40 anos do golpe civil-militar na Argentina: desaparecidos, luta pela memória e defesa da democracia.


Na madrugada do dia 24 de março de 1976 as Forças Armadas e seus apoios civis usurparam o poder na Argentina. Desde o primeiro minuto do golpe deixaram claro que os elementos constitutivos da ordem, reivindicada por importantes setores da sociedade, passava pela implementação de um processo de terror  ancorado em  sequestros, assassinatos, torturas e na invenção uma nova categoria sociológica: os detidos desaparecidos. Categoria que designa as pessoas detidas coercitivamente em suas residências, locais de trabalho, escolas, universidades ou mesmo na rua, por unidades regulares das Forças Armadas que operavam clandestinamente. Esse modus operandi se materializou em 340 campos de concentração ou centros clandestinos de detenção e tortura espalhados  pelo país. Entre eles, o mais emblemático, foi o da Escola de Mecânica da Armada (ESMA). Espaço que desde 2004, se transformou em Centro de Memória do terrorismo de estado e de promoção dos direitos humanos.

A modalidade de terror provocou isolamento, privatização e silêncio social, que institucionalizaram uma cultura do medo. Assim como em 1964 e hoje aqui, a narrativa que legitimou o golpe, foi a narrativa do caos, alicerçada na instabilidade produzida pela crise econômica existente. O medo, naquele contexto, alimentou a passividade de parte da população que depois de apoiar o golpe, não demorou a constatar, espantada, que bater na porta dos quarteis não tinha sido uma boa estratégia. Se transformaram nas novas vítimas do aparelho repressivo sentindo, na pele, aquilo que sentem as vítimas de sempre: os pobres, negros, homossexuais, isto é, os setores historicamente excluídos.

Vivemos hoje, no Brasil, uma situação semelhante. Há um descontentamento generalizado instrumentalizado por novos atores que inauguram uma nova forma de intervenção, de ruptura democrática, sustentada em um discurso esquizofrênico que anuncia a necessidade de acabar com essa democracia para colocar em seu lugar outra democracia. Tal insatisfação resulta de uma leitura dicotomizada que impede ver as nuances, as alternativas, as opções e possibilidades. Para uns, o governo avançou nos patamares de inclusão mas não o suficiente. Para dizê-lo moderadamente, o governo foi tímido.  Para  outros, fez coisas demais e inadequadas. Não estou me referindo às criticas sobre procedimentos ilegais, corrupção e outros quetais. Estou querendo dizer que prefeririam ter os níveis históricos de exclusão da maioria.Não é de surpreender que boa parte destes setores realize uma leitura seletiva, no compasso da leitura realizada pela grande imprensa e pelo poder judiciário, não surpreende  o apoio à nova modalidade de interrupção da democracia encabeçada por um poder que representa a lei, mas tem dado mostras significativas de operar acima da lei. Também não surpreende, embora devesse, o ressurgimento do ódio, das falas e práticas excludentes, a permanente construção de fronteiras, os discursos desqualificadores e estigmatizadores que acabam colocando o outro, o diferente, fora da fronteira da humanidade.

Incensados por uma mídia totalitária que não dá trégua, que mente, omite,  deturpa. Uma rede, a Globo,  que deve estar sinceramente arrependida por ter declarado, publicamente, no auge das mobilizações de 2013, seu irrestrito apoio ao golpe civil militar de 1964. Com as insistentes e seletivas narrativas sobre a corrupção imaginam que as condições são favoráveis para desapear do poder um governo fraco e claudicante que conseguiu, não obstante, indiscutíveis e significativos avanços nas politicas de inclusão social da maioria.

