Catraca mané!


Catraca mané! O gestor público acordou sobressaltado com essa ideia na cabeça. Qualquer criatura de bom senso teria virado de lado e continuado a dormir, esquecendo o que jamais poderia ser considerado como ideia e muito menos com uma ideia que tivesse qualquer relação com o carnaval. Mas, como parece haver uma profunda incompatibilidade entre gestores da coisa pública e o bom senso, o gestor não só acordou, como levou a ideia a uma reunião de avaliação do carnaval e, lá apresentada, recebeu o aplauso dos pares que mais pareciam impares.

O que aplaudiram? A solução mágica de ordenar o carnaval de rua pela instalação de catracas, isto é, aquela tecnologia aplicada para controlar o acesso de pessoas em ônibus, metros, trens, estádios, etc.

Algum tempo atrás, um filosofo russo, de nome Mikhail Bakhtin (1895-1975) escreveu um longo texto sobre a Cultura popular na Idade Média e do Renascimento no qual destaca a importância do Carnaval entendido como ritual de libertação temporária, constitutivo do reino da utopia, da igualdade e da liberdade que encontra na festa sua plena realização.

De lá pra cá, o Carnaval reafirma, por um lado, essa vocação festiva, transgressora, possível na medida em que se realiza na rua, no espaço público que é, por excelência, o lugar da liberdade; por outro lado, o carnaval tem mostrado uma saudável disposição para fazer circular novas representações sobre a cidade e seus privilegiados cidadãos, que insistem em percorre-la ao sabor do desejo do agir conjunto, coletivo, evidenciado a pluralidade e diversidade. São esses mecanismos da ação coletiva que permitem o exercício do direito de associação orientado para um mundo comum e compartido. Diversos são os protagonismos e diversas as demandas.

fotos mangueira

As festas, são formas lúdicas de sociação nas quais a troca, a palavra e a comunicação – fundamentos centrais da vida coletiva – potencializam a mobilização dos afetos e desejos de uma cidade outra, não cerceada por catracas, correntes nem cancelas. Esses dispositivos de controle se orientam por uma desconfiança atávica da população historicamente excluída. Desconfiança que resulta de uma sociedade e de uma cidade que nunca reconheceu a cidadania nem a democracia como um valor universal.

Catraca, mané, é racismo, machismo, coronelismo, golpismo e misoginia!

Evoé!

https://oglobo.globo.com/rio/prefeitura-estuda-instalar-catraca-em-blocos-do-carnaval-do-rio-22416907

Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
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