Fique em casa

Meu amor eu fico em casa

Mas saio todos os dias

A imaginação é fértil

E a esperança auxilia

Invento mil fantasias

Sigo letras, melodias

Que aceleram ou sossegam

Meu inquieto coração

Mesmo entre quatro paredes

Solto as velas e velejo

Vou além do horizonte

Fico aquém do meu desejo

Me encontro em mil devaneios

Me perco em cada minucia

Sigo as mais diversas tramas

Desses lábios de carmim

Dessa saudade que chama

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Assista a “Ivete Sangalo e Rosa Passos – Acústico dunas” no YouTube

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Querelas do Brasil. Aldir Blanc e Maurício Tapajos

O Brazil não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazil
Tapi, jabuti, liana, alamandra, alialaúde
Piau, ururau, aquiataúde
Piau, carioca, moreca, meganha
Jobim akarare e jobim açu
Oh, oh, oh

Pererê, camará, gororô, olererê
Piriri, ratatá, karatê, olaráO Brazil não merece o Brasil
O Brazil tá matando o Brasil
Gereba, saci, caandra, desmunhas, ariranha, aranha
Sertões, guimarães, bachianas, águas
E marionaíma, ariraribóia
Na aura das mãos do jobim açu
Oh, oh, oh


Gererê, sarará, cururu, olerê
Ratatá, bafafá, sururu, olará
Do Brasil S.O.S. ao Brasil
Tinhorão, urutú, sucuri
O Jobim, sabiá, bem-te-vi
Cabuçu, cordovil, Caxambi, olerê
Madureira, Olaria e Bangu, olará
Cascadura, Água Santa, Pari, olerê
Ipanema e Nova Iguaçu, olará


Do Brasil S.O.S. ao Brasil
Do Brasil S.O.S. ao Brasil

Compositores: Aldir Blanc Mendes / Mauricio Tapajos Gomes

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Aldir e a sombrinha.

Luis Fernando Veríssimo


O Jaguar sabia da nossa admiração por ele e organizou uma excursão à Zona Norte. Objetivo: conhecer o Aldir Blanc. Ele nos recebeu em sua casa, na Rua Garibaldi, Tijuca.

Me lembro que uma das peças da casa era ocupada por uma mesa de sinuca profissional, o que me pareceu adequado, assim como a sua barba de profeta. Aldir era um lacônico notório, e como eu não sou de falar muito, o Jaguar tinha previsto que nosso encontro seria uma troca de silêncios. Não foi, conversamos. Fomos conversando no caminho da casa ao Bar da Dona Maria, na esquina, onde nos esperavam pastéis de bacalhau inesquecíveis e o compositor Moacyr Luz , parceiro do Aldir em muitas músicas, com seu violão. A noite acabou na Casa da Mãe Joana, que eu não sei se ainda existe, com show do Walter Alfaiate e canja do Aldir no tamborim, igualmente inesquecíveis. O grande letrista, grande cronista e grande cara também era bom no tamborim!
Aldir Blanc e João Bosco escreveram a música tema da reação à ditadura que, segundo o Bolsonaro, nunca existiu, e da campanha pelas eleições diretas e a redemocratização do país. “O bêbado e a equilibrista” fala da volta sonhada do exílio do irmão do Henfil e da dor das viúvas de vítimas da repressão, como a companheira do jornalista Vladimir Herzog , assassinado pelo regime militar. Quem hoje carrega faixas pedindo outra intervenção militar como a de 64 não sabe como foi, sabe mas não se importa ou sabe e aprova com entusiasmo.
O quase hino do Aldir e do João Bosco também falava da esperança que subsistia nos tempos negros, a “esperança equilibrista” que andava na corda bamba “de sombrinha” ameaçando cair. Quem poderia imaginar que depois de tudo o que passamos e padecemos, na certeza de que, acontecesse o que acontecesse, ditadura nunca mais, estaríamos de novo carregando uma sombrinha metafórica numa corda bamboleante, sem saber o que nos espera no próximo passo? Os generais de fatiota que hoje ocupam o governo nos asseguram que não vem golpe. Não vem porque já veio, e nem precisaram de tanques na rua. Entraram no poder pela porta principal, atendendo a convites.
De qualquer maneira, não solte essa sombrinha.

