Nós sem rumo

Uma colega de trabalho e amiga da vida que está às voltas com uma dissertação de mestrado sobre carnaval de rua me pediu para localizar uma foto no meu arquivo. Localizada, vi que matéria da foto do Globo está assinada pelo parceiro – misto de compositor e jornalista – João Pimentel. A foto, feita para registrar o lançamento da camiseta desenhada por Chico Caruso, é também um registro da relação entre o carnaval de rua e os produtores culturais que contribuíram o processo de transformação da Lapa na década de 1990. O bairro das 4 letras tinha, na década anterior, sido objeto de um processo de revitalização criado no governo de Leonel Brizola através da implementação do projeto “Quadra da Cultura”.

Em meados da década de 1990 um público de foliões, músicos e compositores, vinculados aos blocos carnavalescos marcaram presença nos espaços seminais do circuito do samba inventado na região que -Herivelto Martins classifica como o “…ponto maior do mapa/Do Distrito Federal/Salve a Lapa!

Fazem parte do circuito: o pioneiro Arco da Velha – que ocupava o espaço do último arco do antigo Aqueduto da Carioca, na esquina da Rua Joaquin Silva, na diagonal da Comuna do Semente; o bar Coisa da Antiga, nos fundos de um antiquário na Rua do Lavradio 100 e, posteriormente, o Bar Carioca da Gema, na Av. Mem de Sá.

Me descobri na foto com alguns amigos: Thiago Cesário Alvim e Mariana, Fátima e meus parceiros Rafael Dummar e o saudoso Lefê Almeida, com quem me diverti, cantei, compus e bebi muito nesses anos que passamos entre a Lapa e o Leme.

Revira daqui e dacolá topei com um samba feito na virada do século XXI com os queridos Rafael, Marquinhos Gerard e Zé Renato para o Glorioso Bloco de Segunda. Estávamos, como convêm a samba de bloco, espinafrando – com absoluta razão – o governo de Fernando Henrique Cardoso que hoje volta a marcar presença na cena política nacional.

A recuperação dessa memória, numa conjuntura na qual a ponte para o atraso do positivista que assombra no planalto corre desembestada ladeira abaixo, me fez perceber a atualidade do samba em questão.
Só Tupinambá mesmo para nos colocar no rumo certo.

 

Lista de filmes e documentarios sobre carnaval divulgada pelo Opinião e Notícia

http://opiniaoenoticia.com.br/cultura/confira-lista-de-filmes-sobre-carnaval/

Alô, Alô Carnaval.

O filme de 1936 conta a história das dificuldades de dois produtores em custear a revista musical Banana da Terra. No elenco, nomes como Oscarito, Jorge Murad, Francisco Alvez, Lamartine Babo, Almirante e Carmen Miranda.

Favela dos Meus Amores.  Primeiro filme a retratar a vida nessas moradias pobres e a contar a história de uma escola de samba. A Portela participou do filme tanto na criação das cenas, como contagiando com o seu samba.

Carnaval Atlântida: Xenofontes (Oscarito), um sisudo professor de mitologia grega, é contratado por um produtor como consultor da adaptação do clássico “Helena de Tróia” para o cinema. Só que dois empregados do estúdio sonham transformar o épico grego numa comédia carnavalesca.

O samba que mora em mim. A história do documentário é ambientada no Morro de Mangueira, no Rio de Janeiro, no período de pré-carnaval. O ponto de partida é a quadra da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, lugar do reencontro da diretora Georgia Guerra-Peixe com sua própria história. O documentário, em primeira pessoa, conta o que o carnaval significou na vida e na família da diretora.

Mulatas: um tufão nos quadris.  Documentário conta a história de passistas do Carnaval carioca. Direção: Walmor Pamplona. Duração: 90 min. Classificação: livre.

