Stylete lacaniano é uma revista digital da EPFCL Brasil.

Disponível a 10ª edição do Stylete Lacaniano!
Com artigos de Glória Sadala, Rosana Maldonado, Sheila Abramovitch, Márcio Brandão, Andréa Hortélio Fernandes e Fabiano Chagas Rabêlo. Na galeria de arte, José Alberto Nemer. Boa leitura.

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Espelho, Espelho meu! Espelho, Espelho de todos os neurônios!

Espelho, Espelho meu! Espelho, Espelho de todos os neurônios!

Como a nossa resposta a imigração pode preencher de medo outros cérebros.
 

Este artigo é uma resposta a situação bi-partidária e de conflitos políticos que o povo estadunidense vem enfrentando desde oito de novembro, quando escolheram o exempresário e magnata Donald Trump para conduzir os destinos daquele país.   Foi traduzido e adaptado por Luiz Fernando Silveira1 a partir do artigo da revista Psycology Today, disponível no link 2 postado em 04Fev2017.

 

A imigração tem sido o tema da semana. Foi o foco de uma Ordem Executiva Presidencial, e foi o tema da conversa entre o Presidente Trump e o Primeiro Ministro da Austrália, Malcolm Turnbull. Esta semana houve mais uma vez discussão sobre grupos: sobre quem de um grupo externo deve ser mantido fora e quem deve ser permitido manter-se dentro do grupo chamado os Estados Unidos da América.

Sempre que há dois ou mais grupos, uma parte extraordinariamente antiga do nosso cérebro entra em cena. Sem nos dar conta, nos tornamos motivados pelo medo: medo de que um membro de outro grupo se infiltre em nosso ninho e tome algo. A espécie humana ainda precisa de três coisas básicas para sobreviver. Assim como qualquer outra criatura viva, precisamos de alimento, abrigo e capacidade de reproduzir. Refiro-me a essas coisas como recursos, residência e relacionamentos. Por muito, muito tempo todos estes recursos foram limitados e escassos. Os recursos, as residências, e o número de relacionamentos eram limitados pelo tamanho do seu grupo. Nossos cérebros ainda acreditam muito neste modelo de recursos limitados.

E se um grupo acredita, mesmo se uma pessoa em um grupo acredita, então muitas pessoas e grupos podem acreditar. e Como isso acontece? Em parte devido a neurônios espelho.

“Hum! Isso parece bom. Gostaria de ter um desses!”. Quantas vezes você disse isso ou pensou isso olhando alguém comer ou beber um de seus alimentos favoritos? Ou começar a sentir medo, porque você viu alguém sentir medo? Assistindo um filme, você não se sente triste quando você vê alguém triste? Feliz quando você vê outros felizes? Com raiva se um personagem que você respeita se sente irritado? Essas emoções espelhadas podem ser atribuídas a uma parte específica de nosso cérebro chamada “neurônios espelho”.

Em 1996, uma equipe de pesquisadores da Universitá di Parma, na Itália, publicou um artigo inovador com o título simples; “Reconhecimento de ação no córtex premotor.” Andar, correr, qualquer movimento muscular é, em última instância, influenciado por uma seção na parte superior do cérebro chamada de córtex motor. Os cientistas registraram a atividade elétrica de 532 neurônios de dois macacos. Estes eram neurônios do córtex pré-motor,  localizado logo na frente do córtex motor. Os macacos sendo examinados foram amarrados com correias, e do outro lado foi apresentado um macaco agarrando uma banana. As células pré-motoras ficaram selvagens, sugerindo que o macaco observador estava se preparando para pegar uma banana, mas seus braços não conseguiam se mover. Seus cérebros estavam “espelhando” o movimento do outro macaco. [1]

Isso faz sentido a partir de uma perspectiva evolutiva. Se outro macaco está indo anhar uma vantagem comendo uma banana, o macaco observando começou a se preparar para fazer o mesmo, de modo a não perder um recurso de alimento.

