Reminiscências: O barbeiro que não é de Sevilha, mas que adora uma pândega.


Sai do Rio de Janeiro rumo ao sul da Espanha com o firme propósito de fazer minha barba com um Barbeiro de Sevilha. Enquanto batia pernas pelas ruas da cidade lembro de ter cantarolado algumas estrofes da música de Rossini:

Figaro qua, Figaro la, Figaro qua, Figaro la

Figaro Su, Figaro giu, Figaro su, Figaro giu

Pronto prontissimo son come il fumine:

Sono il factotum della citta…

Não foi suficiente para conseguir meu objetivo. Fiz, para registro, uma foto com meu amigo Hugo Bomfim, caso precise um dia contar uma história a respeito.

Alguns dias após essa foto, desembarquei em Ovar, distrito e Aveiro, Portugal. Não sei se é correto falar desembarquei. Na verdade, saltei do trem que tomei na estação de Santa Apolónia, em Lisboa.

Uma vez no destino optei por fazer um reconhecimento do terreno indo a pé até o hotel que tinha reservado. No primeiro bar que encontrei pedi informações aos nativos que aproveitavam a hora do almoço para bebericar alguma coisa e colocar o papo em dia. Fui informado que a distância até o hotel era pequena.

Na primeira esquina, à direita de quem vai, vi uma pequena barbearia. Pequena mesmo, não maior do que 8 metros quadrados. Duas cadeiras, um espelho, várias fotos e o mestre Álvaro no comando das navalhas. Não pensei duas vezes, entrei, cumprimentei, sentei e fui observando, com o rabo do olho, o ambiente enquanto o barbeiro concluía seu trabalho com um freguês confortavelmente sentado numa das duas cadeiras. Quando chegou meu turno e depois dos comprimentos de praxe o procedimento foi realizado com presteza e no maior silêncio. Confesso não ficar muito à vontade quando alguém passeia as lâminas afiadas pelo meu pescoço. Costumo observar um silêncio ritual que, até agora, tem dado bons resultados. Concluída a operação rejuvenescimento fiz o pagamento e, já em segurança, aproveite que não tinha mais ninguém no local para puxar uma conversa com seu Alvaro, o barbeiro de Ovar.

 Meu interlocutor revelou-se um contador de histórias de colocar Sherazade no chinelo. Ao saber que era argentino, me indicou uma fotografia do time local, pelo qual passou um compatriota em 1951 e vestiu a camisa 10. O bom desempenho do artilheiro e questões diplomáticas de boa vizinhança entre Juan DomingoPerón e António de Oliveira Salazar, fizeram com que Evita Perón enviasse 200 bolas de futebol para a cidade de Ovar. A conversa ia assim se enveredando para arte da bola até chamar minha atenção uma fotografia que mostrava seu Álvaro com uma coroa na cabeça.  Quando comentei o encontro com minha companheira de viagem, Andréa Estevão, esta incorporou, rapidamente o bordão da nossa amiga em comum Marisa Toste e falou: Pronto, formou!

Então, estava eu em Ovar para falar num Congresso de cinema sobre o carnavalesco nas chanchadas da década de 1950 quando, por essas coincidências que a vida tem, me encontrava olho no olho, no maior conversê, com quem tinha sido escolhido Rei do Carnaval na cidade em 2010. Don Álvaro, com um sorriso que o acompanha até nos piores pesadelos, contou-me deliciosas estórias sobre a história do carnaval na cidade. Falou saudoso sobre as piadas, isto é, cortejo de foliões individuais que colocam o dedo na ferida na Terça Feira Gorda. E olhem que colocar o dedo na ferida em tempos de Salazar é qualquer coisa digna de nota. Mostrou-me diversas fotos e explicava o sentido da fantasia de cada uma delas. Foi discorrendo sobre a irreverência, a crítica política, a crítica social e de costumes com um faro preciso.

Li, com gosto, o seu discurso de posse. Pega aqui e ali nas mutretas municipais:  

Ordenei demolir o mamarracho do Parque Sra. Da Graça. Ordenei levantar todas as pedras da Praça da República porque este recente melhoramento foi inútil”.

Preocupado com a mobilidade de um município com grande número de idosos ordenou

“a reparação de todos os passeios da cidade para evitar quedas e trambolhões”.

Registrou as nefastas consequências da Troika e as quebras sucessivas:

“Sua majestade A Rabor, morreu, sua Majestade a Philips morreu, as fábricas dos Bonifácios morreram, a Atlântica e a Sociedade Mercantil também morreram (…) Os comerciantes estão todos com a corda na garganta, os proprietários das boutiques adormecem ao balcão. As únicas que vão vendendo são as boutiques Chinesal e Ciganal”.

Essencialista, faz críticas pontuais ao processo de espetacularização do Carnaval, às escolas de samba e a lógica do mercado e, depois de passar em revista as mazelas comuns que nos acometem, saúde, desemprego e outros quetais, ordena que

quando desfilar no corso de carnaval no Domingo Gordo e Terça-Feira na Av. Sá Carneiro e Rua de Timor as senhoras ponham as Coxas nas janelas. Termino dando Vivas ao Carnaval de Ovar. Viva quem tem barriga e quem não tem que viva também”.

E pela sua delicadeza e alegria Viva Don Álvaro Silva, o meu barbeiro de Ovar.

Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
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3 respostas para Reminiscências: O barbeiro que não é de Sevilha, mas que adora uma pândega.

  1. jorgesapia disse:

    Obrigado Maria.

    Curtido por 1 pessoa

  2. kethuprofumo disse:

    Stupenda storia! Voi entrambi siete bravissimi!

    Curtir

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