Prezados, a seguir o texto de Ronaldo Lemos publicado na Folha de São Paulo convidando para a palestra sobre o “Após o Orgânico” do filósofo chinês Yuk Hui que aconteceu ontem no campus da UFRJ. 

ESTAMOS PRESOS A UM TECNOCENTRISMO?

Entre os muitos papéis que a China tem desempenhado, alguns são inconspícuos. O país vem se tornando o celeiro da imaginação (já escrevi aqui que a melhor ficção científica hoje é chinesa). Isso é importante porque, como dizia Jules Michelet, “cada época sonha com a que virá a seguir, criando-a primeiro em sonhos”. Quem sonha melhor é também mais capaz de projetar o futuro.

Mais do que o sonho, vem também de um pensador chinês uma das visões mais originais e poderosas sobre como pensar a tecnologia a partir de uma perspectiva filosófica. O jovem Yuk Hui lançou há pouco um dos livros mais importantes sobre como pensar a tecnologia, chamado “A Questão da Tecnologia na China: um Ensaio sobre Cosmotécnica”.

Nas últimas décadas, o avanço tecnológico foi visto com otimismo: uma força universal, objetiva e pouco problematizada, capaz de fazer avançar nossa capacidade de agir coletivamente, levando ao progresso da cultura, da democracia, da política ou do pensamento científico.

No entanto, as coisas não foram bem assim, e há uma guinada de percepção em curso, bem detectada como premissa por Yuk Hui. A tecnologia vem se mostrando uma força de atomização, que dissolve o coletivo em individualidades cada vez menores e particulares.

A fim de enxergar a tecnologia para além das suas próprias regras, Yuk invoca a busca por uma nova cosmologia, o que permitiria a construção de um olhar “de fora” que coloque a técnica em seu devido lugar, qual seja, de apenas mais um dos elementos da existência. Essa ideia de “cosmotécnica” é libertadora.

O Ocidente vem caminhando em direção a um tecnocentrismo. Que se revela em ideias como a “singularidade”, vendida como evento inevitável para o qual todos devemos nos preparar. Ou, na visão de pensadores como Danny Hillis, para quem o Iluminismo (Englightment) teria sido substituído pelo que ele chamada de Entrelaçamento (Entanglement). Nesse “Entrelaçamento” estaria surgindo uma nova natureza técnica incompreensível para a humanidade -exemplificada pela inteligência artificial- que deslocaria o ser humano para um papel secundário.

Em outras palavras, enquanto o tecnocentrismo prega uma capitulação diante da técnica (tal como a no caso da singularidade ou do entrelaçamento), a articulação de Yuk Hui é no sentido oposto, de fuga desse tipo de determinismo.

Faz sentido. As múltiplas crises provocadas pela tecnologia (do “fake news” à alta da desigualdade) demandam pensamento novo sobre nossa relação com ela. Nas palavras da cientista americana Dana Meadows, o lugar mais eficaz para interferir em um sistema é o “poder de transcender paradigmas”. Todas as outras estratégias -como mudança nos objetivos do sistema, nas regras que se aplicam a ele, sua estrutura ou evolução- são menos relevantes.

Sem um pensamento novo que permita sonhar além da tecnologia, a capitulação torna-se mesmo inevitável. Assim como a lua de Campos de Carvalho, o melhor pensamento crítico à tecnologia também vem da Ásia.

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Cidadania no Brasil: da atualidade de José Murilo de Carvalho

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo Caminho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

Conclusão: A cidadania na encruzilhada 219.

“Percorremos um longo caminho, 178 anos de história do esforço para construir o cidadão brasileiro. Chegamos ao final da jornada com a sensação desconfortável de incompletude. Os progressos feitos são inegáveis mas foram lentos e não escondem o longo caminho que ainda falta percorrer. O triunfalismo exibido nas celebrações oficiais dos 500 anos da conquista da terra pelos portugueses não consegue ocultar o drama dos milhões de pobres, de desempregados, de analfabetos e semi-analfabetos, de vítimas da violência particular e oficial. Não há indícios de saudosismo em relação à ditadura militar, mas perdeu-se a crença de que a democracia política resolveria com rapidez os problemas da pobreza e da desigualdade. Uma das razões para nossas dificuldades pode ter a ver com a natureza do percurso que descrevemos. A cronologia e a lógica da seqüência descrita por Marshall foram invertidas no Brasil. Aqui, primeiro vieram os direitos sociais, implantados em período de supressão dos direitos políticos e de redução dos direitos civis por um ditador que se tornou popular. Depois vieram os direitos políticos, de maneira também bizarra. A maior expansão do direito do voto deu-se em outro período ditatorial, em que os órgãos de representação política foram transformados em peça decorativa do regime. Finalmente, ainda hoje muitos direitos civis, a base da seqüência de Marshall, continuam inacessíveis à maioria da população. A pirâmide dos direitos foi colocada de cabeça para baixo. Na seqüência inglesa, havia uma lógica que reforçava a convicção democrática. As liberdades civis vieram primeiro, garantidas por um Judiciário cada vez mais independente do Executivo. Com base no exercício das liberdades, expandiram se os direitos políticos consolidados pelos partidos e pelo Legislativo. Finalmente, pela ação dos partidos e do Congresso, votaram-se os direitos sociais, postos em prática pelo Executivo. A base de tudo eram as liberdades civis. A participação política era destinada em boa parte a garantir essas liberdades.

