Sobre o poder da criação.

 

Primeiramente e, como cantou Roberto Ribeiro em Brasil: berço dos imigrantes, devo dizer que é tempo de carnaval.  Tempo que se move – salve João Nogueira – pelo poder da criação. Tempo rico em encontros e parcerias. Tempo no qual os compositores dos blocos que desfilam em forma de cortejo, com um conjunto percussivo e com sambas autorais feitos especificamente para a ocasião, começam a ficar agitados.  Há nos blocos do carnaval de rua um campo de criação da qual participam, numa fertilização cultural interessante, músicos tanto profissionais quanto amadores; compositores com trânsito no mercado fonográfico e muitos que aprenderam o ofício na pressão da folia e que, nem sempre, se aventuram a ingressar em domínios mais profissionais mantendo o processo criativo na esfera da sazonalidade. Tampouco se identificam como sambistas – categoria importante no universo das escolas de samba discutida por Maria Laura Cavalcanti.

Os compositores dos blocos produzem suas músicas premidos pelo tempo que corre de forma inexorável e a dilatação, por parte dos responsáveis pelas agremiações, dos prazos para marcar as escolhas dos sambas que serão cantados durante o cortejo. Não é incomum, escolher a obra num dia e desfilar dois dias depois. É tempo suficiente para imprimir as letras que serão distribuídas entre os foliões, que tomam, então, conhecimento da melodia e do tema focado. Há neste momento um sentido de surpresa e descoberta. Se observa também uma recusa à desmobilização, abrindo a possibilidade de contar outra história, que inclui a informalidade da brincadeira de rua, do riso, da ironia, da crítica social e de costumes, elementos presentes nos sambas que animam os cortejos.

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Os compositores que militam nas escolas de samba, se movimentam num universo cujos contornos estão demarcados pelo enredo e detalhados na “sinopse do enredo” elaborada pelo carnavalesco da escola e apresentada, de maneira pedagógica, em diversos encontros semanais, como esclarece Maria Laura Cavalcanti em Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile.

O enredo é aquele elemento por meio do qual a forma estética padronizada do desfile se abre ao contexto histórico e cultural, pois a renovação anual de seu tema assegura-lhe a atualidade e a diversidade. Orientando o espetáculo, os enredos promovem a cada ano imensas conversas urbanas sobre os mais diferentes assuntos. Assim, garantem a continuidade e a renovação do desfile, tornando-o um referencial para a constante construção, reiteração e alteração de identidades (carioca, brasileiro, salgueirense, mangueirense, carnavalesco, anticarnavalesco, etc.) […] esse ritual, ao mesmo tempo padronizado e flexível, tem sua própria história, e é preciso compreendê-lo em sua relação com a vida da cidade. (CAVALCANTI, 2006: 82)imprensa-djalma

 

A apresentação do enredo aos compositores constitui, diz a autora, um momento crítico no ciclo dos desfiles.  O detalhamento e a explicitação daquilo que deve ou não entrar no samba estabelece uma espécie de coautoria entre carnavalesco e compositores. Na medida em que “Um samba-enredo elabora ideias e palavras dispostas por outrem, retirando da prática do ‘fazer poesia’ um dos seus prazeres”, é comum que os compositores não se sintam muito à vontade com esse tipo de cerceamento.  (CAVALCANTI, 2006: 118)

Diferentemente dos compositores acima mencionados, geralmente reconhecidos a partir de sua identidade como sambistas[i], os compositores dos blocos de rua trabalham num universo de menor controle da sua produção, o que permite maior liberdade para tratar de temas da agenda política e de costumes sem o cerceamento acima referido. No caso que nos interessa pensar, os rituais e as escolhas temáticas assumem formas diferentes. Por regra geral se observa a produção de crônicas bem humoradas, críticas ácidas, e releituras irreverentes da história recente no Rio de Janeiro, do Brasil e do mundo, num processo dialógico com as manchetes de jornal.

