebras sucessivas:“Sua majestade A Rabor, morreu, sua Majestade a Philips morreu, as fábricas dos Bonifácios morreram, a Atlântica e a Sociedade Mercantil também morreram (…) Os comerciantes estão todos com a corda na garganta, os proprietários das boutiques adormecem ao balcão. As únicas que vão vendendo são as boutiques Chinesal e Ciganal”.

Essencialista, faz críticas pontuais ao processo de espetacularização do Carnaval, às escolas de samba e a lógica do mercado e, depois de passar em revista as mazelas comuns que nos acometem, saúde, desemprego e outros quetais, ordena que “quando desfilar no corso de carnaval no Domingo Gordo e Terça-Feira na Av. Sá Carneiro e Rua de Timor as senhoras ponham as Coxas nas janelas. Termino dando Vivas ao Carnaval de Ovar. Viva quem tem barriga e quem não tem que viva também”.

E pela sua delicadeza e alegria Viva Don Álvaro Silva, o meu barbeiro de Ovar.

Discusro de posse seu AlvaroO mundo está cozidoNoivo AzaradoO mundo está cozidoCritica à saúdeMercado Comum

 

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Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
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