Desapertem os cintos e embarquem nessa viagem coletiva.

Desapertem os cintos e embarquem nessa viagem coletiva.

Jorge Sapia

      La murga porteña                         

Historia de un viaje colectivo, é o preciso subtítulo do livro de Coco Romero: La Murga Porteña. Nessa viagem deliciosa Romero traça um itinerário que desvela as ruas e os bairros da cidade de Buenos Aires e sua estreita relação com a Murga, expressão da festa popular ou, com ele indica no início do seu trabalho, “Sobre esta forma de vivir el carnaval”. (ROMERO, 2013:22).

A Murga, enquanto modalidade de expressão carnavalesca, chega pela mão da imigração espanhola que desembarca na capital portenha no fim do século XIX. O gênero carnavalesco tem uma longa tradição na Andalucía, particularmente na cidade de Cádiz. O Carnaval gaditano (Carnaval de Cádiz) remonta ao século XVII, se prolonga pelos séculos seguintes e resulta do contato, nos diz Romero, entre os comerciantes venezianos e genoveses que aportam seus costumes carnavalescos na cidade.

Na Argentina e, particularmente, em Bueno Aires, foram diversas as tentativas ao longo do século XX de controlar, segregar, censurar, proibir esta modalidade de manifestação carnavalesca   que faz da rua, da praça pública, seu cenário privilegiado. Com o retorno da democracia na década de 1980 esta modalidade de festa voltou a fazer parte da realidade cultural da cidade. Neste contexto, nos informa Coco, se verifica uma fusão entre arte e política. Esta fusãoresulta de uma maior politização dos grupos que agregaram “uma carga simbólica a la fiesta y um mayor acercamiento de la murga al compromisso social” (ROMERO: 29). Esta modalidade de ocupação do espaço público mantém uma relação de continuidade com suas origens carnavalescas, no sentido de produzir uma crítica fecunda à ordem estabelecida. Como lembra o autor, a noção de carnavalização trabalhado por Mikhail Bakthin no texto A cultura popular na Idade Média e no Renascimento se refere ao inacabamento, ambivalência e ao movimento de desestabilização, à lógica das permutações, à subversão e ruptura em relação ao mundo oficial.

A perspectiva crítica e a sátira política ocupam lugar privilegiado. Como mostra Romero, fazendo referência ao carnaval gaditano: “Não había tema que sucediera em el año que no saliera em coplas. El carnaval era uma espécie de periódico anual, hablado o cantado, condimentado com las sátiras, comentários y gracia gaditana. (ROMERO:2006, 45). É a festa, portanto, a que abre frestas para a construção de outras narrativas, para pautar ou repautar as matérias produzidas pela mídia oficial. É também essa festa que se abre para a produção e construção de memória sobre a cidade e sobre os laços que os cidadãos produzem com seus bairros ou territórios, que permite a construção de um espaço temporal compartilhado, solidário, emotivo, afetivo, criativo, espaço de reconhecimentos do eu e do outro como mostra, com delicadeza, Coco Romero, nessa Historia de un viaje colectivo.

 

 

Desapertem os cintos e embarquem nessa viagem coletiva.

Desapertem os cintos e embarquem nessa viagem coletiva.

Jorge Sapia

      La murga porteña                         

Historia de un viaje colectivo, é o preciso subtítulo do livro de Coco Romero, chamado La Murga Porteña. No seu trabalho o autor traça um itinerário que desvela as ruas e os bairros da cidade de Buenos Aires e sua estreita relação com a Murga, expressão da festa popular ou com ele indica no início do seu trabalho, “Sobre esta forma de vivir el carnaval”. (ROMERO, 2013:22). A Murga, enquanto modalidade de expressão carnavalesca, chega pela mão da imigração espanhola que desembarca na capital portenha no fim do século XIX. O gênero carnavalesco tem uma longa tradição na Andalucía, particularmente na cidade de Cádiz. O Carnaval gaditano remonta ao século XVII, se prolonga pelos séculos seguintes e resulta do contato, nos diz Romero, entre os comerciantes venezianos e genoveses que aportam seus costumes carnavalescos.

Ao longo do século XX foram diversas as tentativas de controlar, segregar, censurar, proibir esta modalidade de manifestação carnavalesca   que faz da rua, da praça pública, seu cenário privilegiado. Com o retorno da democracia na década de 1980 esta modalidade de festa voltou a fazer parte da realidade cultural da cidade. Neste caso, se verifica uma fusão entre arte e política resultado de uma maior politização dos grupos que agregaram “uma carga simbólica a la fiesta y um mayor acercamiento de la murga al compromisso social” (ROMERO: 29). Esta modalidade de ocupação do espaço público mantém uma relação de continuidade com suas origens carnavalescas, no sentido de produzir uma crítica fecunda à ordem estabelecida. Como lembra o autor, a noção de carnavalesco, em Bakthin, se refere ao inacabamento, ambivalência e ao movimento de desestabilização, à lógica das permutações, à subversão e ruptura em relação ao mundo oficial.

A perspectiva crítica e a sátira política ocupam lugar privilegiado. Como mostra Romero, fazendo referência ao carnaval gaditano: “Não había tema que sucediera em el año que no saliera em coplas. El carnaval era uma espécie de periódico anual, hablado o cantado, condimentado com las sátiras, comentários y gracia gaditana. (ROMERO:2006, 45). É a festa, portanto, a que abre frestas para a construção de outras narrativas, para pautar ou repautar as matérias produzidas pela mídia oficial. É também essa festa que se abre para a produção e construção de memória sobre a cidade e sobre os laços que os cidadãos produzem com seus bairros ou territórios, permite a construção de um espaço temporal compartilhado, solidário, emotivo, criativo, espaço de reconhecimentos do eu e do outro como mostra, com delicadeza, Coco Romero, nessa Historia de un viaje colectivo.