Sabemos que os neurônios espelho não se limitam apenas a comer bananas ou realizar movimentos. Os neurônios espelhados também incluem sentimentos. É por isso que você pode ficar com medo quando você vê outra pessoa com medo: seus próprios neurônios espelho foram ativados. Na verdade, espelhamos um rosto assustado um segundo após ver um outro rosto. [2] Os neurônios-espelho são uma resposta biológica notável para o medo que vemos naqueles que nos rodeiam, e como muitos dos nossos sistemas biológicos foram aperfeiçoando-se para proteger a nossa sobrevivência e preservar a espécie.

Mas se você é influenciado por neurônios espelho, então todo mundo é influenciado por neurônios espelho. Uma vez ciente disso você pode reconhecer a influência sobre você, decidir se uma emoção que você sente é válida, e se não for, então pode mudar a emoção para influenciar a reação de neurônios espelho de outra pessoa.

As primeiras impressões acontecem surpreendentemente rápido. Você já andou por uma rua e observou um estranho? Instantaneamente você está avaliando se você pode confiar neles ou não.Essas primeiras impressões podem ser formadas dentro de 39 milisegundos. [3]

Cada vez que eu comprar algo e eu digo “Obrigado!” E noventa por cento do tempo a outra pessoa diz: “De nada3.” Estas não são palavras insignificantes. Eles decorrem do meu reconhecimento de que a pessoa fez algo por mim, compartilhou um recurso, provou seu valor. Quando eu lhes agradeço, reconheço seu valor. Nesse momento vc está usando a Teoria da Mente para ativar uma resposta de neurônio espelho. “De nada” significa que sou bemvindo ao seu grupo, para compartilhar seus recursos, residência e relacionamento. VOCÊ É BEM VINDO! E quando recebo isso me sinto mais seguro e com menos medo. Dessa forma, é mais provável se sentir protegido de um predador, e não ter que se preocupar sozinho. Essa sensação de segurança é então refletida na outra pessoa. E agora temos duas pessoas que podem compartilhar seus recursos, residências e relacionamentos. Ambos são mais fortes, não diminuídos em tudo. Agora imagine isso em uma escala nacional, internacional e global.

Os seres humanos espelham as emoções de outros seres humanos. Mas agora que você sabe isso você pode escolher que tipo de influência você quer ser.

Aplique isso ao assunto em discussão sobre imigração. Assim que um país proíbe a entrada de pessoas de outro uma variedade de emoções humanas básicas surgem, espelhando uma e outra vez por milhões de outros indivíduos.

Como os seus neurônios-espelho responderam ao nosso mundo após as eleições de 8 de novembro? Quem está te influenciando e como você deseja influenciar os dos outros. O Segundo Princípio da minha I-M Aproach4 é “Você não controlam ninguém. Você influencia a todos.”Que tipo de influência você quer ser?

Notas
1 Luiz Fernando Silveira é especializado em Engenharia de Manutenção, estudante de psicologia na Faculdade IBMR e apaixonado pela complexidade humana.
2 O artigo original foi escrito por Shrand, Joseph A., que atualmente é instrutor de psiquiatria na Harvard Medical School, assistente de psiquiatra infantil da equipe médica do Massachusetts General Hospital, e Diretor-médico da CASTLE (Clean and Sober Teens Living Empowered).
3 “De nada!” foi uma tradução livre e adaptada de “You’re welcome” que para o americano significa literalmente “Você é bem-vindo!”.

Referências:

[1] Brain. 1996 Apr;119 ( Pt 2):593-609. Action recognition in the premotor cortex.Gallese V, Fadiga L, Fogassi L, Rizzolatti G. [2] Emotion. 2007 May;7(2):447-57.More than mere mimicry? The influence of emotion on rapid facial reactions to faces. Moody EJ, McIntosh DN, Mann LJ, Weisser KR. [3] Emotion. 2006 May;6(2):269-78. Very first impressions. Bar M, Neta M, Linz H.

