Boêmia baixista


Passeando pela WEB deparei com esse texto, da minha ex-aluna Lívia Paupério, sobre os baixos do Rio. Estou tomando a liberdade de reproduzi-lo.

Texto de Junho de 2010.
Trabalho de conclusão da matéria Sociologia com profº. Jorge Sapia,
no meu curso de graduação em Publicidade e Propaganda.
Primeiramente, cabe aqui darmos o verdadeiro significado da palavra “baixo” – para a boêmia carioca, claro. Que fique bem claro, de antemão, que delimitar um baixo é algo quase impossível. Nunca se sabe onde começa e onde termina. Se é que começa ou termina, porque, na verdade, um “baixo” é um estado de espírito!
Considerando sua estrutura ocupacional, um “baixo” é um aglomerado de bares. Mas não só isso, assim, friamente representado. Estamos falando de um ponto de encontro fixo dos amigos, dos apreciadores da cervejinha e do petisco, enquanto paqueram ou simplesmente jogam conversa fora, sem compromisso – a tal da “conversa fiada”.
A expressão já tinha seu novo teor nos anos 70, quando Diagonal, Pizzaria Guanabara, Real Astoria, Jobi, Gatão e Luna fizeram daquele pedacinho do Leblon o convívio de diferentes tribos, de ponto de encontro, de possibilidades na noite. Esta aí, o “Baixo Leblon”, que teve seu grande auge nos anos 80 quando Caetano, em 81, já cantava: “quem sabe eu te encontro de noite no baixo .”
Depois, por conta das obras de Cesar Maia que deixou o Leblon quase intransitável, o “Baixo Leblon” teve uma caída e seus freqüentadores migraram para outro baixo. Uns falam que o “Baixo Leblon” morreu, mas para outros ainda continua vivíssimo, com a Pizzaria Guanabara atendendo até de manhã, Jobi e varanda do Diagonal lotados, e novos bares e restaurantes abrindo constantemente.
Como tomar um chop é hábito carioca sem hora marcada, sem dia e sem lei, sempre haverá um novo baixo surgindo por aí.
Em 1986, Haroldo M. Barbosa, dirigiu e produziu o filme “Baixo Gávea”, que fala sobre os freqüentadores boêmios dali. Hoje, tomado pelo pé sujo “BG BAR”, pelo Braseiro e pelo eterno Hipódromo (onde a maioria conheceu o clássico garçom Lacerda), isto tudo sem contar, claro, também pela torcida do Flamengo quando campeã, ou pelo Bloco de Carnaval “Me beija que sou cineasta”. Não tem hora, dia ou noite, é hora de marcar uma cervejinha no “Baixo Gávea”. O que antes levava a boemia ver o sol raiar, agora, por lei, a Associação dos Moradores não permite que aconteça após 1h da madrugada. Então, os jovens marcam a “pré-night” no Baixo Gávea e depois partem para a festa.
Mas acabou por aí? Não! Enquanto isso, a vizinha do Leblon continua borbulhando: é o “Baixo Ipanema”. Para começar, a região tem sua fama internacional que é eternizada por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, freqüentadores do Bar Veloso – hoje Garota de Ipanema – na antiga Rua Monte negro, atual Vinicius de Moraes. Um chopp ali, outro aqui, idéias acolá, e um doce balanço a caminho do mar da jovem Helô Pinheiro. Desse flerte, nasceu a música “Garota de Ipanema”.
Baixo Ipanema tem em sí, o quadrilátero Vinicius de Moraes, Barão da Torre, Prudente de Moraes e, principalmente, Farme de Amoedo. Antes, era mais visto como um point gay. Hoje, com a entrada há alguns anos do Bar Devassa e Koni Store, o público se diversificou: tem de tudo e para todos. É um baixo em constante metamorfose.
Outro famoso quadrilátero é formado pelas ruas Capitão Salomão, Visconde Silva, Conde de Irajá e Voluntários da Pátria. É o “Baixo Humaitá”, agora e cada vez mais um pólo cheio de atrações trazendo mais movimento e alegria para a região. Os tradicionais da boêmia carioca são os bares Aurora e Plebeu, e os que chegaram há pouco trazendo mais atividade “boêmica” são o Meza Bar e o Devassa, este em frente à Cobal do Humaitá.
Agora o baixo que mais vem chamando atenção é o “Baixo Copa”, ali no entorno da Rua Bolívar e Barão de Ipanema com Domingos Ferreira e Aires Saldanha. Há muitos anos, mas sem chamar atenção e sem muito charme, já existiam ali o Bob’s – se não sabem, o primeiro do Rio, e os tradicionais restaurantes Istambul e a Pizzaria Caravelle. Mas foi por volta de 2008 que o termo “Baixo Copa” começou a entrar na agenda noturna carioca.
O Baixo Copa, a meu ver, significa muito mais que um ponto de encontro da boemia. Ele tem um significado ainda maior para o bairro: o de revitalização. Copacabana há muito tempo é considerada o bairro dos velhos, das farmácias, dos turistas e da prostituição. É claro que ali existiram famosas boates de jovens – como a extinta Bunker – e bares mais moderninhos. Se retrocedermos ainda mais, ali nasceu a bossa nova, no famoso Beco das Garrafas, onde Elis Regina começou sua trajetória de êxitos. Ali também o Flag e o Le Bateau. Mas Copacabana nunca teve o seu “Baixo Copa”, com uma frequência que contasse com jovens como nos dias atuais e não apenas turistas, idosos e prostitutas.
Desde 2008, com a entrada do bar Ponto da Bossa Nova, do Belmonte e do Informal, ir ao Cinema Roxy – que foi reformado – merece até uma prolongada: beber uma cervejinha no Baixo Copa. A cada dia essa área fica mais ativa, iluminada, limpa, segura, cheia de pessoas, caras novas e burburinhos. Para completar o time: Boteco de Garrafa, Espelunca Chic, Devassa, Livraria e até mesmo uma loja de produtos Kosher ou o restaurante Coffe Baghdad para quem quiser comida marroquina, judaica ou simplesmente um Nargilé.
Pode-se dizer, então, que o Baixo Copa trouxe uma cara mais jovem à Copacabana. Mais que isso: colocou-a de volta no Circuito Noturno da cidade, trazendo pessoas que antes só iam a botecos em outros bairros, outros baixos. Hoje, consome-se Copacabana sem precisar ser turista ou rotulado de velho. Ali aconteceu uma verdadeira revitalização, de forma simples, legitimada e privada.
Lívia Paupério

http://marinandoideias.blogspot.com.br/2011/07/boemia-baixista.html

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