A santa, o pastor, o samba e as eleições.


 

Voltava para casa de carro num sábado quente de novembro de 1995 quando cai, por volta do meio-dia, num imenso engarrafamento na Av. Chile. Fiquei horas parado no trânsito como resultado de um evento que o Bispo Edir Macedo tinha convocado para aquele dia no centro da cidade.

Naquela época, ainda não tinha sido inaugurado o Templo da Glória do Novo Israel, isto é, a sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus, construída no subúrbio de Del Castilho. Talvez por falta de sede, o bispo costumava reunir multidões no espaço público no verão em horas que a canícula reinava. Era o caso. Um calor dos diabos e eu no carro, sem ar condicionado, e nada ambulante de água ou cerveja que ajudasse a mitigar a sede e o mau humor.

Durante o tempo que fiquei no forno via, na minha frente, um carro que ostentava um adesivo singular: “Sou dizimista”.
Só para lembrar, poucos dias antes do evento, no feriado de Nossa Senhora Aparecida, o pastor Sérgio von Helder tinha espancado e chutado a imagem da santa durante o programa “Despertar da fé”, na TV Record, causando uma enorme comoção na cidade.

chute-na-santa

Naquele engarrafamento e sem ter muita coisa pra fazer, me distraia pensando que o Demo não só estava de olho na situação, como já tinha marcado no caderninho nome, endereço e DNA dos responsáveis. Assim, de repente, apareceu na minha mente uma linha melódica e unns versos que pouco mais tarde se transformaram num samba que concorreu, no carnaval de 1996, na disputa do Bloco carnavalesco Barbas que desfila, desde 1985 pelas ruas de Botafogo.

A rapidez com que as ideias se apresentaram me fizeram lembrar, mais de uma vez, no saudoso João Nogueira e no belo samba O Poder da Criação : “ela é uma luz que chega de repente/ com a rapidez de uma estrela cadente/ e acende a mente e o coração…” .

Reconheço que o verso recebido foi de uma total simplicidade mas, naquela situação, foi suficiente para mitigar meu desencanto naquele sol de meio-dia: “Eu dou, eu dou, eu dou/ só dou dinheiro para chopp meu senhor/ Eu dou, eu dou, eu dou/ eu dou carinho e a porrada é com o pastor”.
No carnaval seguinte, para minha surpresa, o Bloco do Barbas propôs, em referência ao pastor e à santa o enredo Ou Dá ou Desce. Assim que tomei conhecimento do ennredo falei comigo mesmo: demorô! E lá fui eu costurar o trabalho que teve a primeira e preciosa audição da minha querida madrinha Beth Carvalho. Com o samba pronto, aproveitando uma carona, numa dessas madrugadas que voltávamos de alguma roda de samba na cidade, tomei coragem e cantarolei o samba. Depois de ouvir atentamente só falou: Jorgito, tira o último verso. Foi o que fiz. Dada a disputa o samba foi ganhador. Meus concorrentes, até hoje, me sacaneiam pela rima da cabeça, em espanhol. Fazer o que?
Lembrei dessa história neste contexto de eleições municipais, depois de ter lido a excelente matéria de Fernando Molica publicada no O Globo de Domingo e ter assistido, ontem, o debate entre os dois candidatos. Depois de constatar que um deles nada sabe de samba e carnaval fiz minha escolha. Aproveito e recupero a memória da letra que já me colocava, quase no tempo em que Dom, dom, jogava no Andaraí, num dos lados da disputa.

Bloco do Barbas Carnaval 1996
Ou dá o desce
Jorgito Sapia

Ou dá ou desce
Que bispo é esse
Que aparece na televisão
Toda vez que peço a saideira
Ele ameaça com a minha excomunhão.
Eu dou, eu dou, eu dou
Eu dou dinheiro para chopp meu senhor
Eu dou, eu dou, eu dou
Eu dou carinho e a porrada é com o pastor
Hoje vou por a Barbas de molho
Tô no pipa, tô de olho
Nessa esbôrnia universal
Ajoelho e rezo mas não esqueço
Que meu dízimo esta preso
Até o fim do Carnaval
Eu tô no Barbas como o diabo gosta
Nesse templo da folia
Encontrei a Salvação
Vejo o arco—íris, que alegria
Botafogo bateria
Incendia o coração
Ou dá ou desce…

Anúncios

Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Esse post foi publicado em Crônicas. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s