Uma noite no Bip Bip, o menor maior boteco do Rio de Janeiro.


Boa tarde amigos, amanhã o Comendador Alfredo Jacinto Mello faria 76 anos. Os amigos vão se reunir para o lançamento de um livro, de uma camiseta regado a cerveja e muito samba conforme divulguei no post anterior. Neste deixo o link de uma matéria que saiu esta semana. Aproveito para republicar uma crônica que consta do primeiro livro do Bip Bip. Abraços a todos.

Meus Princípios

Domingo no Bip-Bip, consegui, a muito custo, lugar em pé, na cabeceira da mesa dos músicos. Trata-se de um pequeno espaço, espremido entre o balcão e a geladeira, exatamente na passagem para o único banheiro do boteco.

Foto de Leninha Raposo


O lugar tem suas vantagens: domínio quase completo do movimento do bar e uma visão parcial da rua que permite imaginar aquilo que é impossível ver. Tem também suas desvantagens: sempre que a geladeira é aberta é necessário inclinar levemente o corpo para frente e, quando as bebidas saem do balcão, a inclinação adequada é para trás. Requer também certa atenção, pois se corre o risco de levar uma garrafada na cara de alguém mais distraído. Esses movimentos permitem saudável exercício para o desenvolvimento da visão periférica. Além, é claro, de fortalecer a musculatura do pescoço, pois é necessário levar o rosto à direita ou esquerda, evitando assim desagradáveis encontros com braços esticados no afã de agarrar a garrafas de cerveja que passam de mão em mão até o destinatário final.
Daquele lugar é possível observar também leves sorrisos aparecendo nas comissuras dos lábios da maioria dos clientes que se espremem nesse pequeno espaço. Parece ser o gesto típico de quem quer se desculpar por ter causado, involuntariamente, qualquer inconveniente. Entretanto, há quem escolha esse lugar porque, segundo contam, ajuda a aumentar a libido. Resulta agradável, dizem, o suave contanto corporal de quem entra e sai do banheiro.

A noite transcorria tranquila, tanto que Alfredinho – o dono do lugar-, aproveitou uma pausa musical para dar as informações de costume: – fulano faz show ali; sicrano acolá; beltrano…etc., e, claro, para não perder o costume, mandou solenemente à merda todo aquele que em vez de ouvir, falava e em vez de ficar calado, cantava…desafinando.

Os poucos que não o conhecem se surpreenderam, os que o conhecem se divertiram, incentivaram, e Alfredo se inflamou, fez discurso, apelou para a solidariedade e arrematou: Vocês querem me foder! Dá pra ver: tudo normal, não fosse uma moça distinta que não achou graça nenhuma no discurso do anfitrião.
Começou aí, amigos, uma discussão que se prolongou além da conta. A moça sentiu-se particularmente agredida. Falou de conspiração. Disse que quem deveria calar-se era Alfredo e coisa e tal. A música, que ainda se sustentava, definhou até acabar, e a discussão prolongou-se além do desejado. Gracinha Chernobil como é popularmente conhecida, gritava, gesticulava, ameaçava e, conseguiu fantástica proeza, calou todo mundo. De fato, o pessoal do bar e da rua fez silêncio e apurou os ouvidos para prestar atenção às alternativas do conflito.


Aqui se dá um fenômeno peculiar. Quando o número de pessoas querendo observar é maior que o espaço de observação, aqueles que se encontram em posições privilegiadas costumam dar uma rápida olhada e movidos por um sentimento de solidariedade informam lateralmente àqueles que se encontram atrás. Estes, por sua vez, executam movimento similar, dando lugar assim a uma ramificação de informações que fazem brotar inúmeras versões para o mesmo fato. Por isso, no dia seguinte foi possível ouvir que tinha acontecido o diabo, tiroteio, facada e o escambau!

Nada disso aconteceu. Dou fé! Pois eu me encontrava em situação privilegiada: exatamente em meio aos dois contendores. Não pensem que arbitrava a questão. Confesso até que incentivei a discussão. Mas acredito que não vale a pena entrar em detalhes, a não ser, é claro, para contar que quando a Chernobyl colocou os pés fora do bar recomeçou a música com os acordes de um samba do Noel que rapidamente foi contagiando os presentes. O refrão inicial é uma pérola feita em tempos de pre-feminismo: “êta mulher indigesta, indigesta… merece um tijolo na testa”. Aí não prestou! Foi o suficiente para que a divina dama desse queixa de agressão na 12 Delegacia de Polícia.


Quando os homi chegaram, levaram agredida e agressor: Alfredinho.
A primeira reação foi de surpresa. A segunda de alegria. A terceira de solidariedade. Explico. Surpresa pela polícia ter dado bola para uma moça que, se possível fosse defini-la em duas palavras, ninguém duvidaria: uma mala. Alegria porque, com Alfredinho em cana, a música não acabaria às 22:00 hs. Se prolongaria como uma vigília etílico-cívica madrugada adentro. Solidariedade porque, rapidamente, correu um chapéu em intenção do Alfredo, para comprar cigarros e essas coisas.

Lá pra meia-noite, quando o samba estava em seu apogeu, desceu de um táxi o agressor: Silêncio! Silêncio! Gritava e pedia, para surpresa geral, uma caneta, e rápido! O inusitado do pedido exigia uma explicação. Alfredo não se fez de rogado: É para anotar o número do processo e jogar amanhã no bicho! Ah, sim, a Chernobyl e seu noivo ficaram detidos, por chatos!

No domingo seguinte pendurei, no quadro de avisos do Bip Bip, um cartão postal recebido de um amigo e que tinha Alfredinho como destinatário. Por diversos motivos, ainda não tinha feito a entrega. O cartão era, na realidade, uma foto de Groucho Marx fumando displicentemente um charuto.

Claro que um gaiato resolveu acrescentar: Flagrante de Alfredo Mello apresentando sua defesa ante o Dr. Delegado em processo movido por danos morais.
Em tempo, no cartão, Groucho dizia o seguinte: Estes são meus princípios, se não gostar, tenho outros.

Só para lembrar:

Terça-feira, dia 17 de setembro, Alfredinho faria 76 anos.
Vamos festejar sua memória e “presença” no seu eterno bar, com uma série de atividades (entre elas, o lançamento do livro “Alfredinho, sobrenome Bip Bip”).
Capa e projeto gráfico: Hortensia Pecegueiro
Fotos: Leninha Raposo
Edição: Myrrha
Todos os amigos estão convidados.

https://jorgesapia.wordpress.com/2019/09/15/alfredinho-sobrenome-bip-bip/

Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Esse post foi publicado em Textos. Bookmark o link permanente.

4 respostas para Uma noite no Bip Bip, o menor maior boteco do Rio de Janeiro.

  1. jorgesapia disse:

    Daniel, boa tarde. Nem todo dá saudade mas o Bip com certeza da.

    Curtido por 1 pessoa

  2. danielbucker disse:

    E não é que a gente fica louco de vontade de estar no meio dessa confusão? Ô saudade desse meu Rio de Janeiro!

    Curtir

  3. jorgesapia disse:

    Obrigado Maria!

    Curtido por 1 pessoa

  4. kethuprofumo disse:

    Feliz anniversario, Jorge! Boa festa! 🙂

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.