Samba do Peixe, tubarões e outros bichos.


 

Sai de casa, domingo à tarde, para visitar o Samba do Peixe, projeto musical de Ernesto Pires, Eduardo Gallotti, Tiago Prata, Guilherme Pecly e outros bambas. De quebra, o projeto é apresentado graficamente por Aliedo Kammar.  O samba acontece uma vez por mês na rua do Ouvidor em frente à Toca do Baiacú e da livraria Folha Seca, especializada em literatura do Rio de Janeiro, samba e futebol. A Folha Seca é e dirigida por Rodrigo Ferrari, um dos últimos livreiros da cidade. A profissão está em extinção assim como o modelo de livraria de rua que acabou na década de 1990. A Folha Seca é resistência.

Fui pro samba de metrô, junto – descobri lá dentro – com a torcida do Flamengo que fez a gentileza de alegrar o meu percurso. Desci na estação Carioca e percorri parte da cidade reformada. Cruzei com alguns alunos que passaram boa parte da tarde fazendo a prova do ENADE (essa é outra história dos novos modelos de gestão) e ao chegar no Avenida 1º de Março me deparei com uma ALERJ gradeada e fortemente custodiada. Duas rápidas imagens cruzaram na minha mente. Primeira, a constatação que  as grades na casa do povo são para que o povo não entre. Segunda, uma reveladora manifestação do inconsciente dos representantes que parecem dizer “sabemos que há muitos entre nós que merecemos estar em outro lugar”. Sei não, o cercamento tem um quê da Catedral, prisão construída por Pablo Escobar.

Cheguei no samba pouco antes do primeiro intervalo. No intervalo, apareceram tubarões no Samba do Peixe. Explico. Quatro senhores de cabelos grisalhos que tinham se afastado da roda para conversar e dar um dois tomaram uma dura e, sob protestos, foram conduzidos à delegacia pela nova modalidade de controle implantado na cidade.  De repente apareceram na transversal 18 indivíduos armados e uniformados, com colete pagos pela Fecomércio, a pé, de bike e de moto que se excederam na prisão. Confesso que ao tomar conhecimento do projeto fui invadido por uma inquietante sensação de insegurança.

Ainda bem que a galera da roda retornou cantando, com a sagacidade peculiar da cultura popular, o clássico do mestre Bezerra da Silva Malandragem dá um tempo (link abaixo). Confesso que aproveite a deixa e, com a devida anuência da rapaziada, sentei na roda.20161120_20174520161120_201641

 

 

https://youtu.be/1sCKEAmL6xI

http://www.livrariafolhaseca.com.br

http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/observatorio-da-comercio/2016-05-31/mais-de-500-agentes-irao-reforcar-a-seguranca-na-area-central-do-rio.html

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Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
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2 respostas para Samba do Peixe, tubarões e outros bichos.

  1. jorgesapia disse:

    Isso Luiz, Os espaços são sempre preenchidos. Por uns ou por outros. E por falar nisso, como não acho o filme sugerido. Teremos que preencher o espaço com outros filmes.

    Pode ser o Corte de Costa Gavras dublado ou O som ao Redor.

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  2. Luiz Fernando disse:

    Não existe vácuo de poder!

    Curtido por 1 pessoa

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