Outras descobertas: Cabral rima com polícia federal.*


 

No Carnaval de 1934, no Rio de Janeiro, caiu no gosto popular uma marchinha cujo título é História do Brasil. Seu compositor, Lamartine Babo, foi um dos responsáveis pela invenção da tradição das marchinhas que animam, ainda hoje, os festejos carnavalescos. A marchinha que embalou os foliões no carnaval de 1934 começa assim:

                         Quem foi que inventou o Brasil?

                         Foi seu Cabral. Foi seu Cabral

                        No dia vinte e um de abril

                         Dois meses depois do carnaval

Lamartine ressignifica a “A carta do achamento do Brasil” escrita por Pero Vaz de Caminha em Abril de 1500. Reafirma, em seus versos, um dos mitos fundadores da cultura brasileira: a invenção do Brasil por Portugal e registra a centralidade da festa carnavalesca transformada em símbolo da identidade nacional, na década em que a marchinha foi criada. Desde então, como festa instituída pelo Estado Nacional, o Carnaval estará sujeito tanto a incentivos, quanto a controles do poder público        

Passados oitenta anos do lançamento da marchinha do Lamartine, e dois meses antes do carnaval de 2013, foi descoberto na mesma cidade, um outro seu Cabral. Desta feita, trata-se do Governador do Estado do Rio de Janeiro, eleito para o seu segundo mandato, em 2010 e gozando, até a sua redescoberta, de boa saúde política. Embora existam registros de compositores do carnaval de rua que produziram versos e rimas críticos em sua intenção e direção.  Foi nessa época que o seu Cabral – Governador – amparado em decisão judicial, mandou desocupar as instalações do antigo Museu do Índio, conhecido hoje como Aldeia Maracanã. O prédio construído em 1862 é hoje um casarão deteriorado e ocupado, desde 2006, por vários coletivos e diversas etnias que defendiam a construção, no local, de um grande centro cultural. O Governo do estado, entretanto, orientou suas políticas públicas na cidade pelas determinações da FIFA, e a ocupação da Aldeia Maracanã interrompia o calendário de obras da Copa do Mundo.  O local seria destinado a outro projeto: a construção de um estacionamento próximo ao novo estádio. O governador confirma em entrevista que “O Museu do Índio, perto do Maracanã, será demolido. Vai virar uma área de mobilidade e de circulação de pessoas. É uma exigência da FIFA e do Comitê Organizador local. Viva a democracia, mas o prédio não tem qualquer valor histórico, não é tombado por ninguém. Vamos derrubar[i].

            O anuncio da demolição foi o estopim para o primeiro conflito em um ano fértil de confrontos nas ruas da cidade entre o poder público e diversos segmentos da sociedade civil que conquistaram partir de então espaço público e publicidade. Para surpresa geral os jovens voltaram às ruas fora do período carnavalesco com alegria, disposição e criatividade. E, como palavra de ordem, ressignificaram a propaganda oficial exigindo padrão Fifa na saúde, na educação, na segurança, na mobilidade urbana.  Enfim, como resumia um dos milhares de cartazes desfraldados nessa tsunami cívica: “É muito motivo! Não cabe aqui!”

De lá pra cá muita coisa mudou. Outros aventureiros des-cobriram o Brasil profundo mas não amainaram os ventos alisíos que vem das ruas.

 

Trecho do artigo de SAPIA, Jorge e ESTEVAO, Andrea. “Narradores e narrativas do carnaval de rua carioca”. in Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, V.11 N.2. Novembro.

[i] CF. http://www.jb.com.br/rio/noticias/2012/10/18/fifa-desmente-cabral-e-afirma-que-nao-pediu-demolicao-do-museu-do-indio/ consultado em 28/11/2013. 15:54 hs.

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Sobre jorgesapia

Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense , Mestre em Sociologia pela Sociedade Brasileira de Instrução - SBI/IUPERJ (2004). Professor temporário da UFRRJ e da Universidade Estácio de Sá e do IBMR. Atuando principalmente nos seguintes temas: direitos humanos, violência, cidadania, carnavalização.
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