As narrativas produzidas no samba, elaborados muitas vezes por parcerias construídas em função da disponibilidade de tempo, tem maior autonomia e espontaneidade. Feitos “no calor dos acontecimentos” têm, geralmente, o registro da urgência. Essa peculiaridade é bastante acentuada em algumas agremiações. No bloco carnavalesco Imprensa que eu Gamo, criado por jornalistas que participavam da Caminhada pela Paz organizada em 1995 pelo Movimento Reage Rio e por Betinho, o Herbert de Souza, irmão de Henfil, não foram poucas as vezes que o samba vencedor incorporou, na letra, as manchetes do jornal do dia da disputa. Muitas vezes era a frase que os compositores esperavam para, na sua linguagem, “arredondar” o samba que estava quase pronto. Aqui também, portanto, e parafraseando Cavalcanti “pode-se perder ou ganhar um Carnaval ai” (2006:104). A composição é, muitas vezes, finalizada poucas horas antes da apresentação e o elemento surpresa joga importante papel. Pode se perder ou ganhar ai também na apresentação.  Não só, é claro, pela presença de um interprete afinado, mas pelo ritual que carnavaliza à própria defesa do samba em disputa. E, se  carnavalização se refere à ambivalência, ao inacabamento, à subversão e ruptura em relação ao mundo oficial, o ritual quase sagrado do concurso e da disputa é profanado pelas fantasias que descrevem o samba defendido. Há também aqui a urgência que afirma que o carnaval, finalmente, chegou, em tempos sombrios, para alegrar o coração.

 

 

Bibliografia

CAVALCANTI, Maria Laura. Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006.

SAPIA, Jorge e ESTEVÃO, Andréa. “Narradores e narrativas do carnaval de rua carioca”. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, V.11 N.2. Novembro. 2014

 

  • A foto é de Vergilius Fernandes

 

 

 

[i] Ver a este respeito Maria Laura Viveiro de Castro Cavalcanti. O Carnaval Carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006. Cf. particularmente o capítulo 3.

Sobre Artimanhas, Nuvem Cigana, Charme da Simpatia e bambu.

Assisti ontem, no cine Odeon, o desbundante longa de Claudio Lobato e Paola Vieira As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana. O filme recupera a memória de uma cidade que se deixou capturar pela poética de Bernardo Vilhena, Chacal, Ronaldo Santos, Lobato,Ronaldo Bastos, Lobato, Nanico, Pedro Cascardo, entre muitos outros que oxigenaram a cidade em tempos tão sombrios como o que nos toca viver.

 

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O lema tudo junto e misturado estava presente nas festas de  poesia, batida de limão, futebol, alegria, maconha, samba, LSD, sexo e Carnaval que eram as artimanhas, o pano de fundo, o palco e a plateia da nuvem e do seu rebento carnavalesco, O Charme da Simpatia.

A juventude carioca que nos setenta estava antenada com o carnaval transitava por Olinda, no Recife, e por Búzios e Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Em Búzios nasceu o Bloco Carnavalesco Lítero Musical Euterpe Charme da Simpatia. De alguma maneira, a lógica performática que hoje se faz presente nas novas modalidades de participação carnavalesca estava presente no Charme da Simpatia, bloco não territorializado, que desfilou, em 1975, em Ipanema, Botafogo e Vista Alegre, num tempo em que colocar um bloco na rua era quase uma revolução – conforme conta o poeta e compositor Chachal, em Uma história à margem. O bloco foi tomando forma nas peladas do Clube Caxinguelê, que era:

uma espécie de Embaixada da Suíça. Ali a gente podia se reunir sem levantar           suspeita de formação de quadrilha. Afinal, era uma simples pelada. E muitos            dos livros, almanaques, sambas, calendários, shows e artimanhas da Nuvem             Cigana e do bloco carnavalesco Charme da Simpatia foram urdidos ali, antes,          durante e depois daqueles embates titânicos (…) Eles vinham do movimento            estudantil e das batucadas em Búzios, onde já ensaiavam o Bloco Carnavalesco        Lítero Musical Euterpe Charme da Simpatia. Eles queriam ter algum tipo de              ação que não fosse a luta armada ou mesmo a tradicional política dos grupos de       esquerda. Juntou-se a febre com a vontade de ferver.

