Leandro Vieira e o poder da criação.


BastidoresDaCriação: O enredo para um carnaval é algo caro demais pra mim. Ele é o que me motiva a crer que o que realizo pode ir mais longe. Esse último, o do “Jesus da gente”, foi alvo das mais diversas críticas. Críticas inclusive, vindas da Escola que o considerava perigoso. Tenho pra mim que o perigo que a comunidade via no enredo tenha ligação direta com o medo que a comunidade tenha de se mostrar diante do público como de fato ela se exibe no dia a dia. Periférica, negra, favelada, e, por isso, marginalizada. Quem mora no morro sabe como eles são olhados quando descem do morro.

Eu, Leandro, enquanto artista sou sensível demais para aquilo que me cerca e isso é o que eu mais tento preservar para garantir a manutenção da verdade daquilo que realizo. Por isso mesmo, nos últimos anos, tenho feito dos carnavais da Mangueira algo mais reflexivo.

Desde 2016, que me obrigo a fazer o caminho da volta para a casa passando pela comunidade que represento. Eu até podia escolher outros caminhos, inclusive mais seguros, mas me obrigo a passar por alí todos os dias como quem realiza um exercício: vê-la fora do carnaval é enxergá-la para o carnaval e é impossível pra mim não querer apresentar a Mangueira no carnaval da maneira como eu a apresento até aqui.

São incontáveis cenas de jovens pretos com a mão na cabeça, a revista no muro, a abordagem nos carros. Muitos reconheço de longe como integrantes de algum segmento da escola e isso embrulha o sentimento da gente. Nós últimos anos, subi o morro da Mangueira três vezes. Se eu contar pra vocês a pobreza que assola logo os primeiros becos de quem sobe o morro, vocês certamente não acreditariam. Saber que a Mangueira canta, assusta e emociona. O Cartola, esse gênio popular que eu conheci a vida inteira pelos discos, certa vez disse que: “habitada por gente simples e tão pobre, que só tem o sol que a todos cobre, como pode Mangueira cantar?”. Isolado, o verso já é lindo. Lá de dentro, diante da miséria que salta aos olhos, ele te revira ao avesso.

As três visitas ao Morro e as passagens diárias pela comunidade certamente me fizeram outra pessoa. E essa pessoa é a mesma que faz o carnaval da Mangueira. O que produzo para a Mangueira dos últimos anos é exatamente o que a Mangueira me mostra precisar. Não apenas para o carnaval, mas sim, para a rotina diária.

É preciso ver heroísmo nessa gente. É preciso dar-lhe protagonismo. É preciso dizer que o juventude preta, tatuada e platinada não é o “bandido” que tá na cruz alegórica.

Remar contra a maré cansa porque a maré é mais forte que o braço. Mas remar com o braço contra a maré fortifica os músculos de quem rema. As notas dez nas cinco cabines – o único quesito nota cinquenta da Mangueira – cala os muitos que estão na espreita de que o carnavalesco peque pelo discurso. A nota máxima em samba-enredo cala os muitos que esperam que o discurso traduzido em samba seja penalizado.

Sabe o que vocês precisam saber: Que a verdade liberta. A verdade liberta porque ela dói. E é na dor que eu aprendi – olhando para a Mangueira – que a gente precisa de asas.

Sobre jorgesapia

Abduzido pela folia foi tentar entender esse fenômeno no bacharelado de Ciências Sociais da UFF e no Mestrado em Sociologia do IUPERJ. Com sua identidade secreta dá aulas de sociologia, cultura brasileira e Teoria Social do Carnaval em diversas instituições. Entre um semestre e outro, despede-se de seus alunos com um Meu Bem, Volto Já, saudação que acabou dando nome ao bloco que fundou no Leme. Durante o reinado de Momo compõe sambas para diversos blocos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
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