Outsmarting Anger: Seven Strategies for Defusing Our Most Dangerous Emotion. Shrand, J with Devine, L. Josey Bass, 2013

Do You Really Get Me? Finding Value in Ourselves and Others through Empathy and Connection. Shrand, J with Devine, L. Hazelden Press 2015

4 I-M Aproach é uma metodologia criada pelo Dr. Joseph A. Shrand que prevê que cada célula em nosso corpo, e cada domínio dos nossos relacionamentos está fazendo o melhor que pode em cada momento particular. Os quatro domínios são representados pela soma do seu ambiente doméstico, a soma do seu ambiente social, a soma dos seus conceitos individuais e atuais, ou seja, como eu me vejo e como eu acho que os outros me vêem e finalmente a integral do atual potencial genético/biológico/estado evolutivo atual. Diponível em < http://www.drshrand.com/blog/m-story/&gt;. Acesso em 09 de fev. 2017.

Sobre o poder da criação.

 

Primeiramente e, como cantou Roberto Ribeiro em Brasil: berço dos imigrantes, devo dizer que é tempo de carnaval.  Tempo que se move – salve João Nogueira – pelo poder da criação. Tempo rico em encontros e parcerias. Tempo no qual os compositores dos blocos que desfilam em forma de cortejo, com um conjunto percussivo e com sambas autorais feitos especificamente para a ocasião, começam a ficar agitados.  Há nos blocos do carnaval de rua um campo de criação da qual participam, numa fertilização cultural interessante, músicos tanto profissionais quanto amadores; compositores com trânsito no mercado fonográfico e muitos que aprenderam o ofício na pressão da folia e que, nem sempre, se aventuram a ingressar em domínios mais profissionais mantendo o processo criativo na esfera da sazonalidade. Tampouco se identificam como sambistas – categoria importante no universo das escolas de samba discutida por Maria Laura Cavalcanti.

Os compositores dos blocos produzem suas músicas premidos pelo tempo que corre de forma inexorável e a dilatação, por parte dos responsáveis pelas agremiações, dos prazos para marcar as escolhas dos sambas que serão cantados durante o cortejo. Não é incomum, escolher a obra num dia e desfilar dois dias depois. É tempo suficiente para imprimir as letras que serão distribuídas entre os foliões, que tomam, então, conhecimento da melodia e do tema focado. Há neste momento um sentido de surpresa e descoberta. Se observa também uma recusa à desmobilização, abrindo a possibilidade de contar outra história, que inclui a informalidade da brincadeira de rua, do riso, da ironia, da crítica social e de costumes, elementos presentes nos sambas que animam os cortejos.

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Os compositores que militam nas escolas de samba, se movimentam num universo cujos contornos estão demarcados pelo enredo e detalhados na “sinopse do enredo” elaborada pelo carnavalesco da escola e apresentada, de maneira pedagógica, em diversos encontros semanais, como esclarece Maria Laura Cavalcanti em Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile.

O enredo é aquele elemento por meio do qual a forma estética padronizada do desfile se abre ao contexto histórico e cultural, pois a renovação anual de seu tema assegura-lhe a atualidade e a diversidade. Orientando o espetáculo, os enredos promovem a cada ano imensas conversas urbanas sobre os mais diferentes assuntos. Assim, garantem a continuidade e a renovação do desfile, tornando-o um referencial para a constante construção, reiteração e alteração de identidades (carioca, brasileiro, salgueirense, mangueirense, carnavalesco, anticarnavalesco, etc.) […] esse ritual, ao mesmo tempo padronizado e flexível, tem sua própria história, e é preciso compreendê-lo em sua relação com a vida da cidade. (CAVALCANTI, 2006: 82)imprensa-djalma

 