 

O Charme permitiu, conforme conta Lobato, “sentir o enorme prazer de estar junto, de poder falar, de ocupar a rua”. Os integrantes do Charme e do movimento de poesia marginal Nuvem Cigana, participaram da criação e da ala dos compositores do Bloco Suvaco de Cristo, criado em 1986, e do Bloco das Carmelitas, fundado em 1990. Desfilaram também no emblemático Cacique de Ramos, como relata Chacal[1]:

Participei de uma saída no Cacique. Meio-dia. Avenida Antônio Carlos. Um calor colossal. As mulheres à frente do bloco. A bateria no meio e os homens atrás. No meio do desfile, em frente às autoridades, os caciques em círculo sentaram na Avenida. E um lenço com lança-perfume rolou na roda. Levantaram zuados e seguiram o desfile. Na saída do percurso, como de hábito, a polícia caiu de pau. Os índios recuaram, tiraram as hastes das alegorias de mão e arremessaram na polícia. Uma nuvem de lanças cobriu a Avenida Antônio Carlos. Como dizia um dos célebres dísticos da Nuvem Cigana, esse de Ronaldo Bastos: “enquanto houver bambu, tem flecha”.

Pois é rapaziada, nestes tempos bicudos a onda é plantar bambu.

 

 

[1]http://www.hotsitespetrobras.com.br/cultura/upload/project_reading/0_Trecho_Online_Uma_historia_a_margem.pdf

Bairrismo à portuguesa.

Bairrismo à portuguesa.

O pessoal nascido na capital portuguesa costuma dizer que a coisa mais interessante que há no Porto é a estrada que leva a Lisboa. Não posso confirmar essa afirmação. Não conheço a estrada. As duas vezes que lá estive cheguei de comboio na bela Estação de São Bento inaugurada em 1916. Os painéis de azulejos que cobrem a extensão total do hall central registram entre outras preciosidades a entrada de D. João I e de D. Filipa de Lencastre na cidade em 1387; a conquista de Ceuta de 1415, ou ainda, a apresentação de Egas Moniz de Riba Douro ao rei de Leão. O conjunto da obra é um regalo para os olhos.

São Bento

Ponto de partir e de chegar para os diversos recantos da cidade não é, parece-me, um não lugar. É um lugar com encantos, encontros, sorrisos, abraços e prantos. A estação é linda e de lá chega-se a qualquer lugar da cidade. Se subir a Rua 31 de Janeiro, chega-se ao Largo da Batalha, à igreja de Santo Idelfonso, ao teatro nacional São João. Subindo à esquerda, colado à Livraria Latina, o café no Majestic, a nossa Colombo, é parada obrigatória. Se subir a rua Santa Catarina – quase paralela à rua da Alegria – chega-se à capela das Almas construção do século XVIII,  com uma fachada de azulejaria portuguesa do início do século XX assinada por Eduardo Leite:  http://www.portopatrimoniomundial.com/capela-das-almas.html.

Igreja bolhão

Pois é, se resolver ficar à noite pelo bairro do Bolhão, na mesma rua Santa Catarina é possível frequentar, quartas e sábados um fado vadio no restaurante A Rampinha.

Da estação do Bolhão, descendo pela rua Fernandez de Tomaz no sentido Trindade, comparece, majestosa, a Câmara Municipal do Porto. Subindo, Cedofeita, Trindade e Lapa. Descendo, pela Av. dos Aliados, se apresenta a bela à sinuosa rua das Flores, por onde, assim como quem não quer nada se vai até o cais da Ribeira.   Majestic café

Do outro lado do rio Douro está a simpática Vila Nova de Gaia, com seu convidativo conjunto de adegas de vinho do porto. Por aqui também o bairrismo se faz presente: a melhor coisa de Gaia é a vista do Porto. Me rendo às evidencias e concordo, não sem antes sorrir lembrando de Niterói.

O barbeiro que não é de Sevilla mas que adora uma pândega.

O barbeiro que não é de Sevilla mas que adora uma pândega.

Certifiicado do reinado

Sai do Rio com o firme propósito de fazer minha barba com um Barbeiro de Sevilla. Cheguei a cantarolar algumas estrofes da Música de Rossini, Figaro qua, Figaro la…Mas não deu. Fiz, para registro, uma foto com meu amigo Hugo Bomfim, caso precise um dia contar uma história a respeito.Alguns dias após essa foto, desembarquei em Ovar, distrito e Aveiro, Portugal. Não sei se é correto falar desembarquei. Em verdade saltei do trem que tomei na estação de Santa Apolônia, em Lisboa.

