Tomei umas bombas pela proa, sinal que a luta vai ficar muito boa.


Hoje tomei umas bombas de gás pela proa, lembrei de um texto e não tenho como deixar de pensar que a coisa tá ficando boa.

 

Hoje é possível imaginar a existência de um ponto de interseção entre os foliões e as muitas multidões que ocupam as ruas do mundo pós-fordista reivindicando, como postula Milton Santos, uma outra globalização. No Brasil e, particularmente, no Rio de Janeiro, os modos de participação nos movimentos que deram origem às “Jornadas de Junho”[i] sugerem um processo de carnavalização da mobilização política.

As manifestações que se disseminaram na cidade e no país, a partir de Junho de 2013, podem ser lidas, também, como experiência carnavalesca “que subverte os poderes opressores e se desdobra em obras polifônicas”,[ii] como pode ser visto no bloco Ocupa Carnaval criado por diversos coletivos de coletivos de cultura, mídia ativistas, movimentos sociais e militantes independentes assinantes da seguinte carta de princípios:

O carnaval é o mais belo grito do povo! Ocupamos as ruas com estandartes, confetes e serpentinas mostrando que o Rio é nosso: suas colombinas e pierrôs estão vivos e pulsam. Abaixo as catracas que transformam a cidade em um grande negócio, onde o lucro prevalece sobre a vida, onde o dinheiro é mais livre que as pessoas. Enquanto capitalizarem a realidade, nós socializaremos o sonho. Viva a energia da rebeldia. Viva a criatividade das fantasias. Viva o Zé Pereira e o Saci Pererê. A cidade não está à venda e               nossos direitos não são mercadoria. Foliões, uni-vos! Ocupa Eles. Ocupa Eu. Ocupa Tu. Ocupa Geral. Ocupa Carnaval.[iii]

Neste sentido se vinculam à perspectiva aberta por Bakhtin, para quem as formas e símbolos da “linguagem carnavalesca estão impregnados do lirismo da alternância e da renovação, da consciência da alegre relatividade das verdades e autoridades no poder”[iv] ou ainda, com Oswald de Andrade que propõe a redescoberta do Brasil “pela invenção e surpresa” dois elementos presentes em toda manifestação carnavalesca que é também manifestação de vida e esperança.

 

 

[i]  Sobre as jornadas de Junho ver Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Ermínia Maricato [et al.] São Paulo: Boitempo, Carta Maior, 2013

[ii] SZANIECKI, Barbara. http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/521910-monstro-e-multidao-a-estetica-das-manifestacoes-entrevista-especial-com-barbara-szaniecki

[iii] https://www.facebook.com/events/269581106531116/?fref=ts

[iv] BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo: HUCITEC/UnB, 1987, p. 10.

 

 

 

 

 

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Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
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