Sobre Artimanhas, Nuvem Cigana, Charme da Simpatia e bambu.


Assisti ontem, no cine Odeon, o desbundante longa de Claudio Lobato e Paola Vieira As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana. O filme recupera a memória de uma cidade que se deixou capturar pela poética de Bernardo Vilhena, Chacal, Ronaldo Santos, Lobato,Ronaldo Bastos, Lobato, Nanico, Pedro Cascardo, entre muitos outros que oxigenaram a cidade em tempos tão sombrios como o que nos toca viver.

 

nuvem-cigana

O lema tudo junto e misturado estava presente nas festas de  poesia, batida de limão, futebol, alegria, maconha, samba, LSD, sexo e Carnaval que eram as artimanhas, o pano de fundo, o palco e a plateia da nuvem e do seu rebento carnavalesco, O Charme da Simpatia.

A juventude carioca que nos setenta estava antenada com o carnaval transitava por Olinda, no Recife, e por Búzios e Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Em Búzios nasceu o Bloco Carnavalesco Lítero Musical Euterpe Charme da Simpatia. De alguma maneira, a lógica performática que hoje se faz presente nas novas modalidades de participação carnavalesca estava presente no Charme da Simpatia, bloco não territorializado, que desfilou, em 1975, em Ipanema, Botafogo e Vista Alegre, num tempo em que colocar um bloco na rua era quase uma revolução – conforme conta o poeta e compositor Chachal, em Uma história à margem. O bloco foi tomando forma nas peladas do Clube Caxinguelê, que era:

uma espécie de Embaixada da Suíça. Ali a gente podia se reunir sem levantar           suspeita de formação de quadrilha. Afinal, era uma simples pelada. E muitos            dos livros, almanaques, sambas, calendários, shows e artimanhas da Nuvem             Cigana e do bloco carnavalesco Charme da Simpatia foram urdidos ali, antes,          durante e depois daqueles embates titânicos (…) Eles vinham do movimento            estudantil e das batucadas em Búzios, onde já ensaiavam o Bloco Carnavalesco        Lítero Musical Euterpe Charme da Simpatia. Eles queriam ter algum tipo de              ação que não fosse a luta armada ou mesmo a tradicional política dos grupos de       esquerda. Juntou-se a febre com a vontade de ferver.

 

O Charme permitiu, conforme conta Lobato, “sentir o enorme prazer de estar junto, de poder falar, de ocupar a rua”. Os integrantes do Charme e do movimento de poesia marginal Nuvem Cigana, participaram da criação e da ala dos compositores do Bloco Suvaco de Cristo, criado em 1986, e do Bloco das Carmelitas, fundado em 1990. Desfilaram também no emblemático Cacique de Ramos, como relata Chacal[1]:

Participei de uma saída no Cacique. Meio-dia. Avenida Antônio Carlos. Um calor colossal. As mulheres à frente do bloco. A bateria no meio e os homens atrás. No meio do desfile, em frente às autoridades, os caciques em círculo sentaram na Avenida. E um lenço com lança-perfume rolou na roda. Levantaram zuados e seguiram o desfile. Na saída do percurso, como de hábito, a polícia caiu de pau. Os índios recuaram, tiraram as hastes das alegorias de mão e arremessaram na polícia. Uma nuvem de lanças cobriu a Avenida Antônio Carlos. Como dizia um dos célebres dísticos da Nuvem Cigana, esse de Ronaldo Bastos: “enquanto houver bambu, tem flecha”.

Pois é rapaziada, nestes tempos bicudos a onda é plantar bambu.

 

 

[1]http://www.hotsitespetrobras.com.br/cultura/upload/project_reading/0_Trecho_Online_Uma_historia_a_margem.pdf

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Sobre jorgesapia

Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense , Mestre em Sociologia pela Sociedade Brasileira de Instrução - SBI/IUPERJ (2004). Professor temporário da UFRRJ e da Universidade Estácio de Sá e do IBMR. Atuando principalmente nos seguintes temas: direitos humanos, violência, cidadania, carnavalização.
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