Uma vez no destino optei por fazer um reconhecimento do terreno indo a pé até o hotel. Pedi informações no primeiro bar, lotado de nativos, que aproveitam o almoço almoçando para bebericar alguma coisa e colocar o papo em dia. Fui informado que a distância até o hotel era pequena. Na primeira esquina, à direita de quem vai, vi uma pequena barbearia. Pequena mesmo, não maior do que 8 metros quadrados. Duas cadeiras, um espelho, várias fotos e o mestre Álvaro no comando das navalhas. Não pensei duas vezes, entrei, cumprimentei, sentei e fui observando, com o rabo do olho, o ambiente. A operação foi realizada com presteza e no maior silêncio. Confesso que   não fico muito à vontade quando alguém passeia as lâminas pelo meu pescoço. Observo sempre um silêncio ritual que, até agora, tem dado bons resultados.

Depois do pagamento e já em segurança, puxei uma conversa. Meu interlocutor, revelou-se um contador de histórias de colocar Sherazade no chinelo. Ao saber que era argentino, me indicou uma fotografia do time local, pelo qual passou um compatriota que, em 1951, vestia a camisa 10. O bom desempenho do artilheiro e questões diplomáticas de boa vizinhança entre Perón e Salazar, fizeram com que Evita Perón enviasse 200 bolas de futebol para a cidade de Ovar. A conversa ia assim se enveredando para arte da bola até chamar minha atenção uma fotografia que mostrava seu Álvaro com uma coroa na cabeça.  Quando comentei o encontro com Andréa Estevão incorporou, rapidamente, Marisa Toste e falou: Pronto, formou!

Don AlvaroEntão, estava eu em Ovar para falar num Congresso de cinema sobre o carnavalesco nas chanchadas da década de 1950 quando, por essas coincidências que a vida tem, me encontrava olho no olho, no maior conversê, com quem tinha sido escolhido Rei do Carnaval na cidade em 2010. Don Álvaro, com um sorriso que o acompanha até nos piores pesadelos, contou-me deliciosas histórias sobre a história do carnaval na cidade. Falou saudoso sobre as piadas, isto é, cortejo de foliões individuais que colocam o dedo na ferida na Terça-Feira Gorda. E olhem que colocar o dedo na ferida em tempos de Salazar é qualquer coisa digna de nota. Mostrou-me diversas fotos e explicava o sentido da fantasia de cada uma delas. Foi discorrendo sobre a irreverência, a crítica política, a crítica social e de costumes com um faro preciso.

Li, com gosto, o seu discurso de posse. Pega aqui e ali nas mutretas municipais: “Ordenei demolir o mamarracho do Parque Sra. Da Graça. Ordenei levantar todas as pedras da Praça da República porque este recente melhoramento foi inútil”. Preocupado com a mobilidade de um município com grande número de idosos ordenou “a reparação de todos os passeios da cidade para evitar quedas e trambolhões”.

Registrou as nefastas consequências da Troika e as quebras sucessivas:“Sua majestade A Rabor, morreu, sua Majestade a Philips morreu, as fábricas dos Bonifácios morreram, a Atlântica e a Sociedade Mercantil também morreram (…) Os comerciantes estão todos com a corda na garganta, os proprietários das boutiques adormecem ao balcão. As únicas que vão vendendo são as boutiques Chinesal e Ciganal”.

Essencialista, faz críticas pontuais ao processo de espetacularização do Carnaval, às escolas de samba e a lógica do mercado e, depois de passar em revista as mazelas comuns que nos acometem, saúde, desemprego e outros quetais, ordena que “quando desfilar no corso de carnaval no Domingo Gordo e Terça-Feira na Av. Sá Carneiro e Rua de Timor as senhoras ponham as Coxas nas janelas. Termino dando Vivas ao Carnaval de Ovar. Viva quem tem barriga e quem não tem que viva também”.

E pela sua delicadeza e alegria Viva Don Álvaro Silva, o meu barbeiro de Ovar.

Discusro de posse seu AlvaroO mundo está cozidoNoivo AzaradoO mundo está cozidoCritica à saúdeMercado Comum

 

Uma noite de Flamenco no Sacromonte.

Uma noite de Flamenco no Sacromonte.