A apresentação do enredo aos compositores constitui, diz a autora, um momento crítico no ciclo dos desfiles.  O detalhamento e a explicitação daquilo que deve ou não entrar no samba estabelece uma espécie de coautoria entre carnavalesco e compositores. Na medida em que “Um samba-enredo elabora ideias e palavras dispostas por outrem, retirando da prática do ‘fazer poesia’ um dos seus prazeres”, é comum que os compositores não se sintam muito à vontade com esse tipo de cerceamento.  (CAVALCANTI, 2006: 118)

Diferentemente dos compositores acima mencionados, geralmente reconhecidos a partir de sua identidade como sambistas[i], os compositores dos blocos de rua trabalham num universo de menor controle da sua produção, o que permite maior liberdade para tratar de temas da agenda política e de costumes sem o cerceamento acima referido. No caso que nos interessa pensar, os rituais e as escolhas temáticas assumem formas diferentes. Por regra geral se observa a produção de crônicas bem humoradas, críticas ácidas, e releituras irreverentes da história recente no Rio de Janeiro, do Brasil e do mundo, num processo dialógico com as manchetes de jornal.

As narrativas produzidas no samba, elaborados muitas vezes por parcerias construídas em função da disponibilidade de tempo, tem maior autonomia e espontaneidade. Feitos “no calor dos acontecimentos” têm, geralmente, o registro da urgência. Essa peculiaridade é bastante acentuada em algumas agremiações. No bloco carnavalesco Imprensa que eu Gamo, criado por jornalistas que participavam da Caminhada pela Paz organizada em 1995 pelo Movimento Reage Rio e por Betinho, o Herbert de Souza, irmão de Henfil, não foram poucas as vezes que o samba vencedor incorporou, na letra, as manchetes do jornal do dia da disputa. Muitas vezes era a frase que os compositores esperavam para, na sua linguagem, “arredondar” o samba que estava quase pronto. Aqui também, portanto, e parafraseando Cavalcanti “pode-se perder ou ganhar um Carnaval ai” (2006:104). A composição é, muitas vezes, finalizada poucas horas antes da apresentação e o elemento surpresa joga importante papel. Pode se perder ou ganhar ai também na apresentação.  Não só, é claro, pela presença de um interprete afinado, mas pelo ritual que carnavaliza à própria defesa do samba em disputa. E, se  carnavalização se refere à ambivalência, ao inacabamento, à subversão e ruptura em relação ao mundo oficial, o ritual quase sagrado do concurso e da disputa é profanado pelas fantasias que descrevem o samba defendido. Há também aqui a urgência que afirma que o carnaval, finalmente, chegou, em tempos sombrios, para alegrar o coração.

 

 

Bibliografia

CAVALCANTI, Maria Laura. Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006.

SAPIA, Jorge e ESTEVÃO, Andréa. “Narradores e narrativas do carnaval de rua carioca”. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, V.11 N.2. Novembro. 2014

 

  • A foto é de Vergilius Fernandes

 

 

 

[i] Ver a este respeito Maria Laura Viveiro de Castro Cavalcanti. O Carnaval Carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006. Cf. particularmente o capítulo 3.

Trump e a involução da espécie.

Segundo o Aurélio, a ideia de preconceito refere-se  ao “Conceito ou opinião formados antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos; ideia preconcebida. 2. Julgamento ou opinião formada sem se levar em conta o fato que os conteste; prejuízo. 3. P. ext. Superstição, crendice; prejuízo. 4. P. ext. Suspeita, intolerância, ódio irracional ou aversão a outras raças, credos, religiões, etc.:”

O preconceito tem um caráter social. Os seres humanos nascem livres de preconceitos; eles são construídos socialmente e geralmente servem para manter e consolidar a coesão social, a integração do grupo ou da sociedade contribuindo com a construção da ordem social que resulta da implantação, através de processos de socialização, dos valores ou da visão de mundo dos setores dominantes.

