Panta rei.

A revista Insight Inteligência publicou, em 2001, o artigo Carnaval.com: agonia ou êxtase da razão pura? do economista Wouter Pieter Harten Jr. O autor informa que no início do novo milênio o tráfego carnavalesco na infovia é pequeno, que a Internet é “que nem o baile do Copa, só para uns poucos privilegiados”, e que está longe de ser, concluímos, o Cordão do Bola Preta, o maior bloco do pais e o mais tradicional do Rio de Janeiro, transformado em 2007, em Patrimônio Cultural imaterial da cidade.

Harten Jr. Pesquisou num site de busca na WEB que disponibilizou, nos informa, pouco mais de 2.300 endereços para a entrada Carnaval, o autor conclui que, no período indicado, “não se transpira carnaval na internet”, prudente, porém, acrescenta, “ainda”. O artigo ativou na memória a música de Nelson Motta e Lulu Santos: Como uma onda. Os versos iniciais afirmam que “Nada do que foi será, de novo, do jeito que já foi um dia”. Como se vê, os compositores recuperam, em formato pop, a concepção mobilista de Heráclito de Éfeso, isto é, a ideia de que tudo é fluxo, tudo é movimento, “Panta rei” (Tudo Passa). A frase nos remete também às diversas concepções da modernidade, entendida como movimento que rompe com a tradição, como aquilo que designa o novo, o transitório; aquilo que Baudelaire classifica como fugidio e contingente e que Marx e Engels sintetizam, no Manifesto Comunista, como o movimento que desmancha no ar, tudo o que é sólido.

Estimulado pela dúvida deixada no artigo, repeti a experiência – nestes tempos estranhos do pós-Carnaval de 2016 – pesquisando em dois sites de busca – Bing e Google. O resultado foi o seguinte:  a procura por “Carnaval no Brasil” disponibilizou, no Bing, 13.900.000 entradas e no Google 21.500.000. Procurando por “Carnaval”, numa espécie de lógica carnavalesca do liberou geral, apareceram 69.700.000 entradas. Os números indicam, primeiro, uma mudança significativa no mundo virtual e, segundo, uma relação estreita entre Carnaval virtual e o real num processo de fertilização potente. É preciso investigar.

 

O Homem ao lado

Conforme comentamos ontem em sala, a partir da sugestão de Breno, envio um link do filme O Homem ao Lado. Direção de Gaston Duprat. O filme esta disponível em 366filmesdeaz.blogspot

Abraços

http://366filmesdeaz.blogspot.com/2015/07/65-o-homem-ao-lado-el-hombre-de-al-lado.html

MARCIA TIBURI: Ódio à inteligência: sobre o anti-intelectualismo

Prezados, disponbilizo o artigo que comentei em aula semana anterior e que se relaciona diretamente com as questões levantadas nas últimas aulas. Espero que aproveitem a leitura.

Um preconceito em voga nesse momento: o anti-intelectualismo. Há um ódio que se dirige atualmente à inteligência, ao conhecimento, à ciência, ao esclarecimento, ao discernimento

Fonte: MARCIA TIBURI: Ódio à inteligência: sobre o anti-intelectualismo

A santa, o pastor, o samba e as eleições.

 

Voltava para casa de carro num sábado quente de novembro de 1995 quando cai, por volta do meio-dia, num imenso engarrafamento na Av. Chile. Fiquei horas parado no trânsito como resultado de um evento que o Bispo Edir Macedo tinha convocado para aquele dia no centro da cidade.

Naquela época, ainda não tinha sido inaugurado o Templo da Glória do Novo Israel, isto é, a sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus, construída no subúrbio de Del Castilho. Talvez por falta de sede, o bispo costumava reunir multidões no espaço público no verão em horas que a canícula reinava. Era o caso. Um calor dos diabos e eu no carro, sem ar condicionado, e nada ambulante de água ou cerveja que ajudasse a mitigar a sede e o mau humor.

Durante o tempo que fiquei no forno via, na minha frente, um carro que ostentava um adesivo singular: “Sou dizimista”.
Só para lembrar, poucos dias antes do evento, no feriado de Nossa Senhora Aparecida, o pastor Sérgio von Helder tinha espancado e chutado a imagem da santa durante o programa “Despertar da fé”, na TV Record, causando uma enorme comoção na cidade.

chute-na-santa

Naquele engarrafamento e sem ter muita coisa pra fazer, me distraia pensando que o Demo não só estava de olho na situação, como já tinha marcado no caderninho nome, endereço e DNA dos responsáveis. Assim, de repente, apareceu na minha mente uma linha melódica e unns versos que pouco mais tarde se transformaram num samba que concorreu, no carnaval de 1996, na disputa do Bloco carnavalesco Barbas que desfila, desde 1985 pelas ruas de Botafogo.

A rapidez com que as ideias se apresentaram me fizeram lembrar, mais de uma vez, no saudoso João Nogueira e no belo samba O Poder da Criação : “ela é uma luz que chega de repente/ com a rapidez de uma estrela cadente/ e acende a mente e o coração…” .

Reconheço que o verso recebido foi de uma total simplicidade mas, naquela situação, foi suficiente para mitigar meu desencanto naquele sol de meio-dia: “Eu dou, eu dou, eu dou/ só dou dinheiro para chopp meu senhor/ Eu dou, eu dou, eu dou/ eu dou carinho e a porrada é com o pastor”.
No carnaval seguinte, para minha surpresa, o Bloco do Barbas propôs, em referência ao pastor e à santa o enredo Ou Dá ou Desce. Assim que tomei conhecimento do ennredo falei comigo mesmo: demorô! E lá fui eu costurar o trabalho que teve a primeira e preciosa audição da minha querida madrinha Beth Carvalho. Com o samba pronto, aproveitando uma carona, numa dessas madrugadas que voltávamos de alguma roda de samba na cidade, tomei coragem e cantarolei o samba. Depois de ouvir atentamente só falou: Jorgito, tira o último verso. Foi o que fiz. Dada a disputa o samba foi ganhador. Meus concorrentes, até hoje, me sacaneiam pela rima da cabeça, em espanhol. Fazer o que?
Lembrei dessa história neste contexto de eleições municipais, depois de ter lido a excelente matéria de Fernando Molica publicada no O Globo de Domingo e ter assistido, ontem, o debate entre os dois candidatos. Depois de constatar que um deles nada sabe de samba e carnaval fiz minha escolha. Aproveito e recupero a memória da letra que já me colocava, quase no tempo em que Dom, dom, jogava no Andaraí, num dos lados da disputa.

Bloco do Barbas Carnaval 1996
Ou dá o desce
Jorgito Sapia

Ou dá ou desce
Que bispo é esse
Que aparece na televisão
Toda vez que peço a saideira
Ele ameaça com a minha excomunhão.
Eu dou, eu dou, eu dou
Eu dou dinheiro para chopp meu senhor
Eu dou, eu dou, eu dou
Eu dou carinho e a porrada é com o pastor
Hoje vou por a Barbas de molho
Tô no pipa, tô de olho
Nessa esbôrnia universal
Ajoelho e rezo mas não esqueço
Que meu dízimo esta preso
Até o fim do Carnaval
Eu tô no Barbas como o diabo gosta
Nesse templo da folia
Encontrei a Salvação
Vejo o arco—íris, que alegria
Botafogo bateria
Incendia o coração
Ou dá ou desce…