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Copacabana.

Do tempo que eu saia e via. Bom dia para todos! #fiqueemcasa

A festa é boa para pensar

Faz dois dias que chove no Rio de Janeiro e eu aqui, cantarolando Carioca de Adriana Calcanhotto e fazendo uma reverência para sua afirmação: “Cariocas não gostam de dias nublados”.

Meio macambuzio vi uma fresta de sol atravessando as nuvens, calcei o tênis, coloquei o boné e resolvi dar uma caminhada pela orla de Copacabana. Alguns pingos dágua, uns tímidos feixes de sol e os personagens da cidade firmes e fortes nas suas diversas atividades. Uma série de vendedores ambulantes estendendo seus panos coloridos no calçadão para expor seus produtos. A imagem do Cristo Redentor nos mais diversos tamanhos é a que predomina. Não me surpreende saber que o ícone da cidade é fabricado na China.

Foto de Custodio Coimbra

Não demorou muito e apareceu um vendedor de caipirinhas tentando seduzir um casal de turistas. O esmero com que  apresentava as propriedades mágicas que a cachaça tem…

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Uma Janela em Copacabana

Desde minha janela em Copacabana leio Luiz Alfredo Garcia-Roza; meço o tempo que transcorre lento; zapeio na TV; guardo e confiro meus arquivos; registro o pouco movimento desta rua; manuseio o tamborim na hora do panelaço e mantenho, a postos, o instrumento que permite abrir o caminho para a felicidade.

#Copacabana; #RiodeJaneiro; #Literatura #Pandemia; #Brasil

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43 Anos de Luta pela Memória, Verdade e Justiça.

Homenaje a Madres de Plaza de Mayo.

No dia 30 de abril de 1977, 14 mães ocuparam pela primeira vez o espaço público que sintetiza e simboliza o poder político na Argentina: a Plaza de Mayo. Seus filhos, sequestrados pelas Forças Armadas, foram vítimas da nova metodologia repressiva na America Latina: o desaparecimento forçado de pessoas.

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Esse gesto inaugural se projetou numa série de ações políticas adotadas, no âmbito da defesa dos direitos humanos e das políticas públicas de recuperação da memória histórica, em diversas realidades,  dentre elas: Comissões de Verdade na Bolívia (1982), Argentina (1983) Uruguai (1985 e 2000), Zimbábue (1985), Uganda e Chile (1986) África do Sul (1995) e Brasil (2011).

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A ocupação da Plaza de Mayo resultou da oportuna sugestão de Azucena Villaflor de Vicente, mãe de um desaparecido. Num cenário de silêncio e terror social vislumbrou a necessidade de transcender a busca individual ao propor uma ação conjunta com outros afetados. A sugestão nos remete à reflexão arendtiana do agir político. Arendt, em seu elogio da ação e do discurso, diz que para atuar coletivamente não é necessário ter uma compreensão precisa da história, basta encontrar palavras adequadas no momento oportuno para dar origem a uma ação. Portanto, se agir significa tomar iniciativa, a sugestão do encontro e a iniciativa de ocupação da Plaza de Mayo virou ação política. Ação que rompeu o silêncio que todo autoritarismo exige e resgatou palavra, interditada pela ditadura cívico-militar que implantou o terrorismo de Estado na Argentina.

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Com Nora de Cortiñas. Presidente de Madres de Plaza de Mayo Linea Fundadora.

Há 42 anos se originou o movimento das Mães e das Avós da Plaza de Mayo, responsáveis, estas últimas, pela denúncia de um novo delito: o plano sistemático de apropriação dos filhos dos desaparecidos. Sua Luta permitiu recuperar, até hoje, 120 filhos e netos de um total de 500 sequestrados após o parto e desaparecimento de suas mães. Solidariedade, apoio emocional e firmeza na sua confrontação com o Estado orientaram a ação de Mães e Avós. Se a ação e o discurso são, como insiste Hanna Arendt, “a efetivação da condição humana da natalidade”, isto é, da capacidade de recomeçar, podemos entender quando as Mães afirmam que foram paridas pelos seus filhos. Recomeço que, como sugere Walter Benjamin, abre a possibilidade de contar a história a contrapelo, isto é, do ponto de vista dos oprimidos.