Devemos diferenciar, contudo, o preconceito do etnocentrismo. A noção de etnocentrismo, é utilizada para designar as visões que identificavam à fronteira da humanidade com a própria sociedade, língua, classe social, religião ou caráter nacional, colocando, tudo o que se encontra  além dessa fronteira, no terreno da natureza, do não civilizado ou fora da humanidade, com eram, por exemplo, as representações cristãs sobre os muçulmanos durante as Cruzadas dos séculos XI ao XIII. A sociologia nos ensina que olhar e explicar o mundo desde um ponto de vista centrado na própria experiência social e cultural é uma disposição universal dos seres humanos. Sendo a humanidade sócio-centrica, o etnocentrismo é. do ponto de vista sociológico, um fenômeno normal

O preconceito, por sua vez, se caracteriza por uma tomada de posição moral. O indivíduo com predisposição para o preconceito rotula e desqualifica o comportamento diferente, deslegitimando o mundo daqueles cujos valores não coincidem com os valores do grupo de referência. Geralmente o preconceito apresenta-se com um conteúdo negativo, isto é, na medida em que não é facilitador de um processo reflexivo que ajude a contemplar e refletir sobre  a diversidade humana permitindo, de alguma maneira, o exercício da tolerância. Assim, os juízos provisórios que, mesmo desmentidos pela análise científica ou por argumentos racionalmente elaborados, se mantém inalterados, são considerados preconceitos. Dependendo de sua intensidade o preconceito pode ser perigoso para a sociedade e para o indivíduo.  Os elevados índices de violência orientados por preconceitos contra diversas minorias atestam o perigo que uma atitude preconceituosa, intolerante, de negação das diferenças, pode representar para a sociedade. A história está cheia de exemplos sobre a “banalidade do mal” orientada por atitudes preconceituosas – racistas ou homo fóbicas – cuja intensidade é bem maior nos contextos nos quais a   liberdade de opinião não pode ser exercida.

A liberdade de opinião, consagrada como direito humano fundamental desde a Declaração de Direitos na Revolução Francesa, em 1789, encontra-se limitada pelo direito do outro de não ser difamado, discriminado ou violentado por suas escolhas de consciência ou preferências afetivas e sexuais.

Nos tempos que seguem vamos, ao que parece, na contramão da perspectiva Darwinista. Tudo indica que involuímos.

 

 

Outras descobertas: Cabral rima com polícia federal.*

 

No Carnaval de 1934, no Rio de Janeiro, caiu no gosto popular uma marchinha cujo título é História do Brasil. Seu compositor, Lamartine Babo, foi um dos responsáveis pela invenção da tradição das marchinhas que animam, ainda hoje, os festejos carnavalescos. A marchinha que embalou os foliões no carnaval de 1934 começa assim:

                         Quem foi que inventou o Brasil?

                         Foi seu Cabral. Foi seu Cabral

                        No dia vinte e um de abril

                         Dois meses depois do carnaval

Lamartine ressignifica a “A carta do achamento do Brasil” escrita por Pero Vaz de Caminha em Abril de 1500. Reafirma, em seus versos, um dos mitos fundadores da cultura brasileira: a invenção do Brasil por Portugal e registra a centralidade da festa carnavalesca transformada em símbolo da identidade nacional, na década em que a marchinha foi criada. Desde então, como festa instituída pelo Estado Nacional, o Carnaval estará sujeito tanto a incentivos, quanto a controles do poder público        

