A Blattaria da vizinha


A Blattaria da vizinha

Jorgito Sapia

Não sei a propósito de que, lembrei de uma ida ao Bip-Bip, numa noite quente de um verão que tinha entre as top 10 do rádio a música “A barata da Vizinha”. Saibam perdoar a lembrança da música que se celebrizou pelo chulo e inadequado jogo de imagens entre barata e vagina. Talvez tenha lembrado da história pela associação que fiz entre a música e os acontecimentos que diuturnamente revelam as baixarias dos protagonistas do golpe.

Nessa noite tinha saído para caminhar despreocupadamente pela orla de Copacabana quando reparei que me encontrava próximo à rua Almirante Gonçalves. Nessa rua, precisamente no número 50, está instalado desde o 13 de dezembro de 1968 o bar Bip-Bip, patrimônio cultural da cidade de Rio de Janeiro. Vejam bem, a lembrança não é arbitrária, trata-se da data em que foi sancionado o Ato Institucional nº 5 o famigerado AI-5, mas conhecido como o golpe dentro do golpe e eu, cá estou, a lembrar do golpe em tempos golpe.

Bip Bip

Percebida a proximidade da instituição que conheci ainda na minha primeira semana de exílio em 1976 e que frequento, hoje sazonalmente, desde 1983, resolvi passar para saber as novidades e beber umas cervejas. Alfredo, o dono do estabelecimento, estava sentado na calçada e apoiava a perna direita numa outra cadeira para aliviar as dores, dizia, do joelho. Dores que não o impediam que conversasse tranquilamente com dois assíduos frequentadores do bar.   Alfredo

Depois das saudações de praxe, peguei uma cerveja, peguei uma cadeira, anotei meu consumo numa folha amarfanhada e me instalei na calçada rente ao meio-fio, de costas para a rua e de frente para o bar. A conversa seguia ao sabor da monotonia ditada pela elevada temperatura ambiente. Vez o outra, alguém contava um caso mais curioso e as gargalhadas que se seguiam serviam para mostrar, na contramão das afirmações de Platão, que há vida inteligente nos trópicos.

Não teve jeito de evitar a simultaneidade do olhar na direção de um casal que se aproximava decididamente do boteco. Em verdade os olhares se fixaram na divina dama que trajava um conjuntinho creme de crochê que ressaltava as curvas de um corpo bem torneado. Tivesse vindo nua não teria chamado tanto a atenção.

Alfredo, que estava fazendo nada, continuou sem fazer nada. Apenas respondeu gentilmente às perguntas do acompanhante da dama do conjuntinho de crochê. Seguiu-se então aquele diálogo velho conhecido dos frequentadores:

  • Boa noite, tem cerveja?

  • Boa noite, tenho.

  • Brahma ou Skol?

  • As duas.

  • Poderíamos sentar numa mesa?

-Claro, respondeu Alfredo, e o diálogo foi invadido por um silêncio que se prolongou por breves e tensos segundos, até o cliente retomar a iniciativa perguntando pela mesa.

Alfredo, sem mudar a posição original, sinalizou para o bar e explicou que entre o balcão e geladeira havia mesas e cadeiras de armar, que ficasse à vontade, que escolhesse as mais adequadas e, abrindo os braços num gesto amplo, sugeriu que se instalasse onde desejasse.

bip

O rapaz, sem entender muito bem a lógica do estabelecimento, mas sem perder a postura, como diria o Che Guevara, pediu duas Brahmas. Alfredo voltou a explicar que atrás do balcão, etc. e tal…havia uma geladeira e que ele podia servir-se à vontade.

A madame observa o desenrolar do diálogo sem entender muita coisa e, como estava em pé diante do Alfredo, tudo o que tinha atrás estava, por assim dizer, diante de mim. Confesso que em situações como essas, meu ateísmo, balança. Há quem diga que Deus escreve certo por linhas tortas. Deve ser verdade. Confesso que teria rezado fervorosamente para congelar o quadro, porém, como a eternidade não é privilegio humano o quadro mudou, quando o casal entendeu qual era a da parada, e se dirigiu ao bar para tomar as providências sugeridas. O homem à frente, a mulher atrás, e nossos olhos de olho na exuberância do quadro, menos Alfredo que observava a natureza.

Foi exatamente no momento em que a moça alçava o pé direito para ultrapassar a soleira do Bip-Bip, que Alfredo soltou um grito desconcertante:

  • Não deixem a barata entrar!

Não deu outra. Assim, como por encanto, tudo terminou. O casal ofendidíssimo tomou outro rumo e foi embora. Sem outra coisa para distrair minha visão vi, nitidamente, uma enorme barata cascuda atravessando a soleira como que a anunciar a proximidade de uma tempestade.

Alfredo, que não tinha, e ainda não tem ouvidos para escutar música “barata”, ficou sem entender a atitude do casal enquanto observava a barata entrar irremediavelmente no bar.

Sem mover-se do lugar no qual se encontrava comentou:

  • Caralho, as baratas são surdas!Alfredo

 

http://www.timeout.com.br/rio-de-janeiro/bares/venues/820/bip-bip

 

 

Anúncios

Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Esse post foi publicado em Crônicas. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s