Renovei minha vontade de conhecer Granada, na Andaluzia, ao ler uma citação do poeta e professor Luis García Montero, feita por Nestor Canclini no artigo Imaginários culturais da cidade. Diz Montero que “Cada pessoa tem uma cidade que é uma paisagem urbanizada de seus sentimentos”. A decisão de conhece-la não deixou lugar para qualquer tipo de arrependimento. A cidade com nome de fruta (romã/Granada) me arrebatou. Atravessada pelo Rio Darro, as águas, do rio e das fontes, deslizam suave e convidativamente, na mesma cadência do Flamenco de Tomatito ou de Camarón de la Isla.

O Darro margeia o bairro comercial da cidade e pode ser acompanhado pela encosta que leva ao bairro muçulmano de Albaycín. Na subida veio à memória Fiesta, música de Joan Manoel Serrat, que não ouvia desde os anos setenta:  “Vamos subiendo la cuesta que arriba mi calle se vistió de fiesta”. Foi como se estivesse a antecipar o inantecipável.

Pouco antes da rua que leva ao mirador de San Nicolas e a sua deslumbrante vista da Alhambra, quebramos à esquerda no sentido de Sacromonte, bairro cigano de Granada que concentra diversos tablados de Flamengo nas Cuevas escavadas nas encostas do caminho que dá nome ao bairro. Passamos pela Cueva de La Rocío – cheia de uma garotada disposta a amanhecer na companhia de vinhos e guitarras.

 

Zambra de Maria la Canastera

Procuramos algo um pouco mais intimista e chegamos à Zambra de Maria la Canastera ou La Venta del Gallo. Trata-se de uma gruta caiada de 3 metros de largura por 10 de comprimento. Entrando à direita, uma pequena cozinha. Ao fundo, um quarto, separado da sala por um cortinado, e do lado esquerdo outro pequeno quarto que fazia as vezes de camarim dos dançarinos. As paredes decoradas com fotografias e panelas de cobre dos mais diversos formatos e tamanhos.

 


Flamenco

 

 

 

 

 

 

O show durou uma hora. Cinco mulheres, voz e palmas, um exímio violonista e Paco, um jovem e esguio cigano que também mostrou aquilo que viemos procurar. Extasiados pela força das ciganas, no cante, nas palmas e na performance, a entrada do Paco, pareceu, a princípio mais do mesmo. Porém, por essas casualidades que a vida as vezes oferece Paco nos deixou extasiados. No meio do sapateado, o atrito provocado pelo solado e o chão, produziu uma faísca que percorreu o curto espaço entre o sapato e as cadeiras do público que assistia maravilhado a apresentação.

Não todos perceberam esse segundo de luz. Quem olhava o movimento dos quadris, dos braços e das mãos, perdeu. Quem olhava do tornozelo para baixo, não conseguia conter a admiração e incredulidade. As vozes femininas, viram e imediatamente festejaram: “sácale fuego Paquito que pá eso estamos, niño!”

Paco de granada

 

 

 

 

 

 

 

Na descida, do outro lado do rio, a Alhambra iluminada.

Ôh sorte!

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Desapertem os cintos e embarquem nessa viagem coletiva.

Desapertem os cintos e embarquem nessa viagem coletiva.

Jorge Sapia

      La murga porteña                         

Historia de un viaje colectivo, é o preciso subtítulo do livro de Coco Romero: La Murga Porteña. Nessa viagem deliciosa Romero traça um itinerário que desvela as ruas e os bairros da cidade de Buenos Aires e sua estreita relação com a Murga, expressão da festa popular ou, com ele indica no início do seu trabalho, “Sobre esta forma de vivir el carnaval”. (ROMERO, 2013:22).

A Murga, enquanto modalidade de expressão carnavalesca, chega pela mão da imigração espanhola que desembarca na capital portenha no fim do século XIX. O gênero carnavalesco tem uma longa tradição na Andalucía, particularmente na cidade de Cádiz. O Carnaval gaditano (Carnaval de Cádiz) remonta ao século XVII, se prolonga pelos séculos seguintes e resulta do contato, nos diz Romero, entre os comerciantes venezianos e genoveses que aportam seus costumes carnavalescos na cidade.

