Passeatas, botecos e abduções.


 

Domingo, dia da passeata da CBF me refugiei com o amigo Carlinhos no Panamá, um pé sujo, muito limpo, localizado no baixo Copacabana, isto é, em frente à tradicional pizzaria Caravelle. Como sabem os nativos, a pizzaria fica em frente do primeiro Bob’s de Copacabana, inaugurado na década de 1950. O Bob´s fica quase ao lado do Belmonte, boteco de grife implantado na cidade na passagem do milênio.

Pois é, pedimos uma Serra Malte, uma das coisas que boas de São Paulo e olhando a frequência fantasiada Carlinhos acompanhou a pedida e cumprimentou com “saudações carnavalescas”. O garçom, meu conhecido, não estranhou a saudação feita as vésperas do Natal. O vizinho do lado, sim. Foi logo dizendo, – não me fale de Carnaval. Olha só, e mostrou o seu braço, enquanto dizia: fico tudo arrepiado. Quer saber por quê?

Careca mané, pensei comigo, como responder uma pergunta dessas no boteco sem ser indelicado? Criou-se um impasse que foi resolvido, imediatamente, pelo nosso interlocutor na pedida de um goró, assim, como quem toma fôlego para emendar uma história na outra.

Feito um breve intervalo, retomou a palavra, baixou o tom de voz e começou a contar o que transcrevo a seguir. Espero ser fiel ao relato, pois confesso, que quando a história ganhou o tom intimista pedimos a segunda cerveja de várias outras que nos ajudariam a seguir os detalhes da história que começamos a ouvir com renovado interesse.

Deixo a palavra a seu Ary (foi assim que se apresentou ou foi assim que registramos).

Pois é, começou, desde muito jovem tenho passado por uma experiência particular. Acontece anualmente, invariavelmente, embora nem sempre nas mesmas datas, como convém, por exemplo, as comemorações de aniversário, Natal ou festas cívicas. Feita a ressalva, continuou, – todos os anos, entre algum dia do mês de fevereiro e outro qualquer do mês de março, sou abduzido por uma tribo do bem que habita a galáxia da folia. Baixou ainda um pouco mais a voz, deu uma geral no movimento e completou convicto: tribo muito diferente desta que está passeando na Av. Atlântica.  Tudo parece indicar, prosseguiu, que durante quatro dias recebemos a visita de uma forma de vida que tem a capacidade de abduzir pessoas e inventar felicidade. – Ao ouvir essa conclusão nos entreolhamos, pedimos mais uma e apuramos os ouvidos.ets-no-carioca

 

Além, é claro, – continuo o Ary –  a tribo tem a capacidade de transformar as regras do cotidiano, inverter as tradicionais relações sociais de aqueles que entram em contato com os habitantes da galáxia mencionada habitada pelos foliões.

Afirmou convicto que faz tempo procura informações sobre essa particular forma de vida. Confidenciou que iniciou contatos com diversos centros de ufologia. Fez, inclusive, visita prolongada a Varginha, mas informou que apesar dos esforços, não conseguiu qualquer contato ou informação que pudesse esclarecer o fenômeno vivido por ele, e pelo que a cada ano está mais perceptível, por uma quantidade cada vez maior de pessoas abduzidas.

Confesso, disse, que durante muito tempo achei tratar-se de um acontecimento da ordem do natural, assim como é natural a sucessão do dia e da noite, as distintas faces da lua, o nascente e o poente, a maré baixa e a maré alta, pedir uma saideira no boteco – por sinal, seu Zé, mais uma aqui pra nós, emendou – ou  torcer, para que o Sr. Sarney ou Sr. Calheiros, que há pouco nos presidiu, larguem definitivamente esse osso e ajustem suas contas com a ética e a justiça divina, pois com humana, acho que não vai dar. Portanto, refiro-me a esses e outros fenômenos semelhantes.

-Deus é grande, falou Carlinhos, Canalheiros é a bola da vez.

Mas, para nossa surpresa, continuou nosso interlocutor, venho percebendo que a tal abdução que costumava demorar quatro dias se prolonga a cada ano um pouco mais.

Totalmente envolvido pelo relato do seu Ary comentei: – Me pareceu ter ouvido que lá, para as décadas de 1980, um outro ET de nome Antônio Carlos, teria distribuído fartas promessas, na base do toma lá dá cá, para que os foliões se demorassem um pouco mais nas suas terras, visando concentrar poder e expandi-lo para outros domínios do reino. A julgar pelos produtos que foram criados, comercializados e exportados para outras comarcas parece que foi bem-sucedido na empreitada. Lugar de destaque tem os trios, que assim, como o Irakitan, conseguiram seduzir outros nativos, com outros gostos. Muitos caíram na sedução da dança da galinha, da boquinha da garrafa e outros tantos produtos para lá de interessantes que contagiaram corações, mentes e outras partes anatômicas. Ao ouvir o último comentário Carlinhos agregou: – partes anatômicas  consideradas patrimônio estético cultural destas terras, nas quais, como sabemos desde Pêro Vaz, em se plantando, todos dão.

Seu Ary pensou um momento, pediu uma saideira e com um ar de cumplicidade comentou: pelo visto vocês já foram abduzidos e, enquanto brindava a nossa saúde, começou a cantarolar uns versos que nos pareceu ter ouvido em algum outro lugar: “Me vesti de Marciano, tracei minha odisseia e sai de bar em bar…”

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Sobre jorgesapia

Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense , Mestre em Sociologia pela Sociedade Brasileira de Instrução - SBI/IUPERJ (2004). Professor temporário da UFRRJ e da Universidade Estácio de Sá e do IBMR. Atuando principalmente nos seguintes temas: direitos humanos, violência, cidadania, carnavalização.
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