Passados oitenta anos do lançamento da marchinha do Lamartine, e dois meses antes do carnaval de 2013, foi descoberto na mesma cidade, um outro seu Cabral. Desta feita, trata-se do Governador do Estado do Rio de Janeiro, eleito para o seu segundo mandato, em 2010 e gozando, até a sua redescoberta, de boa saúde política. Embora existam registros de compositores do carnaval de rua que produziram versos e rimas críticos em sua intenção e direção.  Foi nessa época que o seu Cabral – Governador – amparado em decisão judicial, mandou desocupar as instalações do antigo Museu do Índio, conhecido hoje como Aldeia Maracanã. O prédio construído em 1862 é hoje um casarão deteriorado e ocupado, desde 2006, por vários coletivos e diversas etnias que defendiam a construção, no local, de um grande centro cultural. O Governo do estado, entretanto, orientou suas políticas públicas na cidade pelas determinações da FIFA, e a ocupação da Aldeia Maracanã interrompia o calendário de obras da Copa do Mundo.  O local seria destinado a outro projeto: a construção de um estacionamento próximo ao novo estádio. O governador confirma em entrevista que “O Museu do Índio, perto do Maracanã, será demolido. Vai virar uma área de mobilidade e de circulação de pessoas. É uma exigência da FIFA e do Comitê Organizador local. Viva a democracia, mas o prédio não tem qualquer valor histórico, não é tombado por ninguém. Vamos derrubar[i].

            O anuncio da demolição foi o estopim para o primeiro conflito em um ano fértil de confrontos nas ruas da cidade entre o poder público e diversos segmentos da sociedade civil que conquistaram partir de então espaço público e publicidade. Para surpresa geral os jovens voltaram às ruas fora do período carnavalesco com alegria, disposição e criatividade. E, como palavra de ordem, ressignificaram a propaganda oficial exigindo padrão Fifa na saúde, na educação, na segurança, na mobilidade urbana.  Enfim, como resumia um dos milhares de cartazes desfraldados nessa tsunami cívica: “É muito motivo! Não cabe aqui!”

De lá pra cá muita coisa mudou. Outros aventureiros des-cobriram o Brasil profundo mas não amainaram os ventos alisíos que vem das ruas.

 

Trecho do artigo de SAPIA, Jorge e ESTEVAO, Andrea. “Narradores e narrativas do carnaval de rua carioca”. in Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, V.11 N.2. Novembro.

[i] CF. http://www.jb.com.br/rio/noticias/2012/10/18/fifa-desmente-cabral-e-afirma-que-nao-pediu-demolicao-do-museu-do-indio/ consultado em 28/11/2013. 15:54 hs.

A história se repete como tragédia.

Escrevi em outro tempo e em outro lugar a respeito do Impeachemt de Fernando Collor. Se o golpe for aprovado hoje, pela lamentável Camâra de deputados e, caso seja aprovado no Senado, vamos perder mais uma década. Falava então que:

“A mobilização pro impeachment alcançou seus objetivos, porém não foi suficiente para mudar um quadro que se projetou dramaticamente por toda a década de 1990. Década, que viu aumentar os índices de violência e cujas políticas de controle foram orientadas pela lógica da “criminalização da pobreza”, (Bauman, 1999). O diagnóstico principal foi o da construção de uma “cidade partida” (Carvalho, 1994), dividida entre o mundo do asfalto e o mundo da favela. Portanto, o diagnóstico foi o de uma cidade imersa na incomunicabilidade, atemorizada pela violência cotidiana cujos alvos principais foram as vítimas de sempre. Violência que, ao ser espetacularmente difundida através dos meios de comunicação, permite o desenvolvimento de uma consciência coletiva de apoio e justificação das recorrentes práticas de tortura e violações policiais, que permanecem nas diversas experiências democráticas. O clima de individualismo perverso que ordena essa nova configuração social permite a construção de um universo no qual predominam, como discute Jurandir Freire Costa (1987), práticas culturais que conduzem à despolitização radical do mundo”.

Hoje, a possibilidade de superar esse quadro desalentador passa pela mobilização da juventude, pela luta e pela arte. Ontem dia 16 de abril, vespera da manobra golpista, diversos coletivos artisticos, vinculados ao canaval de rua mostraram sua disposição de resistir às tentativas de expansão do projeto neoliberal cujas cabeças visíveis presidem o Congresso Nacional e operam nos bastidores da vice presidencia da República. IMG_5264

#Nãovaitergolpe #vaiterluta,