(…) Seria tolo achar que só há um caminho para a cidadania. (…) Mas é razoável supor que caminhos diferentes afetem o produto final, afetem o tipo de cidadão, e, portanto, de democracia, que se gera. Isto é particularmente verdadeiro quando a inversão da seqüência é completa, quando os direitos sociais passam a ser a base da pirâmide. Quais podem ser as conseqüências, sobretudo para o problema da eficácia da democracia? Uma conseqüência importante é a excessiva valorização do Poder Executivo. Se os direitos sociais foram implantados em períodos ditatoriais, em que o Legislativo ou estava fechado ou era apenas decorativo, cria-se a imagem, para o grosso da população, da centralidade do Executivo. O governo aparece como o ramo mais importante do poder, aquele do qual vale a pena aproximar-se. A fascinação com um Executivo forte está sempre presente, e foi ela sem dúvida uma das razões da vitória do presidencialismo sobre o parlamentarismo, no plebiscito de 1993. Essa orientação para o Executivo reforça longa tradição portuguesa, ou ibérica, patrimonialismo. O Estado é sempre visto como todo-poderoso, na pior hipótese como repressor e cobrador de impostos; na melhor, como um distribuidor paternalista de empregos e favores. A ação política nessa visão é sobretudo orientada para a negociação direta com o governo, sem passar pela mediação da representação. Como vimos, até mesmo uma parcela do movimento operário na Primeira República orientou-se nessa direção; parcela ainda maior adaptou-se a ela na década de 30. Essa cultura orientada mais para o Estado do que para a representação é o que chamamos de “estadania”, em contraste com a cidadania. Ligada à preferência pelo Executivo está a busca por um messias político, por um salvador da pátria. Como a experiência de governo democrático tem sido curta e os problemas sociais têm persistido e mesmo se agravado, cresce também a impaciência popular com o funcionamento geralmente mais lento do mecanismo democrático de decisão. Daí a busca de soluções mais rápidas por meio de lideranças carismáticas e messiânicas. Pelo menos três dos cinco presidentes eleitos pelo voto popular após 1945, Getúlio Vargas, Jânio Quadros e Fernando Collor, possuíam traços messiânicos. Sintomaticamente, nenhum deles terminou o mandato, em boa parte por não se conformarem com as regras do governo representativo, sobretudo com o papel do Congresso.

(…) Na área que nos interessa mais de perto, o corporativismo é particularmente forte na luta de juízes e promotores por melhores salários e contra o controle externo, e na resistência das polícias militares e civis a mudanças em sua organização. A ausência de ampla organização autônoma da sociedade faz com que os interesses corporativos consigam prevalecer. A representação política não funciona para resolver os grandes problemas da maior parte da população. O papel dos legisladores reduz-se, para a maioria dos votantes, ao de intermediários de favores pessoais perante o Executivo. O eleitor vota no deputado em troca de promessas de favores pessoais; o deputado apóia o governo em troca de cargos e verbas para distribuir entre seus eleitores. Cria-se uma esquizofrenia política: os eleitores desprezam os políticos, mas continuam votando neles na esperança de benefícios pessoais.

(…) Mas o cenário internacional traz também complicações para a construção da cidadania, vindas sobretudo dos países que costumamos olhar como modelos. A queda do império soviético, o movimento de minorias nos Estados Unidos e, principalmente, a globalização da economia em ritmo acelerado provocaram, e continuam a provocar, mudanças importantes nas relações entre Estado, sociedade e nação, que eram o centro da noção e da prática da cidadania ocidental. O foco das mudanças está localizado em dois pontos: a redução do papel central do Estado como fonte de direitos e como arena de participação, e o deslocamento da nação como principal fonte de identidade coletiva. Dito de outro modo, trata-se de um desafio à instituição do Estado-nação. A redução do papel do Estado em benefício de organismos e mecanismos de controle internacionais tem impacto direto sobre os direitos políticos. Na União Européia, os governos nacionais perdem poder e relevância diante dos órgãos políticos e burocráticos supranacionais. Os cidadãos ficam cada vez mais distantes de seus representantes reunidos em Bruxelas. Grandes decisões políticas e econômicas são tomadas fora do âmbito nacional. Os direitos sociais também são afetados. A exigência de reduzir o déficit fiscal tem levado governos de todos os países a reformas no sistema de seguridade social. Essa redução tem resultado sistematicamente em cortes de benefícios e na descaracterização do estado de bem-estar. A competição feroz que se estabeleceu entre as empresas também contribuiu para a exigência de redução de gastos via poupança de mão de-obra, gerando um desemprego estrutural difícil de eliminar. Isso por sua vez, no caso da Europa, leva a pressões contra a presença de imigrantes africanos e asiáticos e contra a extensão a eles de direitos civis, políticos e sociais. O pensamento liberal renovado volta a insistir na importância do mercado como mecanismo auto-regulador da vida econômica e social e, como conseqüência, na redução do papel do Estado. (…) Nessa visão, o cidadão se torna cada vez mais um consumidor, afastado de preocupações com a política e com os problemas coletivos.