Na Argentina e, particularmente, em Bueno Aires, foram diversas as tentativas ao longo do século XX de controlar, segregar, censurar, proibir esta modalidade de manifestação carnavalesca   que faz da rua, da praça pública, seu cenário privilegiado. Com o retorno da democracia na década de 1980 esta modalidade de festa voltou a fazer parte da realidade cultural da cidade. Neste contexto, nos informa Coco, se verifica uma fusão entre arte e política. Esta fusãoresulta de uma maior politização dos grupos que agregaram “uma carga simbólica a la fiesta y um mayor acercamiento de la murga al compromisso social” (ROMERO: 29). Esta modalidade de ocupação do espaço público mantém uma relação de continuidade com suas origens carnavalescas, no sentido de produzir uma crítica fecunda à ordem estabelecida. Como lembra o autor, a noção de carnavalização trabalhado por Mikhail Bakthin no texto A cultura popular na Idade Média e no Renascimento se refere ao inacabamento, ambivalência e ao movimento de desestabilização, à lógica das permutações, à subversão e ruptura em relação ao mundo oficial.

A perspectiva crítica e a sátira política ocupam lugar privilegiado. Como mostra Romero, fazendo referência ao carnaval gaditano: “Não había tema que sucediera em el año que no saliera em coplas. El carnaval era uma espécie de periódico anual, hablado o cantado, condimentado com las sátiras, comentários y gracia gaditana. (ROMERO:2006, 45). É a festa, portanto, a que abre frestas para a construção de outras narrativas, para pautar ou repautar as matérias produzidas pela mídia oficial. É também essa festa que se abre para a produção e construção de memória sobre a cidade e sobre os laços que os cidadãos produzem com seus bairros ou territórios, que permite a construção de um espaço temporal compartilhado, solidário, emotivo, afetivo, criativo, espaço de reconhecimentos do eu e do outro como mostra, com delicadeza, Coco Romero, nessa Historia de un viaje colectivo.

 

 

Desapertem os cintos e embarquem nessa viagem coletiva.

Desapertem os cintos e embarquem nessa viagem coletiva.

Jorge Sapia

      La murga porteña                         

Historia de un viaje colectivo, é o preciso subtítulo do livro de Coco Romero, chamado La Murga Porteña. No seu trabalho o autor traça um itinerário que desvela as ruas e os bairros da cidade de Buenos Aires e sua estreita relação com a Murga, expressão da festa popular ou com ele indica no início do seu trabalho, “Sobre esta forma de vivir el carnaval”. (ROMERO, 2013:22). A Murga, enquanto modalidade de expressão carnavalesca, chega pela mão da imigração espanhola que desembarca na capital portenha no fim do século XIX. O gênero carnavalesco tem uma longa tradição na Andalucía, particularmente na cidade de Cádiz. O Carnaval gaditano remonta ao século XVII, se prolonga pelos séculos seguintes e resulta do contato, nos diz Romero, entre os comerciantes venezianos e genoveses que aportam seus costumes carnavalescos.

Ao longo do século XX foram diversas as tentativas de controlar, segregar, censurar, proibir esta modalidade de manifestação carnavalesca   que faz da rua, da praça pública, seu cenário privilegiado. Com o retorno da democracia na década de 1980 esta modalidade de festa voltou a fazer parte da realidade cultural da cidade. Neste caso, se verifica uma fusão entre arte e política resultado de uma maior politização dos grupos que agregaram “uma carga simbólica a la fiesta y um mayor acercamiento de la murga al compromisso social” (ROMERO: 29). Esta modalidade de ocupação do espaço público mantém uma relação de continuidade com suas origens carnavalescas, no sentido de produzir uma crítica fecunda à ordem estabelecida. Como lembra o autor, a noção de carnavalesco, em Bakthin, se refere ao inacabamento, ambivalência e ao movimento de desestabilização, à lógica das permutações, à subversão e ruptura em relação ao mundo oficial.

A perspectiva crítica e a sátira política ocupam lugar privilegiado. Como mostra Romero, fazendo referência ao carnaval gaditano: “Não había tema que sucediera em el año que no saliera em coplas. El carnaval era uma espécie de periódico anual, hablado o cantado, condimentado com las sátiras, comentários y gracia gaditana. (ROMERO:2006, 45). É a festa, portanto, a que abre frestas para a construção de outras narrativas, para pautar ou repautar as matérias produzidas pela mídia oficial. É também essa festa que se abre para a produção e construção de memória sobre a cidade e sobre os laços que os cidadãos produzem com seus bairros ou territórios, permite a construção de um espaço temporal compartilhado, solidário, emotivo, criativo, espaço de reconhecimentos do eu e do outro como mostra, com delicadeza, Coco Romero, nessa Historia de un viaje colectivo.