Orfeu do carnaval. Primeira versão cinematográfica da peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, Orfeu Negro transpõe o mito grego de Orfeu e Eurídice, uma trágica e bela história de amor, para os morros do Rio de Janeiro, durante o Carnaval. Consagrado no mundo inteiro, tendo recebido muitos prêmios, incluindo a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Filme Estrangeiro, o filme foi também um dos marcos fundadores da bossa nova, trazendo músicas clássicas do gênero assinadas por Tom Jobim, Vinicius, Luiz Bonfá e Antônio Maria, como “A Felicidade”, “Manhã de Carnaval” e “O Nosso Amor”.

Orfeu. Esta é mais uma versão da peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, para o cinema. Desta vez com a direção de Cacá Diegues e com música de Caetano Veloso, tendo como protagonistas Toni Garrido e Patrícia França.

Ôdiquê: Três amigos de classe media precisam arrumar dinheiro para passar o carnaval na Bahia. Com a ajuda de um amigo de classe alta eles acabam se envolvendo em uma noite de roubo e sequestro em uma trama eletrizante.

Mataram meu gato: O documentário mostra o processo de remoção e transferência das favelas cariocas de 1960, no Complexo da Maré, a partir da história da escola de samba Gato de Bonsucesso. Além disso, enfoca a realidade das escolas que estão fora da elite do Carnaval carioca, que desfila na Marquês de Sapucaí.

Isto é Noel, de Rogério Sganzerla, é um ensaio documental sobre a música e o tempo do poeta da Vila, que é considerado um dos maiores mestres do samba.

 

Tomei umas bombas pela proa, sinal que a luta vai ficar muito boa.

Hoje tomei umas bombas de gás pela proa, lembrei de um texto e não tenho como deixar de pensar que a coisa tá ficando boa.

 

Hoje é possível imaginar a existência de um ponto de interseção entre os foliões e as muitas multidões que ocupam as ruas do mundo pós-fordista reivindicando, como postula Milton Santos, uma outra globalização. No Brasil e, particularmente, no Rio de Janeiro, os modos de participação nos movimentos que deram origem às “Jornadas de Junho”[i] sugerem um processo de carnavalização da mobilização política.

As manifestações que se disseminaram na cidade e no país, a partir de Junho de 2013, podem ser lidas, também, como experiência carnavalesca “que subverte os poderes opressores e se desdobra em obras polifônicas”,[ii] como pode ser visto no bloco Ocupa Carnaval criado por diversos coletivos de coletivos de cultura, mídia ativistas, movimentos sociais e militantes independentes assinantes da seguinte carta de princípios:

O carnaval é o mais belo grito do povo! Ocupamos as ruas com estandartes, confetes e serpentinas mostrando que o Rio é nosso: suas colombinas e pierrôs estão vivos e pulsam. Abaixo as catracas que transformam a cidade em um grande negócio, onde o lucro prevalece sobre a vida, onde o dinheiro é mais livre que as pessoas. Enquanto capitalizarem a realidade, nós socializaremos o sonho. Viva a energia da rebeldia. Viva a criatividade das fantasias. Viva o Zé Pereira e o Saci Pererê. A cidade não está à venda e               nossos direitos não são mercadoria. Foliões, uni-vos! Ocupa Eles. Ocupa Eu. Ocupa Tu. Ocupa Geral. Ocupa Carnaval.[iii]

Neste sentido se vinculam à perspectiva aberta por Bakhtin, para quem as formas e símbolos da “linguagem carnavalesca estão impregnados do lirismo da alternância e da renovação, da consciência da alegre relatividade das verdades e autoridades no poder”[iv] ou ainda, com Oswald de Andrade que propõe a redescoberta do Brasil “pela invenção e surpresa” dois elementos presentes em toda manifestação carnavalesca que é também manifestação de vida e esperança.

 

 

[i]  Sobre as jornadas de Junho ver Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Ermínia Maricato [et al.] São Paulo: Boitempo, Carta Maior, 2013

[ii] SZANIECKI, Barbara. http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/521910-monstro-e-multidao-a-estetica-das-manifestacoes-entrevista-especial-com-barbara-szaniecki

[iii] https://www.facebook.com/events/269581106531116/?fref=ts

[iv] BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo: HUCITEC/UnB, 1987, p. 10.