(…) A inversão da seqüência dos direitos reforçou entre nós a supremacia do Estado. Se há algo importante a fazer em termos de consolidação democrática, é reforçar a organização da sociedade para dar embasamento social ao político, isto é, para democratizar o poder. A organização da sociedade não precisa e não deve ser feita contra o Estado em si. Ela deve ser feita contra o Estado clientelista, corporativo, colonizado. Experiências recentes sugerem otimismo ao apontarem na direção da colaboração entre sociedade e Estado que não fogem totalmente à tradição, mas a reorientam na direção sugeri da. A primeira tem origem na sociedade. Trata-se do surgimento das organizações não-governamentais que, sem serem parte do governo, desenvolvem atividades de interesse público. Essas organizações se multiplicaram a partir dos anos finais da ditadura, substituindo aos poucos os movimentos sociais urbanos.

(…)José Bonifácio afirmou, em representação enviada à Assembléia Constituinte de 1823, que a escravidão era um câncer que corroía nossa vida cívica e impedia a construção da nação. A desigualdade é a escravidão de hoje, o novo câncer que impede a constituição de uma sociedade democrática. A escravidão foi abolida 65 anos após a advertência de José Bonifácio. A precária democracia de hoje não sobreviveria a espera tão longa para extirpar o câncer da desigualdade.

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Catraca mané!

Catraca mané! O gestor público acordou sobressaltado com essa ideia na cabeça. Qualquer criatura de bom senso teria virado de lado e continuado a dormir, esquecendo o que jamais poderia ser considerado como ideia e muito menos com uma ideia que tivesse qualquer relação com o carnaval. Mas, como parece haver uma profunda incompatibilidade entre gestores da coisa pública e o bom senso, o gestor não só acordou, como levou a ideia a uma reunião de avaliação do carnaval e, lá apresentada, recebeu o aplauso dos pares que mais pareciam impares.

O que aplaudiram? A solução mágica de ordenar o carnaval de rua pela instalação de catracas, isto é, aquela tecnologia aplicada para controlar o acesso de pessoas em ônibus, metros, trens, estádios, etc.

Algum tempo atrás, um filosofo russo, de nome Mikhail Bakhtin (1895-1975) escreveu um longo texto sobre a Cultura popular na Idade Média e do Renascimento no qual destaca a importância do Carnaval entendido como ritual de libertação temporária, constitutivo do reino da utopia, da igualdade e da liberdade que encontra na festa sua plena realização.

De lá pra cá, o Carnaval reafirma, por um lado, essa vocação festiva, transgressora, possível na medida em que se realiza na rua, no espaço público que é, por excelência, o lugar da liberdade; por outro lado, o carnaval tem mostrado uma saudável disposição para fazer circular novas representações sobre a cidade e seus privilegiados cidadãos, que insistem em percorre-la ao sabor do desejo do agir conjunto, coletivo, evidenciado a pluralidade e diversidade. São esses mecanismos da ação coletiva que permitem o exercício do direito de associação orientado para um mundo comum e compartido. Diversos são os protagonismos e diversas as demandas.

As festas, são formas lúdicas de sociação nas quais a troca, a palavra e a comunicação – fundamentos centrais da vida coletiva – potencializam a mobilização dos afetos e desejos de uma cidade outra, não cerceada por catracas, correntes nem cancelas. Esses dispositivos de controle se orientam por uma desconfiança atávica da população historicamente excluída. Desconfiança que resulta de uma sociedade e de uma cidade que nunca reconheceu a cidadania nem a democracia como um valor universal.

Catraca, mané, é racismo, machismo, coronelismo, golpismo e misoginia!

Evoé!

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Neuro derechos. Nuevos derechos.

https://redlcc.org/2019/09/19/buscan-que-los-neuroderechos-se-incluyan-en-la-declaracion-universal-de-los-derechos-humanos/

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Greta Thunberg e a Greve pelo futuro.

https://www.dw.com/pt-br/greta-thunberg-recebe-pr%C3%AAmio-de-direitos-humanos-da-anistia/a-50458848

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Mostra de Artes Visuais.

Reblogando  trabalhos dos meus alunos de Artes Visuais turma de 2018.

jorgesapia.wordpress.com/2018/11/16/i-mostra-de-artes-visuais-univeritas/

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Territórios do brincar.

Para meus alunos de pedagogia.

www.youtube.com/watch

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