AINDA RESTA UM POUCO DE ESPERANÇA.


 

AINDA RESTA UM POUCO DE ESPERANÇA

Algumas postagens no fezibuke revelam preocupação com as dificuldades que terão os historiadores no futuro para decifrar 2016. Cá por mim devo dizer que me preocupa o presente e a dificuldade em decifrá-lo. Não vou longe, me olhei agora pelo rabo do olho no canto do espelho e não consegui deixar de surpreender-me. Não me entendi.

Passei os últimos dias defendendo ideias que se confundem com a defesa de um governo do qual faz tempo me afastei. Desiludido com as atitudes que foram mantidas: o arreglo, o acochambramento, a vista grossa para práticas ilícitas existentes nas poucas instituições que eu conhecia me levaram a supor na institucionalização de um modelo de gestão não recomendável. Desiludido pelo mar de concessões feitas ao sistema financeiro, à iniciativa privada e, desde a última eleição, ao projeto da oposição.

As primeiras denúncias do mensalão, que resultou de uma briga entre compadres, não me surpreenderam tanto e confesso não ter ficado surpreso pela Delação premiada do dedo duro do Delcídio Amoral. Zero novidade, nada, nadica de nada que o mais simples mortal não saiba e que hoje dá lastro a essa reação do “contra tudo isso que tá ai” que tomou conta de parte do pais.  Delcídio choveu no molhado e, quando o gato estava subindo no telhado, apareceu a nomeação que suscitou acalorados debates.

Uma parcela indignada fala em respeito ás leis e pede justiça, aplaude, porém, o desrespeito aos direitos e garantias individuais, à invasão da privacidade levado adiante pelo novo ícone da parcialidade, o juiz Moro, já com direito a cadeira cativa no bloco Desliga da Justiça.

Por outro lado, uma parcela satisfeita entende que a lei seguiu seu curso e que a escolha do Ministro lembra famosos movimentos do Mequinho. Um amigo, professor de filosofia, sacou o lance e tentou esclarecer: “é xadrez, não é damas, galera”.

Temos também a turma dos canudos como a do ex-presidente da república, com apartamento e amante em Paris e comprometido até o osso com a corrupção e o descalabro, mas até hoje blindado. Aquele mesmo que foi incapaz de criar qualquer vaga em Universidade Pública. Aquele que falou ter um pé na cozinha mas que arrota Casa Grande e considera um horror que existam analfabetos no Ministério.  E, quando mais é menos, aparece o deputado e neto de importante figura do processo de democratização que resolveu, em nome da moralidade, apresentar projeto de lei proibindo candidaturas de indivíduos não diplomados. Atende, o tucano, que é uma anta, pela alcunha de Bruno Covas.

Reconheço as conquistas que os três últimos governos fizeram, assim como reconheço que nunca antes na história deste pais se fez tanto, por tantos, em tão pouco tempo. Mas não há santo que me faça pensar diferente a considerar que, o que foi feito foi, como diria o querido Mario Lago, “Nada além…” da obrigação. Mas foi pouco!

Reconheço que a oposição, na figura do menino mimado, batedor de mulher e típico representante do que há de pior no pais, precisa ser responsabilizado pelo golpismo que defende desde que perdeu o processo eleitoral. Penso que se foi um resultado apertado foi mais pelos erros da situação que pelos acertos da oposição.

A novidade veio dar à praia é não tem a qualidade rara da sereia. É sua antípoda, o medo, a desconfiança, a despolitização, o silêncio, as sombras, o terror. Os historiadores do futuro – se houver futuro – podem ficar tranquilos pois o cenário que confuso nos parece é, em realidade, cristalino. Será possível perceber como se desenvolve e como se gesta aquilo que muitos não conseguíamos entender lendo a literatura da barbárie, pois ela hoje se configura diante de nós. Aquele sujeito pacato, sorridente, torcedor do time que você torce, grande contador de histórias nos botecos da cidade é o mesmo que poderá te denunciar por pensar de forma diferente ao que ele considera correto, moralmente justificado e, principalmente, inquestionável. Você vai conseguir finalmente entender que aquilo que Hanna Arendt chamou de Banalidade do mal está batendo a tua porta ao som de pátria amada salve, salve.

O que certamente não conseguirá entender é, e aí que mora o perigo, que você poderá ser a próxima vítima, mesmo tendo seguido a cartilha da denúncia e da ordem que os donos do poder estabeleceram como modelo.

Vou pra rua porque não quero continuar perdendo direitos.

Vou pra rua porque não quero perder o bom humor.

Vou pra rua porque O Pato o pato não vem cantando alegremente.

Vou pra rua porque não quero cantar com Julinho da Adelaide Chame o ladrão. Prefiro Roberto Ribeiro, “ainda resta um pouco de esperança…” nesse caso de amor com a democracia.

 

 

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Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
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