A Esquerda da Praça e a Igreja do Diabo.


 

Passei na Praça São Salvador – pulmão libertário do bairro carioca das Laranjeiras –  à procura de um pouco de oxigênio, elemento em falta no atual mercado mundial. O povo da Praça se convocou para dar uma força ao meu queriido parceiro Eduardo Gallotti. Para quem não sabe, o Galo teve seu cavaquinho de estimação, seu ganha pão, furtado por um gatuno, espécie em alta no mercado.

A nata da MPC (música popular carioca) se fez presente e as canjas foram inumeráveis. As cervejas foram escasseando na proporção inversa da alegria que se deixava perceber no rosto  das pessoas.

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Entre um beija aqui e um abraço lá me entretive numa conversa amena com José Roberto Franco Reis, amigo de longa data e autor de um texto sobre Machado de Assis e Foucault que publiquei, recentemente, neste espaço. A conversa nos levou para esse quadro de ladeira abaixo do cenário mundial que, numa rápida cronologia, se desenha em poucos nomes: Macri, Temer, Dória, Crivella e Trump, representantes desse século XIX que insiste em não ser superado.

Um amigo se incorporou na conversa dizendo que o quadro mais adequado para entender a conjuntura atual, foi pintado por Machado em A Igreja do Diabo. Confesso que fiquei com cara de paisagem pois não conhecia o conto.

Claro que acordei de madrugada e fui consultar o Deus Google que, generosamente, disponibilizou em Pdf o texto do bruxo do Cosme Velho.

Li que na Igreja que o Diabo funda, “A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza…”. A ira, a gula e a inveja “…virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento”, faziam parte do cardápio da Igreja. À multidão entusiasmada com a nova instituição “O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs. A fraude e a venalidade, entendida pelo cão como um direito superior a todos os direitos, fundamentam sua igreja. Deixo a fala com o narrador:

“Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? Não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? E o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente”.

Só agora entendi porque o amigo disse que, embora presente nos três poderes, a igreja do diabo, ali, na praça, não se criava.

 

Disponibilizo o PDF: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000195.pdf

A foto é de Ricardo Rabelo Editor do Bafafá: https://www.facebook.com/bafafa.online/?fref=ts

 

 

 

 

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