 

 

 

 

 

Meu Bem, Volto Já! Carnaval 2017!

Meu Bem, Volto Já! Carnaval 2017!
Povo de Rua
Flávia Leiroz
O Povo da Rua é alegria. O povo da Rua é liberdade. O Povo da Rua somos nós, é você e todos os espíritos de luz que abrem os caminhos da festa que o Meu Bem Volto Já promove no carnaval de 2017.
Os tempos são incertos. Crises fechando possibilidades, drenando liberdades e negando conquistas. Mas no enredo e no samba, Meu Bem Volto Já enfrenta as dificuldades e convoca o Povo da Rua que, no universo de nossa espiritualidade, age incansavelmente para combater as forças das trevas, destrancar caminhos, encaminhar almas perdidas.
O grupo é formado por Exús masculinos e Exús femininos – há Pomba Giras, Zés, Marias, ciganas, ciganos… espíritos em busca de evolução, que escolheram as ruas para ficarem perto de nós, orientando e combatendo o mal.

Quando não se pode lutar pelo bem nos espaços públicos, quando não se pode gritar por justiça, quando diferenças são vistas como defeitos e o silêncio se impõe, chamar o Povo da Rua é iluminar a esperança de que dias melhores virão.
Eles são democráticos, próximos, companheiros – têm o poder de comunicar, ligar e construir relações. Podem brincar, fazer algazarra, mas limpam, nos caminhos por onde passam, pensamentos e emoções negativas. Com alegria, sinceridade, chapéus, saias rendadas, leques, brincos e muita cor, lavam nossas almas.
Por isso, Meu Bem Volto já decidiu: em vez de quebrar a magia, festejá-la. Porque o Povo da Rua não prejudica, não atormenta ou ilude, não promove golpes ou censuras. Agente mágico do equilíbrio universal, trabalha com forças do astral para disseminar a justiça e a liberdade que há no bem. Só assim abre alas, caminhos, trabalho, carreira e o coração para o amor!
Em 2017, o carnaval saúda a luz e ocupa ruas, esquinas, encruzilhadas com o poder transformador que há na resistência ao mal, no culto à alegria, na força, na dança, no canto e na fé! No Povo da Rua e Na Rua!

Saravá!

Sobre o poder da criação.

 

Primeiramente e, como cantou Roberto Ribeiro em Brasil: berço dos imigrantes, devo dizer que é tempo de carnaval.  Tempo que se move – salve João Nogueira – pelo poder da criação. Tempo rico em encontros e parcerias. Tempo no qual os compositores dos blocos que desfilam em forma de cortejo, com um conjunto percussivo e com sambas autorais feitos especificamente para a ocasião, começam a ficar agitados.  Há nos blocos do carnaval de rua um campo de criação da qual participam, numa fertilização cultural interessante, músicos tanto profissionais quanto amadores; compositores com trânsito no mercado fonográfico e muitos que aprenderam o ofício na pressão da folia e que, nem sempre, se aventuram a ingressar em domínios mais profissionais mantendo o processo criativo na esfera da sazonalidade. Tampouco se identificam como sambistas – categoria importante no universo das escolas de samba discutida por Maria Laura Cavalcanti.

Os compositores dos blocos produzem suas músicas premidos pelo tempo que corre de forma inexorável e a dilatação, por parte dos responsáveis pelas agremiações, dos prazos para marcar as escolhas dos sambas que serão cantados durante o cortejo. Não é incomum, escolher a obra num dia e desfilar dois dias depois. É tempo suficiente para imprimir as letras que serão distribuídas entre os foliões, que tomam, então, conhecimento da melodia e do tema focado. Há neste momento um sentido de surpresa e descoberta. Se observa também uma recusa à desmobilização, abrindo a possibilidade de contar outra história, que inclui a informalidade da brincadeira de rua, do riso, da ironia, da crítica social e de costumes, elementos presentes nos sambas que animam os cortejos.

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Os compositores que militam nas escolas de samba, se movimentam num universo cujos contornos estão demarcados pelo enredo e detalhados na “sinopse do enredo” elaborada pelo carnavalesco da escola e apresentada, de maneira pedagógica, em diversos encontros semanais, como esclarece Maria Laura Cavalcanti em Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile.

