O que nos faz pensar. Revista de filosofia


A revista O que nos faz pensar é uma publicação do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Fundada em 1989, firmou-se nos últimos anos, pela excelência de seus textos, como uma das principais publicações acadêmicas do país na área de Filosofia. Voltada para a edição de artigos filosóficos, de pesquisadores nacionais e internacionais, a revista tem como objetivo central proporcionar um espaço de debate de ideias e de confronto de interpretações em que a reflexão filosófica se abre para distintas áreas do conhecimento.

http://www.oquenosfazpensar.com/web/

Anúncios

Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Esse post foi publicado em Filosofia, Revistas e marcado , . Guardar link permanente.

2 respostas para O que nos faz pensar. Revista de filosofia

  1. jorgesapia disse:

    O Artigo de Marcio Tavares D´Amaral é muito interessante.

    Curtir

  2. Gioia ✨ disse:

    Sim ….Exelente texto este; citado pelo mestre, amante das diferentes formas do conhecimento que nos incita a sair da zona de conforto e mergulhar nesse vasto mar das inquietações e argumentações críticas que nos sugere a “A festa é boa para pensar” JORGE SAPIA! 🎭🎉🎉🎉🗝
    Sempre será um eco , faremos essa passagem pois a chave para essa explicação sempre estará no próprio mundo que se abre a possibilidade!!
    ( R. Gioia. psico.noite IBMR)

    A pororoca das origens
    O desconforto de Kierkegaard com as condições de pensar e dizer na sua época pode ter sido um eco

    Kierkegaard, filósofo do século XIX que escalei para o segundo time para as batalhas pelas multiplicidades do mundo e a potência da vida, foi um espantado. Viveu no poderoso século XIX de Hegel. Também no de Nietzsche, que, Kierkegaard não sabia, ia declarar a morte de Deus. No momento em que o dinamarquês escrevia, Hegel era o limite absoluto da Razão. E Kierkegaard pensou: e se não se tratar apenas da Razão? Porque houve Abraão.

    O desconforto de Kierkegaard com as condições de pensar e dizer na sua época pode ter sido um eco da pororoca das origens. Assim como, na década de 1960 do século passado, os radiotelescópios captaram uma radiação antiquíssima e constante, e julgaram ouvir nela o som da explosão que gerou todo o universo, também nós, se apurarmos os ouvidos do espírito e da inteligência, valorizarmos o tempo, poderemos talvez escutar o eco do encontro do rio do Ser com a torrente de Deus. Foi no século I. Para nós, que vivemos sob a espada do “fim da História”, um acontecimento espantoso, inimaginável e fundador. Deu chão a tudo que somos.

    Os gregos navegavam no rio do Ser, procurando o princípio de unidade de tudo que é. A imensidão de diversidade do mundo atormentava a sabedoria grega. Multiplicidades anárquicas, risco de caos, da nossa perda no oceano da indiferenciação. Um típico terror grego. Eles acharam seu rio bom, águas e margens pacificadas. O rio do Ser. Pois, inegavelmente, tudo é. Nada simplesmente não é. O que não é, não é, e não entra na festa. E assim, cada coisa pode ser livremente à sua maneira, sem perigo. A unidade de tudo ser organizava a diversidade. Unidade e multiplicidades preservadas. Como um fluxo de rio, disse Heráclito, ou pela fixidez das margens, preferiu Parmênides. Quase uma questão de opinião. Tudo isso se passou no longínquo século VI a. C.

    E vinham os hebreus pelo deserto. Estar na terra estrangeira, estrangeiro na sua própria terra: esse é o deserto. Os hebreus conheceram seus desertos. Houve invasões assírias no norte, misturas étnicas, um deserto de identidade. E o cativeiro na Babilônia para as tribos do sul, um deserto de melancolia. E a escravidão do povo no Egito, um deserto de humilhação. E depois a saída, o Êxodo, 40 anos vagando pelo deserto de areia até chegar de volta à casa. Invadidos, misturados, cativos, escravos, errantes, dispersos, os hebreus não se perderam de si porque tinham seu Deus. Aquele que fez a Aliança com Abraão, deu a Lei a Moisés, ditou as palavras de fogo do primeiro dos nossos Livros sagrados. Trouxe o povo de volta da Babilônia, libertou-o do Egito. Seguiu à sua frente como uma torrente inextinguível. A unidade do povo hebreu lhe foi dada pela torrente de Deus.

    A unidade grega, sua regra de navegação, era um princípio abstrato, o Ser. A hebraica era mais do que concreta, Deus, causa de tudo o que existe, Criador do mundo e do tempo, fonte nunca seca do rio da História. Os gregos escreveram seu princípio de identidade em filosofia. Os judeus contaram sua unidade como religião. Os gregos questionaram o Ser. Os judeus narraram a História de Deus. Tão diferentes! Ser, razão, filosofia. Deus, fé, religião. Essas duas grandes experiências éticas, de habitação nossa no mundo, deveriam estar destinadas a nunca se encontrar. E no entanto, no século I, tocaram-se, fundiram-se, repeliram-se, completaram-se. Que choque imenso deve ter sido essa pororoca das nossas origens! Hoje mal ouvimos seu eco longínquo com nosso radiotelescópios históricos apontados para o passado.

    No século XIX Kierkegaard ouviu. Os modernos do Renascimento tinham querido separar as duas fontes, ficar só com os gregos. Em estado puro. E esse desvio das origens conduziu a uma Razão que pretendeu varrer para a sombra a potência da fé e a presença de Deus. No século XVIII, chamou-se Iluminismo a esse movimento de cisão. No XIX Hegel acabou por consagrar essa Razão como o novo Absoluto. E Kierkegaard se afligiu. Porque ouvia Abraão. O Homem da Fé não podia ter morrido de Razão. Como isso poderia acontecer aos olhos de Deus? — Para essa angústia escreveu um belíssimo livro, “Temor e tremor”, que um dia merece ser apresentado com delicadeza. Por enquanto, vamos lembrar que Kierkegaard ouviu a pororoca das origens. Podemos, os que quisermos, apurar os ouvidos e escutar na concha da sua orelha. E começar de novo a História. Uma outra, uma mesma História. Melhor, quem sabe? Se a exaustão e a tristeza do nosso tempo não embargarem nossos passos e turvarem nossos olhos. Teremos a humildade de recuperar passos firmes e olhos claros? Já os tivemos uma vez. Fizemos uma longa História com eles. No ocaso dela, teremos forças para de novo nos levantar da nossa tenda, palmilhar o deserto, atravessar o rio e a torrente e reverdecer a Terra?

    Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/a-pororoca-das-origens-18858612#ixzz4371T4KaH
    © 1996 – 2016. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s