Foram 43 anos de luta e superação diária. Tentaram desestruturá-las com o sequestro e desaparecimento da sua fundadora, Azucena e treze outras mães, no aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1977. Com muito medo e dor retornaram à Praça e lá se mantiveram firmes, apesar das ameaças, durante o Campeonato Mundial de Futebol em 1978. Ganharam, durante o evento, reconhecimento da mídia internacional e nova esperança. Foram estigmatizadas pela propaganda oficial, durante a visita que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) realizou no país em 1979. Nessa oportunidade, enquanto Mães e familiares se organizavam para formular suas denúncias, os produtores do medo anunciavam que “os argentinos eram direitos e humanos”.  É bom lembrar que as Mães e as Avós da Praça de Mayo foram das poucas vozes levantadas, em 1982, contra  a Guerra das Malvinas – arquipélago ocupado pela Inglaterra em 1833 e que orienta, até hoje, leituras nacionalistas.

A derrota militar nas Ilhas Malvinas, seguida de vertiginosa recriação do espaço público, transformaram, Mães e Avós da Praça de Mayo, em interlocutores privilegiados no processo de transição política. Nesse contexto, a palavra de ordem “julgamento e castigo a todos os culpados” – palavra que recupera a recomendação do informe da Comissão Interamericana sobre o Desaparecimento de Pessoas (CIDH) – tornou-se demanda hegemônica do Movimento de Direitos Humanos (MDH), sustentada na opinião pública que enfatizava o não esquecimento do terrorismo do Estado.

Já na democracia, o presidente Raúl Alfonsín (1983-1989), criou a Comissão Investigadora Sobre a Desaparição de Pessoas, CONADEP. Suas recomendações foram incorporadas pela (CIDH) na convenção de Belém do Pará em 1994. A convenção considera a desaparição de pessoas delito “continuado ou permanente, enquanto não se estabelecer o destino ou paradeiro da vítima”.  Sua adoção permitiu, até hoje, a condenação – em julgamentos que respeitam todas as garantias legais – de 253 acusados. No Brasil, por exemplo, permitiu ao Ministério Público Federal em São Paulo (MPF/SP) denunciar à Justiça o coronel reformado  Brilhante Ustra, comandante do (DOI-Codi-SP) no período de 1970 a 1974.

A “Lei de Ponto Final’ e da ‘Obediência Devida”, ambas de 1987, e o indulto, promulgado pelo Presidente Menem (1989-1999) foram duros golpes no movimento.  Ensejaram, porém, a formação de uma agrupação de descendentes diretos das vítimas da repressão – Filhos dos Desaparecidos. Os FILHOS inventaram o “escracho”, isto é, a denúncia pública dos repressores nas suas casas, nos seus bairros, no seu trabalho. Vale lembrar que, enquanto modalidade de ação política, o “escracho” foi realizado no Brasil, em 2012, por ocasião das comemorações do Golpe de 1964.

Finalmente, o passo decisivo para a recuperação da memória e da justiça foi dado pelo presidente Néstor Kirchner, em 2004, ao discursar na Assembleia Geral da ONU e se assumir como filho das Mães e das Avós da Praça de Mayo. Nessa oportunidade, declarou a inconstitucionalidade das leis de “Ponto Final” e da “Obediência Devida”, ratificando a ideia de que os desaparecimentos, sequestros e torturas, são delitos contra a humanidade, isto é, categoria de ilícitos que repugnam a consciência universal.

Memória, Verdade e Justiça, bandeiras desfraldadas na sua longa trajetória, acenam com a possibilidade de reencantar um mundo que hoje teima em retornar às trevas.

As Mães da Praça de Mayo comemoraram 43 anos de luta em pé, mostrando que a memória é um mecanismo eficaz  contra a impunidade.

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