Não chama a atenção, embora devesse, a insensatez de uma oposição que se caracteriza pela carência de princípios éticos, de valores democráticos e que está comprometida, até a osso, com o que há de mais reacionário no país. Não me parece que essa oposição  não consiga mensurar a gravidade da cisão que  provoca por não respeitar o resultado eleitoral, acostumada a quanto pior melhor dispara seus  obuses contra a legalidade. O que sim me parece, é que assim como o governo, a oposição  não avaliou corretamente a importância das mobilizações de 2013. Nem um nem outro lado  conseguiram avaliar o empoderamento de movimentos sociais articulados numa identidade de  defesa e afirmação de direitos coletivos, individuais, difusos. Não conseguiram avaliar que o Brasil mudou.O governo preferiu ouvir os interlocutores de sempre e os circunstanciais – Rede Globo por exemplo. Perdeu a oportunidade histórica de ouvir as ruas.  A dimensão dessa mudança   se deixa perceber nas falas ensandecidas dos arautos do caos, Bolsonaro e Feliciano no Congresso Nacional.  No sequestro dos símbolos nacionais por uma parte da população que nega a alteridade. As manchetes do Globo, noticiando as manifestações da semana passada, são por demais reveladoras, numa delas Brasil esteve presente, noutra, os outros, aqueles que ameaçam a identidade a pátria e a sagrada família. Se alguém não tinha entendido, essa leitura ficou clara, na agressão de ontem,  ao arcebispo de São Paulo Dom Odilo Dom Odilo Scherer, acusado de comunista na celebração da missa da Páscoa. Leituras e atitudes   reveladoras do acirramento das posições em disputa, são também, uma mostra do teor explosivo do confronto que tomará conta do pais se o processo democrático for interrompido.

Mesmo olhando no olho da enorme desigualdade existente e da concentração de renda tão escancarada, há quem acredite – e as ruas mostraram que não são poucos – que o mérito pessoal e a capacidade individual de adaptação aos novos modelos de mercado premiarão aos mais capazes nessa incessante luta pela existência. Vão demorar a entender que, depois da ruptura, o pato da FIESP não será solidário com quem, na certa, vai perder direitos, individuais e coletivos. Aqueles que acreditam que o capital tem ética, terão que aprender a se equilibrar na corda bamba com o aprofundamento da terceirização e flexibilização do mercado de trabalho.

Neste momento, se de uma lado temos a reiteração de velhas e vergonhosas posições como a defendida pelo Conselho Federal da OAB a favor do golpe, há um florescimento de associações da sociedade civil que entendem que a questão principal não é da defesa deste ou daquele governo, mas a defesa das instituições democráticas, isto é, do ponto de vista eleitoral, aquilo que é essencial: a alternância regular e legítima do poder. Vejo com alegria as diversas manifestações em defesa desses valores. Vejo com esperança a coragem e determinação evidenciada nas manifestações públicas, país afora,  dos mais diversos coletivos sociais, da força da periferia, da garra dos estudantes, das associações profissionais aviltadas pelas políticas neoliberais: professores, médicos, psicólogos, jornalistas, dos coletivo de sambistas, artistas, escritores e foliões que em síntese mostram que o caminho é da luta e não do luto.

Luta, como a de ontem, na Argentina, que mostrou uma população disposta a não esquecer o acontecido na última ditadura. O comparecimento multitudinário lembrou que a perseverança foi capaz de vencer à indiferença; mostrou uma população que  tornou presentes, pela força da memória, os 30.000 desaparecidos.

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Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
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2 respostas para 40 anos do golpe civil-militar na Argentina: desaparecidos, luta pela memória e defesa da democracia.

  1. jorgesapia disse:

    CAro José, A configuração mudou. Estamos presenciando um outro tipo de intervenção e agora pela mão do poder judiciário que de imparcial nada tem.

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  2. José Webson disse:

    Sem dúvidas. Estamos a beira de um golpe.Agora me ponho a refletir sobre os militares. Onde eles estão? Tão calados e pacientes. Sem dúvidas aqueles que pedem o retorno dos militares pensam que haverá democracia, que eles ouviram o povo. Me dói a mente em ler o que a própia história do Brasil conta a respeito do regime militar. Não sou do PT, muito menos de direita. Mas faço o mesmo pronunciamento que a Presidente – “Não vai ter GOLPE.” Ha… Argentina, Uruguai, Brasil… que nunca tivessem essa história de sangue em sua existência.

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