O enredo é aquele elemento por meio do qual a forma estética padronizada do desfile se abre ao contexto histórico e cultural, pois a renovação anual de seu tema assegura-lhe a atualidade e a diversidade. Orientando o espetáculo, os enredos promovem a cada ano imensas conversas urbanas sobre os mais diferentes assuntos. Assim, garantem a continuidade e a renovação do desfile, tornando-o um referencial para a constante construção, reiteração e alteração de identidades (carioca, brasileiro, salgueirense, mangueirense, carnavalesco, anticarnavalesco, etc.) […] esse ritual, ao mesmo tempo padronizado e flexível, tem sua própria história, e é preciso compreendê-lo em sua relação com a vida da cidade. (CAVALCANTI, 2006: 82)imprensa-djalma

 

A apresentação do enredo aos compositores constitui, diz a autora, um momento crítico no ciclo dos desfiles.  O detalhamento e a explicitação daquilo que deve ou não entrar no samba estabelece uma espécie de coautoria entre carnavalesco e compositores. Na medida em que “Um samba-enredo elabora ideias e palavras dispostas por outrem, retirando da prática do ‘fazer poesia’ um dos seus prazeres”, é comum que os compositores não se sintam muito à vontade com esse tipo de cerceamento.  (CAVALCANTI, 2006: 118)

Diferentemente dos compositores acima mencionados, geralmente reconhecidos a partir de sua identidade como sambistas[i], os compositores dos blocos de rua trabalham num universo de menor controle da sua produção, o que permite maior liberdade para tratar de temas da agenda política e de costumes sem o cerceamento acima referido. No caso que nos interessa pensar, os rituais e as escolhas temáticas assumem formas diferentes. Por regra geral se observa a produção de crônicas bem humoradas, críticas ácidas, e releituras irreverentes da história recente no Rio de Janeiro, do Brasil e do mundo, num processo dialógico com as manchetes de jornal.

As narrativas produzidas no samba, elaborados muitas vezes por parcerias construídas em função da disponibilidade de tempo, tem maior autonomia e espontaneidade. Feitos “no calor dos acontecimentos” têm, geralmente, o registro da urgência. Essa peculiaridade é bastante acentuada em algumas agremiações. No bloco carnavalesco Imprensa que eu Gamo, criado por jornalistas que participavam da Caminhada pela Paz organizada em 1995 pelo Movimento Reage Rio e por Betinho, o Herbert de Souza, irmão de Henfil, não foram poucas as vezes que o samba vencedor incorporou, na letra, as manchetes do jornal do dia da disputa. Muitas vezes era a frase que os compositores esperavam para, na sua linguagem, “arredondar” o samba que estava quase pronto. Aqui também, portanto, e parafraseando Cavalcanti “pode-se perder ou ganhar um Carnaval ai” (2006:104). A composição é, muitas vezes, finalizada poucas horas antes da apresentação e o elemento surpresa joga importante papel. Pode se perder ou ganhar ai também na apresentação.  Não só, é claro, pela presença de um interprete afinado, mas pelo ritual que carnavaliza à própria defesa do samba em disputa. E, se  carnavalização se refere à ambivalência, ao inacabamento, à subversão e ruptura em relação ao mundo oficial, o ritual quase sagrado do concurso e da disputa é profanado pelas fantasias que descrevem o samba defendido. Há também aqui a urgência que afirma que o carnaval, finalmente, chegou, em tempos sombrios, para alegrar o coração.

 

 

Bibliografia

CAVALCANTI, Maria Laura. Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006.

SAPIA, Jorge e ESTEVÃO, Andréa. “Narradores e narrativas do carnaval de rua carioca”. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, V.11 N.2. Novembro. 2014

 

  • A foto é de Vergilius Fernandes

 

 

 

[i] Ver a este respeito Maria Laura Viveiro de Castro Cavalcanti. O Carnaval Carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006. Cf. particularmente o capítulo 3.